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Minha história

"Fiz um filme sobre anorexia inspirado em experiência que vivi"

Moara Passoni, diretora do premiado filme "Êxtase", também é roteirista do documentário "Democracia em Vertigem" - Janice D´Ávila/Divulgação
Moara Passoni, diretora do premiado filme "Êxtase", também é roteirista do documentário "Democracia em Vertigem" Imagem: Janice D´Ávila/Divulgação

Moara Passoni em depoimento a Camila Brandalise

De Universa

15/12/2020 04h00

"A anorexia foi se instalando aos poucos na minha vida e, de repente, sem perceber, eu estava completamente dentro dela. Por que eu me negava a comer? Era o que me perguntavam e o que hoje me questiono também. Para além da minha experiência, o que tantas mulheres tentam nos dizer com seus corpos muito magros?

Foi dessa necessidade de comunicação que surgiu o filme 'Êxtase', dirigido por mim e baseado na minha vida. Me chamo Moara Passoni e, com "Êxtase", ganhamos o Prêmio do Juri da Associação Brasileira de Críticos de Cinema - Melhor Filme Brasileiro de Diretor Estreante na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo; também ganhamos prêmios na Alemanha, no Canadá e em Portugal. Agora a obra está em Viena e continuará sua jornada em 2021, em outros lugares, também em outras partes do mundo.

'Tinha ódio mortal ao alimento'

Não houve um momento em que percebi os primeiros sintomas. A palavra anorexia eu só fui conhecer quando comecei a ir a médicos. Foi por volta dos 15 anos. Lembro de um específico que disse: 'Você tem anorexia. Se você não comer, você vai morrer'. E eu respondi: 'E daí?'.

Ao longo do tempo, escrevi em um diário sobre esse processo. Relatei: 'A menstruação, aos 11 anos, é interrompida, antes mesmo de começar a perder peso. Começo a controlar a alimentação e passo dos 57 kg aos 52 kg em um ano, dos 52 kg aos 47 kg em dois meses, chegando aos 39 kg — tenho 1,64 m de altura. Me pesava mais de dez vezes por dia.

Diante do espelho, media e analisava cada centímetro do corpo e sentia um prazer mórbido de ver a magreza chegando e, aos poucos, poder apalpar meu próprio esqueleto. Passei a pesar os alimentos para calcular o seu valor calórico. Acreditava ter o exato controle de tudo o que eu ingeria e do que devolvia ao mundo. Comia cerca de 600 kcal por dia e comemorava quando eram 400 kcal [segundo o Ministério da Saúde, um adulto deve consumir, em média, 2.000 kcal por dia].

O corpo parecia interrompido em seus fluxos vitais: não me alimentava, não defecava, dormia por volta de cinco horas por noite. Fui também deixando de analisar meu corpo, pois já não o tocava, não lidava mais com ele, e substituí o espelho pela balança e por autorretratos.'

Tinha um ódio mortal ao alimento, que se traduzia num interesse obsessivo por ele. Colecionava receitas e livros com dados sobre os alimentos. Sabia de cor todos os valores calóricos. Não consumia sabores, mas números.

'Passei a controlar a única coisa que podia: meu corpo'

Meus pais trabalhavam e participavam da política de base 24 horas por dia 7 dias, por semana [a mãe, Irma Passoni, foi deputada estadual por quatro anos e federal por 12, pelo PT; o pai, Armelindo Passoni, também foi militante político]. A política era vital, alegre e uma necessidade radical. Mas, nessa dinâmica, eu às vezes passava dias seguidos sem ver minha mãe. E temia a ausência dela, temia pela vida dela.

Era o começo dos anos 1990, um momento de violência crescente Nossa casa havia sido assaltada sete vezes e tinha ameaças. Eu não podia controlar nada ao meu redor. Então, passei a controlar a única coisa que podia: meu próprio corpo.

O problema é que, na anorexia, responde-se ao controle com mais controle. É como se disséssemos: 'Vocês querem me controlar? Eu não vou deixar. Eu vou me controlar mais do que vocês podem'.

Costumava falar que anorexia é um espelho trágico do mundo. É estranhíssima essa sensação. Mas por vezes, em algum lugar íntimo e interior do que estava vivendo, sentia que aquilo se conectava com 'a dor do mundo'.

'Anorexia nos isola do mundo'

A questão principal da doença é a incomunicabilidade, o isolamento do mundo. Tinha dificuldade de significar, para mim mesma, o que estava vivendo, a impossibilidade de comunicar aos outros o que acontecia comigo. A impossibilidade de me reconhecer nos discursos de médicos, nutricionistas, sociológicos, psicanalista. Era uma incomunicabilidade produzida pelo estigma.

Outra situação era o pânico do outro se aproximar, entrar na minha vida e eu perceber que gosto e dependo dele. Aliás, há uma outra dimensão universal da anorexia: não estamos falando exatamente de comida. Mas de alimento. E alimento tem dimensão afetiva. Alimento, no filme, é amor.

Cena do filme Êxtase, de Moara Passoni - Divulgação - Divulgação
Cena do filme "Êxtase", dirigido por Moara: personagem Clara foi baseada na vida da diretora
Imagem: Divulgação

'Minha família tentou todos os tipos de tratamento'

Minha família tentou todos os tipos de tratamentos que puderam. Até que, um dia, encontramos uma psiquiatra e terapeuta que foi perspicaz. Nunca me perguntou por que eu não comia nem dizia que eu precisava comer.

Eu só lia, estudava e corria? Pois bem, ela começou a ler comigo. Lemos juntas uma série de livros e artigos de jornais. O que me marcou foi "Alice No País das Maravilhas" e "Através do Espelho", os textos de Elias Canetti sobre a invenção do calendário, sobre as leis; e um romance chamado "Ayla, a Filha das Cavernas". Com essas leituras ela me ajudou a descristalizar estruturas extremamente rígidas de controle que eu havia criado para mim.

Até que um dia, literalmente, acordei devorando a geladeira. Depois de anos, parecia ser a primeira vez que eu sentia fome. Depois disso veio uma guerra: eu não queria comer mas meu corpo não me permitia mais que eu não comesse.

Desse momento em diante, em que o desejo parece ter implodido o controle, foi um lento e doloroso processo de cura. Meu pai também foi muito sensível. Eu tinha medo de qualquer contato afetivo com minha família ou colegas da escola. Meu pai percebeu esse medo e fez um curso de massagem. Eu comecei a deixar ele fazer massagem no meu pé. De um modo nada invasivo, ele restaurou sua conexão comigo.

'Aprendi outras maneiras de viver'

Não houve um momento específico em que falei: 'Estou curada' ou 'superei'. A doença tem muitas dimensões. Foi um trabalho difícil, extremamente doloroso, de idas e vindas, e de anos. E, também, de ir contra todo um sistema de hábitos e rituais que eu havia criado e que me davam sensação de segurança.

Mas houve um momento importante nesse processo de virada que foi uma espécie de tomada de decisão interna. Quando me dei conta de que não suportava mais viver naquela condição, percebi que viver sem o outro era empobrecedor demais. Eu precisava sair daquele aprisionamento, daquela armadilha que havia criado para mim.

Anorexia, para mim, é a resposta a uma dor. É uma tentativa de encontrar uma maneira de viver. Mas acho que hoje aprendi outras maneiras de viver e de amar.

Seria ótimo sair do estigma e do espetáculo da doença e se perguntar, afinal, o que nesse padecimento diz respeito a todos nós. Acredito que a solução para um problema aparentemente tão isolado não está no indivíduo, mas no coletivo, na abertura ao outro. Saber dar a mão, pedir a mão dos outros. Sem isso, é muito difícil superar essa condição.

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