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Mulheres inspiradoras

Por que elas decidiram se tornar feministas depois dos 60 anos

A professora Valdenice Oliveira, 69, teve aula na Escola Feminista de Cabo de Santo Agostinho (PE) - arquivo pessoal
A professora Valdenice Oliveira, 69, teve aula na Escola Feminista de Cabo de Santo Agostinho (PE) Imagem: arquivo pessoal

Thiago Camara

Colaboração para Universa

05/04/2021 04h00

O feminismo não tem idade para ser vivido, assumido e divulgado. A busca pela equidade entre homens e mulheres, a necessidade de ocupação feminina na política, a informação e o diálogo para que mais companheiras juntem-se à luta são também preocupações de mulheres idosas. Na série "Filhas de Eva", do Globoplay, a personagem Stella Fantini, vivida por Renata Sorrah, e sua neta Dora (Débora Ozório) conversam muito sobre a emancipação da mulher e descobrem-se feministas, ao seu tempo.

Universa conversou com mulheres que, assim como a personagem de Sorrah, passaram a debater o machismo aos 60 anos e elas contam como foi esse processo.

"Meus filhos me fizeram rever conceitos"

"Trabalhei fora [de casa] dos 19 aos 51 anos e achava que isso era ser uma mulher moderna. Meus filhos que me trouxeram tudo de novo que estou vivendo. Nunca fui uma mulher feminista, estou me descobrindo agora.

Vi minha filha ter uma transformação muito grande na vida dela, de independência, de ir morar junto com o namorado sem ter casado. Esperava que ela casasse, de véu e grinalda, na igreja. Também descobri que meu filho era gay. Passei por várias etapas: o impacto da notícia, o desejo de reversão desse fato, procurar entender e estudar para hoje ter uma aceitação muito grande em relação a tudo isso. Foram situações que mudaram muito meus conceitos perante a vida.

Eles sempre me apresentam coisas novas, como por exemplo a série "O Conto de Aia" que mexeu muito comigo. Um mundo distópico, a mulher tendo que servir ao homem. Ao longo da minha vida, me vi muito nesse lugar. Não que tenha sido obrigada. Meu marido nunca me impôs nada. Mas no inconsciente, isso estava imposto.

A aposentada Hilda Vieira, do Rio, com os filhos Matheus e Natalia - arquivo pessoal - arquivo pessoal
A aposentada Hilda Vieira, do Rio, conta que os filhos, Matheus e Natalia, a fizeram descobrir coisas novas
Imagem: arquivo pessoal

Vejo a relação da minha filha com o marido e acho muito bonito. Vi meu genro esses dias dando banho nos filhos, no maior carinho, e me surpreendi, pois nunca vi essa cena na minha vida. Tinha que dar conta de tudo: preparava as refeições, lavava roupa, dava banho nas crianças. Meu marido trabalhava, sustentava a casa, mas ficava naquele lugar em que o homem não fazia determinadas coisas. Era uma regra não dita.

Falta informação para que para mulheres da minha idade se percebam nesse lugar de feministas. Vejo muitas acomodadas, não procuram se informar, seguem presas a muitos preconceitos. Faltam campanhas para conscientizar as pessoas sobre o feminismo.

*Hilda Vieira, aposentada, Rio de Janeiro (RJ)

"As mulheres precisam se unir mais"

"O racismo e o machismo atravessaram toda a minha vida. Fui chamada de 'cabelo pixaim' e 'negrinha' várias vezes, fui a primeira mulher a ser promovida a chefe de equipe em um dos meus empregos, mas o supervisor não permitiu que eu mudasse de posição. Disse que era por não ter diploma da escola. Me revoltei muito, pois foi uma atitude machista, com certeza. Nessa firma, só homem mandava.

A educação e a independência financeira vão fazer com que a gente dê um grito de liberdade muito maior do que temos alcançado hoje. Estou tentando abrir uma cooperativa para fazer cursos de capacitação para mulheres daqui do Cabo de Santo Agostinho (PE). Estou esperando a segunda dose da minha vacina de covid-19 para ir a campo organizar as coisas.

Escola Feminista do Centro das Mulheres do Cabo foi um curso que fiz no ano passado em que passei três dias com outras mulheres. Aprendemos que precisamos ainda de uma inclusão grande de mulheres na sociedade.

É muito difícil, até hoje, encontrar uma mulher no mesmo setor do homem com salário igual. Se não nos unirmos para reivindicar, isso não vai mudar nunca.

Discutimos a questão do voto. É muito difícil a mulher votar em mulher. Tivemos algumas candidatas a vereadora aqui no Cabo com trabalhos de anos junto às mães da cidade, junto à comunidade, e nenhuma foi eleita. Porque as pessoas ainda votam em quem dá algo em troca. Os homens chegavam e ofereciam cestas básicas e outras coisas e levavam os votos.

Quando você vive num ambiente de desemprego, machista, só levando educação para outras mulheres para haver um choque de realidade."

*Valdenice Oliveira, 69, professora - Cabo de Santo Agostinho (PE)

"Minha filha me abriu os olhos para o machismo"

Mariluci dos Santos_Rio de Janeiro - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
A advogada Mariluci dos Santos, do Rio, acredita que a igualdade de gênero será alcançada com mais mulheres na política
Imagem: Arquivo pessoal

"Sou de um período em que a gente não alcançava o significado de feminismo, nem a eficácia do movimento. Foi minha filha que começou a me chamar a atenção para fatos sobre machismo.

Quando minha filha iniciou sua vida sexual, houve um atrito entre ela e o pai. Conversando sobre isso com ela, chegamos à conclusão que a reação dele foi machista. A partir daí foi o começo para eu perceber a importância do feminismo. A mudança é um processo lento. É muito difícil a equidade entre homens e mulheres por que são situações enraizadas. Conseguiremos diminuir essas diferenças quanto mais houver mulheres empenhadas na política.

O caminho é a mulher no poder. Existem assuntos que dizem respeito muito mais às mulheres do que aos homens que estão lá. No Legislativo, o exercício de um mandato pode trazer benefícios para nós.

Quando uma mulher percebe que outra não conhece o feminismo, é preciso conversar. Assim como minha filha me ajudou a enxergar certas situações em que eu era um pouco alienada e não via como machismo, nós que já temos essa consciência, temos obrigação de chamar as mulheres para a conversa. Não se pode mais ficar alienada sobre esses assuntos. É preciso reformular essas ideias equivocadas que muitas ainda têm.

Conquistas se dão por meio do enfrentamento e da luta da mulher. Temos que usar a conversa e a luta, o enfrentamento e o engajamento."

*Mariluci Santos, advogada - Rio de Janeiro (RJ)

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