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Minha história

"Não deixei que a dor de um estupro marcasse minha vida sexual para sempre"

Sete anos após ter sido violentada, Pâmela vive uma vida sexual com amor e sem medo - arquivo pessoal
Sete anos após ter sido violentada, Pâmela vive uma vida sexual com amor e sem medo Imagem: arquivo pessoal

Pâmela Rêllo em depoimento a Elisa Soupin

30/01/2021 04h00

"Eu tinha 20 anos e aconteceu em uma tarde de domingo. Dia 7 de abril de 2013, nunca vou esquecer. Estava saindo da casa da minha mãe, na Penha, zona norte do Rio, com a minha namorada para ir ao mercado, quando um homem, armado, bateu na janela do meu carro. Mandou que eu fosse para o banco de trás e assumiu o volante.

Primeiro, parecia um roubo. Ele estava agressivo, dava várias voltas sem destino no quarteirão, até que pegou meu celular e ligou para a minha mãe. Pediu R$ 5 mil em troca da minha vida, ela não acreditou. Achou que fosse um daqueles golpes que dão por aí.

O homem ficou ainda mais nervoso, mandou que minha namorada descesse do carro. E foi dirigindo, para para cada vez mais longe... Como mulher, o medo de ele me estuprar era o que mais temia. E aconteceu: fui violentada no meio de um matagal.

O que veio depois disso faz parte do pacote da dor que carrego ainda hoje. Esmiuçar o acontecido na delegacia, fazer os exames, ouvir as pessoas me perguntarem coisas ridículas do tipo: 'Mas não deu para você fugir?', ' Não tinha como sair do carro?'. Ainda assim, fui em frente: denunciei, fiz um retrato falado, falei sobre o caso até para a TV.

Foram tempos muito difíceis.... Fiquei em tratamento durante 9 meses, fazendo um acompanhamento médico mensal. Fiquei sabendo que antes do que fez comigo, ele estava preso até dezembro do ano de 2012, quando saiu da cadeia no indulto de Natal, e não voltou mais.

"Tinha medo de nunca mais ter uma vida sexual saudável"

Lembro que na primeira noite logo após o estupro, depois de IML, delegacia e hospital, eu tomei um banho muito demorado. Queria companhia o tempo todo, mas não queria que ninguém encostasse em mim. E fiquei assim por um tempo, tinha medo de nunca mais ter uma vida sexual saudável.

Aos poucos, com o passar dos meses, fui retomando a minha vida sexual com a minha namorada. No começo, foi difícil, eu ficava preocupada, com medo de não estar preparada, pensava se iria travar. Mas tudo foi acontecendo de uma forma lenta, sem pressão, muito natural. Hoje não estamos mais juntas, mas ela foi uma parceira e tanto naquele momento difícil.

"Sou bissexual. Talvez, se estivesse com um namorado, ele não entendesse"

Acho que também por ela ser mulher, entendia um pouco mais a minha dor. Sou bissexual e, talvez, se eu estivesse em uma relação com um homem naquele momento, essa conexão e apoio não tivessem sido tão perfeitas. Ela foi muito legal comigo, fez zero reclamações sobre o fato de eu não querer trocar carinho, não ter vontade de transar.

Aos poucos, fui aceitando abraços, um pouco mais de contato. Quando meu namoro com ela terminou, um tempo depois, passei a sempre falar sobre o assunto quando começava a ganhar mais intimidade com alguém, fosse homem ou mulher. Acho que essencial contar esse trauma para as pessoas com quem me envolvo.

Namoro uma mulher há alguns anos e acho importante falar sobre o assunto com ela porque me transformou para sempre, marcou minha vida.

"Não deixei o estupro determinar como seria minha vida sexual"

Hoje, eu me sinto muito forte e livre na cama, não sei se tem a ver com a minha personalidade, mas eu decidi que o trauma pelo qual passei não seria uma coisa que iria determinar minha vida sexual para o resto da vida. Lógico que existem gatilhos, não é que esqueci o que me aconteceu.

Busco pensar nisso da forma mais lúcida possível. Tento ser a protagonista da minha história, não ser eterna vítima desse estupro que aconteceu 7 anos atrás. Se fosse assim, estaria eternamente presa a isso. E viver minha vida sexual sem medo me faz sentir rompendo com a coisa horrorosa que aconteceu comigo.

As pessoas maravilhosas que me cercaram, a minha família que cuidou de mim e a confiança de outras vítimas que tiveram coragem de se abrir: tudo isso foi muito importante. Sinto que me tornei um portal de força para essas pessoas. Estudei violência doméstica no meu TCC em Psicologia e pretendo sempre ajudar mulheres em situação de vulnerabilidade"

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