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#MulheresnoBBB: Leka diz que ainda não se curou da bulimia, mas lida melhor

Leka Begliomini - Reprodução/Instagram
Leka Begliomini Imagem: Reprodução/Instagram

Mariana Gonzalez

De Universa, em São Paulo

13/01/2021 04h00

Quando foi selecionada para a primeira edição do Big Brother Brasil, há quase duas décadas, Leka Begliomini não tinha ideia de como funcionava o programa. Afinal, tudo era novidade pra todo mundo: as provas, as câmeras espalhadas pela casa e, claro, a exposição do horário nobre da Globo. Aos 27 anos, Leka nunca tinha sequer usado biquíni na frente dos amigos, mas no Big Brother se viu obrigada a tomar banho e se pesar em rede nacional. Em algumas cenas, apareceu vomitando. E virou protagonista do debate sobre transtornos alimentares, tema pouco discutido na época.

Antes da estreia do Big Brother Brasil deste ano, em 25 de janeiro, Universa publica histórias de ex-BBBs que levantaram debates importantes, especialmente para as mulheres.

A seguir, Leka relata como foi crescer com o distúrbio, expor a doença, encarar comentários de desconhecidos e, 20 anos mais tarde, lidar de forma mais leve com o que chama de calcanhar de Aquiles.

Atenção: o texto pode conter trechos sensíveis relacionados a distúrbios alimentares e transtorno de imagem.

Leka bbb 1 - TV Globo/Jaq Joner - TV Globo/Jaq Joner
Imagem: TV Globo/Jaq Joner

"Minha vida foi muito marcada por transtornos alimentares. Nunca fui gorda, mas sempre me percebi muito mais gorda do que eu realmente era, e transformei isso numa prisão.

Quando eu saí do BBB, a bulimia virou um assunto enorme. Isso não me incomodava, mas eu não entendia o porquê. Quase 20 anos depois, ainda se fala muito nisso. Aí em 2006 minha filha, Giovanna, nasceu, foi crescendo, se tornando adolescente, e eu entendi. É uma geração toda muito doente. A magreza era muito importante para a minha geração e vejo que hoje os filtros ocupam esse lugar, da eterna busca pela perfeição.

Desde que eu me conheço por gente, tenho vergonha do meu corpo. Aos 10, 11 anos, minha família tinha um sítio e eu levava meus amigos, mas nunca ficava de biquíni, sempre de camisetão, porque me achava gorda. Na época não se falava em bulimia, anorexia, ninguém sabia lidar.

Depois, virei uma adolescente maníaca por dietas. Queria ficar magra e, por mais que eu emagrecesse, nunca estava bom. Apelei para remédios, anfetamina e tudo que me dissessem que ajudava a emagrecer.

Tenho 1,72 metro, cheguei a pesar 53 quilos. Estava anêmica, e me sentia gorda.

Quando entrei no BBB, não tinha a menor ideia do que o público estava vendo ou não. Era a primeira edição, a gente não sabia muito bem como funcionava, não sabia quais cenas seriam transmitidas. Sem querer, fui a primeira pessoa do Brasil a falar de bulimia.

A prova da balança foi bem difícil. Uma pessoa que sempre teve problemas com o peso ter que se pesar em rede nacional? Era uma agressão gigante. Fiquei transtornada. O Bial teve que entrar ao vivo para pedir desculpas. E só ali caiu a ficha de que o Brasil inteiro estava vendo isso.

Naquele momento, eu estava até que bem controlada. Fazia dietas, mas não estava exagerando e nem tomando remédios. Mas imagina: eu nunca tinha botado biquíni na frente dos meus amigos e ali teria que tomar banho na frente das câmeras.

Eu nunca revi essas cenas. Nunca tive coragem.

Depois, foram ao ar cenas minhas vomitando. Na hora foi duro, mas hoje acredito que a Globo, enquanto emissora e no comando de um reality, tinha responsabilidade de transmitir o que estava acontecendo. Não acho que a Globo errou em expor aquilo.

Vomitar é uma pequena parte do problema

São cenas fortes, e acho que por isso as pessoas atrelam muito a bulimia ao ato de vomitar. Mas essa é só uma pequena parte do problema.

Para mim, vomitar nunca foi uma prática diária. Aos 13 anos, me ensinaram a usar laxante no dia que eu comesse um doce a mais, por exemplo. A coisa do vômito eu só aprendi aos 20 e poucos anos, mas eu já era bulímica bem antes disso. Bulimia é a obsessão pela magreza e por expelir qualquer coisa que você ingere. A culpa e a compulsão em relação à comida também são sinais do transtorno.

Quando eu saí, havia todo um discurso em torno dos transtornos alimentares. Tinha virado um debate, mas eu não tinha nada para dizer.

E essa questão do vômito foi tão marcante que, por mais de uma vez, eu estava em restaurantes e as pessoas comentavam coisas como: 'Não vai vomitar depois, hein'. Em outro episódio, fui gravar uma cena com um ator da Globo e o cara me perguntou: 'Você não vomitou né? Escovou os dentes?'. É uma doença grave e complexa, mas as pessoas só se preocupam com o vômito.

Quando veio a proposta da Playboy, topei. Eu achava que quando estivesse nesse lugar, começaria a gostar do meu corpo. Vi ali uma chance de cura. No dia que a revista saiu, percebi que não ia adiantar. Não importava quantas edições fossem vendidas, quantas pessoas pedissem autógrafo, a resposta não estava lá. Chorei pra caramba.

Hoje, aos 46 anos, eu vivo com o mesmo distúrbio, mas coloquei ele num lugar mais suave. Estou longe de estar curada, mas lido melhor a cada dia.

Tem momentos que eu ainda me deparo com a frustração. Tento me manter num peso X, que eu sei que, se passar dali, vai me afetar psicologicamente. É meu calcanhar de Aquiles, então ainda controlo. Mas não quero voltar àquela prisão e nem ser refém da balança como fui por tantos anos.

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