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Como no BBB, bullying na vida adulta é comum e deixa feridas emocionais

A publicitária Ana Bolina, que superou agressões com ajuda da terapia - Arquivo pessoal
A publicitária Ana Bolina, que superou agressões com ajuda da terapia Imagem: Arquivo pessoal

Natália Eiras

Colaboração para Universa

18/02/2021 04h00

Quando a publicitária Ana Bolina, 29, de Niterói (RJ), mudou de curso na faculdade, não imaginava que seria alvo de bullying já na vida adulta. "Até então, eu não tinha nenhuma questão com o meu corpo. Engordei muito na época e nem tinha percebido", conta. Mas quando chegou na nova turma, um grupo começou a chamá-la de gorda. "Usavam isso como vocativo. Eles não me chamavam pelo meu nome, mas de gorda", conta.

"Levar o outro ao isolamento ou a humilhações repetitivas, piadinhas, desmerecer e desqualificá-lo são situações agressivas em que a vítima sofre, fica acuada e passa a ter uma sensação de solidão, de que não tem parceiros para se defender", diz Bárbara Snizek Ferraz de Campos, psicóloga e mestre em antropologia social, que diz que esse tipo de dinâmica não se restringe ao ambiente escolar.

"O bullying na vida adulta é muito comum, principalmente em ambientes competitivos entre adultos", afirma a psicóloga. Um exemplo disso está sendo acompanhando pelo Brasil todo nas tretas do BBB. Juliette, por exemplo, ouviu muitas piadas sobre seu interesse pelo cantor Fiuk, confinado com ela no reality show. Lucas, já fora do jogo, também foi alvo de piadas, violência verbal e isolamento dentro da casa.

No caso de Juliette, por exemplo, a agressão vinha pelo rebaixamento. "Ela é sempre desqualificada pelo seu sotaque, pelo jeito que ela se veste, por seu interesse pelo Fiuk. Do nada, ela se tornou uma chacota para os outros", diz Bárbara, indicando que isso levou a participante a ficar mais calada.

"Ela passava por mim e fazia comentários para que eu ouvisse"

Mas se quem assiste se espanta com as cenas do BBB, é preciso lembrar que no mundo aqui fora não é diferente. A arquiteta Mariana, 32, de Curitiba, percebeu que o clima em seu trabalho havia mudado quando discutiu com uma de suas colegas de trabalho. "Foi uma discussão profissional, então achei que não teria repercussão na minha relação com a equipe", fala.

Porém, a funcionária, que estava há mais tempo no escritório em que eles trabalhavam, começou a criar situações desconfortáveis durante o expediente. "Ela passava por mim e fazia comentários sobre a minha aparência ou sobre meu trabalho com a intenção de que eu ouvisse", diz Mariana, que pediu para não ter seu sobrenome divulgado.

Pareciam falas quase inofensivas, mas que foram tomando outra proporção ao se tornar um ataque diário. "Eram pequenas situações diárias que, no acúmulo, se tornavam algo muito estressante."

Quando começou a conversar com seus chefes sobre a situação que estava passando, Mariana ouviu da colega de trabalho que ela "era louca". "A funcionária disse que eu estava imaginando coisas e que tinha mania de perseguição. Pior que na época acreditei nela", fala a arquiteta.

Juliette - Reprodução/Globoplay - Reprodução/Globoplay
Juliette, que foi alvo de bullying durante o BBB
Imagem: Reprodução/Globoplay

"Todas as minhas questões de autoestima surgiram nessa época"

Uma das consequências do bullying é que ação pode provocar mais violência. "No ambiente escolar, normalmente é a física. Nas relações adultas, a violência costuma ser verbal", fala a psicóloga. No caso de Ana, o bullying se tornou mais intenso quando ela teve uma discussão com um dos integrantes do grupo que a agredia. "Aí eles começaram a se referir a mim como p***."

A psicóloga Bárbara Snizek Ferraz de Campos diz que, nestes casos, é comum as pessoas terem um comportamento de manada. É assim também no reality. "Aquela pessoa que pratica o bullying começa a crescer a partir do sofrimento do outro dentro do grupo, que segue e imita o que ela faz. Um pouco por admiração pelo poder dela e um pouco pelo medo de ser a próxima vítima", diz.

Segundo a psicóloga, o bullying pode causar fobia social, crise do pânico e até sintomas físicos, como a alopecia e gastrite. Mariana começou a ter crises de ansiedade no trabalho, e só melhorou depois que a colega recebeu proposta de emprego em outro escritório.

Já Ana Bolina preferia ficar sem comer por conta do bullying na faculdade. "Todas as minhas questões de autoestima surgiram nessa época. Alisei o cabelo, mudei roupas, endureci com as pessoas num mecanismo de defesa mesmo. Passei até a ser meio gordofóbica", fala. Hoje ela lida com esses temas com ajuda de terapia.

Como lidar com o bullying na vida adulta

"A pessoa que faz bullying com o outro tenta se afirmar dessa forma. É como se ela usasse a força do outro como uma maneira de se sentir maior. É um desejo de controle e poder", fala a psicóloga. De acordo com ela, o agressor também costuma ter uma autoestima baixa. "É como se ele sozinho, por si mesmo, não conseguisse se sentir bem e precisasse da atenção do grupo. É um comportamento narcisístico que precisa ser levado para a terapia para entender o que leva a pessoa a tê-lo".

Porém, para a vítima que não tem um terapeuta de plantão, a melhor forma de lidar com o bullying na vida adulta é não se mostrar intimidado. "Quanto mais acuada a pessoa sente, mais a situação se agrava. É muito difícil, mas se a pessoa enfrenta o agressor tende a melhorar." É que, sem uma vítima, a piada perde a graça.

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