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Nina Lemos

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

'BBB 22': Esperada mas inaceitável, #ForaLina mostra racismo e transfobia

BBB 22: Linn da Quebrada debate jogo da discórdia - Reprodução/Globoplay
BBB 22: Linn da Quebrada debate jogo da discórdia Imagem: Reprodução/Globoplay
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Nina Lemos

Nina Lemos é jornalista e escritora e mora em Berlim. É feminista das antigas e uma das criadoras do 02 Neurônio, que lançou cinco livros e teve um site no UOL no começo de 2000. Foi colunista da Folha de S. Paulo, repórter especial da revista Tpm e blogueira do Estadão e do Yahoo. Escreveu também o romance "A Ditadura da Moda".

Colunista de Universa

24/03/2022 04h00

"Já pensou se uma mulher negra e trans ganhasse o BBB?" Desde que foi anunciado que a cantora Linn da Quebrada participaria do reality show esse ano, ouvi isso de várias pessoas em tom de sonho. Motivo: o Brasil é o país do mundo que mais mata transexuais. E é também um país extremamente racista, e onde mulheres negras são as maiores vítimas de preconceito e desigualdade.

Linn da Quebrada junta tudo isso. Se ela ganhar o BBB, isso pode ser um marco realmente importante. Vai significar que o carisma (que não é pouco) e o talento de Lina foram maiores que os preconceitos que uma mulher como ela enfrenta.

Não sabemos se ela vai ganhar. E, infelizmente, o que vemos agora, é que os preconceitos andam muito vivos. E que ser travesti e negra ainda é motivo para receber até ameaças de morte.

Linn foi parar nos assuntos mais comentados do Twitter na quarta-feira (23), quando espectadores, a maioria torcedores de Arthur Aguiar, pediram a saída dela do programa. Se fosse só isso, tudo bem. Mas Lina logo virou alvo de ataques racistas, transfóbicos e recebeu ameaças de morte. As mensagens foram denunciadas pelo seu perfil no Twitter. A maioria delas são tão pesadas que me recuso a compartilhar aqui.

Fato: o ódio que Lina recebe é diferente do recebido por um Arthur Aguiar da vida. No caso dela, todo o preconceito e ódio que muita gente ainda tem vêm à tona. É de dar nojo.

O pior de tudo. Acho que ninguém se surpreende com o fato de Lina ser vítima desse tipo de ataque criminoso. Eles representam, infelizmente, a mentalidade de uma parte do país. E, nos últimos tempos, esse ódio tem mostrado muito a cara. Esse é o país onde uma mulher negra como Marielle Franco recebe ataque de ódio mesmo depois de morta.

Ano passado, os ataques racistas contra Karol Conká, participante com maior rejeição na história do programa, já eram um aperitivo do que Lina enfrentaria.

Detalhe: Karol era sim, polêmica, muitas vezes teve atitudes insuportáveis --mas nada disso justifica racismo ou ataque de ódio, claro). No caso de Lina, ela nem é polêmica dentro da casa. Tem amigos, costuma se dar bem com os outros. Claro, ela é uma pessoa. Não é perfeita e, nos últimos dias, desagradou parte dos telespectadores. Isso é normal e acontece com qualquer participante de BBB. O que não é normal, e muito menos aceitável é que ela receba esse tipo de ataque.

Nos últimos dias Lina vem criticando Arthur Aguiar, o participante que tem torcida forte e atitudes machistas dentro e fora do programa. Ele, por outro lado, já avisou que Lina é o seu principal alvo.

É curioso e simbólico que um homem com atitudes machistas e uma mulher trans negra entrem em conflito no programa. Poderia até ser interessante e educativo. Mas, já deu para perceber, esse confronto está sendo como infelizmente costuma acontecer na vida real.

Os ataques a Lina podem até não nos surpreender, mas são inaceitáveis. Racismo e transfobia são crimes. E ameaçar de morte também.