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Direitos da mulher

"Brasileiras são aliadas fundamentais", diz líder do movimento Ni Una Menos

Ni Una Menos ganhou força em 2016; desde então, organizou cinco greves internacionais de mulheres e foi citado no discurso de posse do presidente Alberto Fernández - Arte/UOL
Ni Una Menos ganhou força em 2016; desde então, organizou cinco greves internacionais de mulheres e foi citado no discurso de posse do presidente Alberto Fernández
Imagem: Arte/UOL

Mariana Gonzalez

De Universa, em São Paulo

09/03/2021 04h00

A América Latina é a região do mundo mais perigosa para as mulheres, segundo a ONU (Organização das Nações Unidas) — na Argentina, uma mulher é morta a cada 30 horas. No Brasil, a cada 9 horas. Mas foi o assassinato precedido de estupro da adolescente Lucía Perez, de 16 anos, há cinco anos, na região argentina de Mar del Plata, que deu origem ao Ni Una Menos (Nenhuma a Menos, em espanhol) — movimento que, como o nome sugere, pede que nenhuma outra mulher seja morta pelo simples fato de ser mulher.

Em uma de suas primeiras manifestações, em 2016, o Ni Una Menos levou 300 mil pessoas à frente do Congresso, no centro de Buenos Aires, e propôs um dia de greve de mulheres, com adesão, inclusive, de alguns órgãos do governo, que dispensaram suas funcionárias para protestar. Menos de um ano depois, no Dia Internacional da Mulher de 2017, a greve se tornou internacional, e parou mulheres em mais de 50 países, inclusive no Brasil.

A ideia era simples: "Se nossas vidas não importam, produzam sem nós", conta Cecilia Palmeiro, escritora, doutora em Literatura Latino-americana e porta-voz do movimento Ni Una Menos, em entrevista a Universa.

O grupo não divulga quantas mulheres estão por trás do movimento e nem o nome de cada uma delas, porque, como explica Cecilia, sua organização se dá de maneira horizontal, ou seja, sem hierarquia.

Cena de um protesto em Buenos Aires organizado por Ni Una Menos em 2016, contra o feminicídio da adolescende Lucía Pérez - Getty Images - Getty Images
Em 2016, o Ni Una Menos organizou um protesto em Buenos Aires após o feminicídio da adolescende Lucía Pérez
Imagem: Getty Images

Greve como modo de ação contra o feminicídio

"Desde 2017, organizamos quatro greves internacionais com mobilizações cada vez maiores e em mais lugares do mundo, e tivemos um forte impacto nas agendas políticas governamentais, especialmente na Argentina."

É fato: o grupo fez forte oposição ao governo do ex-presidente Mauricio Macri e foi elogiado pelo atual mandatário, Alberto Fernández, que, em seu discurso de posse, em 2020, disse que todos deveriam levantar a bandeira contra o feminismo. Também no ano passado, a Argentina celebrou a criação de um novo Ministério da Mulher, Gênero e Diversidade e a legalização do aborto, aprovada pelo Congresso — que Ni Una Menos considera a maior vitória para as mulheres na história recente do país.

Neste ano, por conta das medidas de prevenção ao coronavírus, Ni Una Menos não convocou uma grande mobilização nas ruas — houve uma pequena reunião em Buenos Aires, e o movimento pediu que mulheres protestassem fazendo greve em casa, parando o trabalho remunerado e o doméstico.

"O período de pandemia obriga as mulheres a trabalharem muito mais que antes, seja em casa, seja no trabalho formal, e isso dificulta muito a organização política, restringe o tempo que elas têm disponível para a luta", diz a porta-voz do grupo.

Cecilia Palmeiro é escritora, doutora em Literatura Latino-americana e porta-voz do movimento Ni Una Menos - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Cecilia Palmeiro é escritora, doutora em Literatura Latino-americana e porta-voz do movimento Ni Una Menos
Imagem: Arquivo pessoal

Universa: Em 2017, pouco depois de nascer, Ni Una menos organizou uma greve internacional de mulheres, em mais de 50 países. Que mensagem queria transmitir?

Ni Una Menos: A greve internacional nasceu depois da nossa primeira greve nacional de mulheres, em 2016, organizada como protesto depois do feminicídio de Lucía Perez, de 16 anos, com a cumplicidade da polícia e da Justiça. A greve surgiu como resposta a este crime e também como forma de sairmos do lugar de vítimas e nos posicionarmos como cidadãs, que produzem valor para a sociedade.

O que queríamos dizer era: se a vida das mulheres não vale nada, os homens que produzam sozinhos. Nós, mulheres, movemos o mundo. E podemos pará-lo também.

Desde o nascimento de Ni Una Menos, há cinco anos, avançamos na luta contra o feminicídio e a violência de gênero?

Com certeza. Conseguimos colocar o termo feminicídio no vocabulário das pessoas e jogar luz sobre essa violência, que é inerente ao capitalismo. Nosso maior êxito foi impor a agenda feminista e mostrar que violência contra a mulher não se limita à violência física e sexual, mas a outras formas de agressão: psicológica, econômica, laboral e de falta de acesso à alimentação, à saúde e à educação.

Após a legalização do aborto na Argentina, quais são as principais demandas do Ni Una Menos?

Nesse momento, continuamos organizadas para promover greves internacionais e nossas principais demandas são o combate ao feminicídio, a interrupção voluntária da dívida externa argentina, que provoca piora na economia e impacta diretamente mulheres, especialmente as pobres e chefes de família, e o acesso à terra e à soberania alimentar.

Mulheres celebram legalização do aborto na Argentina, em dezembro de 2020; cor verde simboliza luta feminista no país - Getty Images - Getty Images
Argentinas celebram a legalização do aborto, em 2020; cor verde simboliza a luta feminista no país
Imagem: Getty Images

Além do Ni Una Menos, outros dois movimentos feministas globais tiveram alcance similar nos últimos anos: MeToo y Un Violador En Tu Camino. O que os três têm em comum?

Desde o primeiro grito de Ni Una Menos, nasceu um sujeito político e coletivo que chamamos de maré feminista. A maré cruza fronteiras, culturas, línguas, identidades e vai produzindo diferentes ondas.

MeToo e Un Violador en Tu Camino [Um Estuprador em Seu Caminho, em espanhol] são emanações desta maré: manifestações concretas de lutas específicas dos contextos em que surgem, assim como Ni Una Menos. MeToo denuncia as violências que normalmente calamos, visibilizando abusos sexuais que todas nós sofremos, inclusive em contextos de altíssimo privilégio, como é em Hollywood. A performance de Las Tesis [coletivo de Valparaíso, no Chile, precursor de Un Violador En Tu Camino] traduziu em forma de música e dança conceitos centrais da luta feminista, e isso permitiu que a mobilização cruzasse fronteiras sem enfrentar barreiras linguísticas.

Penso, por exemplo, nas companheiras da Turquia que fizeram a performance nas ruas e foram reprimidas brutalmente, e logo depois as deputadas repetiram a coreografia dentro do Congresso Nacional, em forma de protesto. Ou nas mulheres da Amazônia, que denunciaram a expropriação de suas terras com a mesma canção.

Mulheres turcas entoam canção Un Violador En Tu Camino, criada por feministas chilenas, em protesto em 2019 - Getty Images - Getty Images
Mulheres turcas entoam canção Un Violador En Tu Camino, criada por feministas chilenas, em protesto em 2019
Imagem: Getty Images

Como você vê a relação entre os movimentos feministas do Brasil e da Argentina?

Existe muita conexão e uma enorme afinidade entre as mulheres argentinas e brasileiras, a quem consideramos aliadas fundamentais. A história da política em nossos países está intimamente relacionada desde os anos 1970 [quando os dois países passaram por períodos de repressão] e, desde então, nos inspiramos mutuamente para fazer crescer a luta feminista e também o movimento LGBTQIA.

Como a luta feminista brasileira inspira as argentinas?

O Brasil tem nos inspirado muito há décadas, mas, mais recentemente, posso citar a luta das mulheres negras, que pedem justiça pelo assassinato de Marielle Franco, e a luta das mulheres camponesas e indígenas, com a Marcha das Margaridas e a luta pela demarcação de territórios.

Quais são os desafios de organizar uma mobilização de 8 de março na pandemia?

Os desafios deste ano são maiores não só por conta da crise sanitária, que impede as grandes concentrações, mas porque esse período de pandemia obriga as mulheres a trabalharem muito mais que antes, seja em casa, seja no trabalho formal, e isso dificulta muito qualquer organização política, porque restringe o tempo disponível para a luta. De qualquer maneira, continuamos nos articulando da forma que conseguimos.

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