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De freira a juíza: enfermeira-obstetra diz por que ajuda mulheres a abortar

O aborto é permitido em três casos no Brasil: estupro, malformação do feto e risco à saúde da mãe - AFP
O aborto é permitido em três casos no Brasil: estupro, malformação do feto e risco à saúde da mãe Imagem: AFP

Depoimento de *Camila a Luiza Souto

De Universa

29/03/2021 04h00

"Sou enfermeira-obstetra, tenho 40 anos e comecei a ajudar mulheres a fazer o aborto há cinco, a partir de uma situação que passei aqui no Rio Grande do Sul.

Estava me formando quando fiquei grávida do meu segundo filho. O primeiro tinha sete anos na época. Não tinha condições financeiras, e ele não foi desejado. Com oito semanas de gestação, tomei um remédio abortivo, senti todos os efeitos, mas o embrião não descia. Entrei em desespero porque sabia que se não tirasse, por causa dos remédios que tomei, o bebê nasceria com problema de saúde.

Encontrei um lugar para abortar, mas quando cheguei fui atendida por uma mulher da área da saúde que nem luvas usava, não dava analgésico e não me tratou bem. Eu ali morrendo de dor, e ela ainda falou: 'Levanta e vai embora porque morrer tu não vai'. A partir dali, comecei a enxergar mais o lado da mulher que precisa de ajuda para abortar. Depois disso, escolhi não ter mais filhos.

E tem outra questão: muitos médicos não gostam de ajudar mulheres que querem abortar. Se alguma chega e eles veem que ela causou o aborto, a tratam com indiferença.

"Tenho minha ética"

Já atendi freira, evangélica, delegada, juíza.

Mas tenho minha ética. Seleciono os casos que pego. Muitos são de malformação fetal, em que a Justiça não autoriza o aborto, ou situações em que a mulher tomou remédios abortivos, e eles não fizeram efeito.

Outro dia, uma moça grávida de cinco meses me procurou. Então falei que a criança já estava formada, que não poderia fazer o aborto, que já seria assassinato. Realizo o procedimento até a 17ª semana, pois não há sofrimento fetal. Após esse período, se inicia a formação do sistema nervoso. Mas analiso cada caso.

Também atendo a vítimas de estupro que não conseguira atendimento, mesmo o aborto neste caso sendo permitido por lei. Teve uma menina que fazia faculdade de história, estava noiva e ficou bêbada numa festa. Ela foi estuprada por vários homens. Quando chegou na delegacia, não quiseram fazer o boletim de ocorrência. O delegado disse que ela causou a situação porque bebeu e se descuidou.

Outra situação que me chamou muita atenção foi a de uma amante de um homem poderoso na cidade, reitor de uma faculdade. Quando ela engravidou pela primeira vez, ele mandou seus capangas darem uma surra nela para perder o bebê, o que não aconteceu. Na segunda vez que engravidou, ele disse que ia matá-la. Foi quando ela me procurou.

Sempre pergunto para as pacientes: 'é tua decisão?' Nesse caso, ela disse: 'ou eu faço ou eu morro'.

Teve um caso em que a mãe levou a filha de 15 anos para abortar, mas a menina não queria. Mostrei para essa mãe que ela precisava respeitar a vontade da filha e aceitar ser avó. E não fiz.

"Atuo sozinha e tenho advogado de plantão"

São muitas as situações. Já veio uma paciente psiquiátrica por indicação médica. A mulher era casada, tinha uma filha, mas usava medicamentos fortes. Decidiu tomar, de uma vez só, 28 comprimidos abortivos, e o feto resistiu. O marido foi junto, mas não autorizo homens a acompanhar a mulher durante o procedimento.

Não tenho uma clínica, mas atendo num local extremamente limpo, com materiais esterilizados e descartáveis. Atuo sozinha, sem assistente.

Sou contra usar medicação para o aborto, mas sei que é a forma mais econômica e conhecida. Inclusive é o que alguns ginecologistas recomendam.

Faço o aborto por sucção, mas para isso tem que saber muito bem a anatomia uterina da mulher, porque alguns úteros são virados, outros mais para a esquerda... E explico o passo a passo, mostro o material, utilizo luvas e só recebo agradecimento. Dependendo do caso, a paciente é liberada no mesmo dia. O procedimento dura em torno de uma hora. Nunca aconteceu nada grave nem ninguém morreu.

Para minha segurança, uso um número de celular que só as pessoas que fizeram o aborto têm, e elas me indicam a outras mulheres. Quem entra em contato, já peço para fazer o exame de ecografia. E checo se é tranquilo atender.

Se eu desconfiar de alguém, não faço. Tenho ainda um advogado que todo mês verifica se há alguma investigação contra mim. Ele sabe que meu trabalho é sério.

Prefiro não falar em valores, porque analiso a situação financeira de cada uma. Não vivo disso nem faço como minha renda principal. É diferente de fazer só por dinheiro.

"Sinto que acolho essas mulheres"

Não trabalho como nesses locais onde chega gente de hora em hora. Atendo uma vez por semana e seleciono quem realmente precisa, vejo se a paciente corre risco. Já recebi mulheres que tentaram perfurar o útero com agulha.

E não é porque sou a favor do aborto que não gosto de crianças. Defendo que, quando uma vem ao mundo, ela tem que ser amada e desejada.

Quem não vive essa realidade, julga a mulher porque não usou contraceptivo. É preciso lembrar que muitas tomam o contraceptivo e ainda assim ele falha. Médicos também não alertam de que certos medicamentos cortam o efeito deles.

Sinto que acolho as mulheres de uma forma que não fui acolhida quando precisei. Não tive ninguém para me abraçar. Foi uma situação muito solitária."

* O nome foi trocado a pedido da entrevistada

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