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Lésbicas que curtem pornô de homens gays dizem: 'prazer não tem regras'

Para a funcionária pública Ingrid Cordeiro falta muita representatividade na pornografia lésbica. - arquivo pessoal
Para a funcionária pública Ingrid Cordeiro falta muita representatividade na pornografia lésbica. Imagem: arquivo pessoal

Elisa Soupin

06/12/2020 04h00

Elas são lésbicas, se sentem atraídas, amam e se relacionam sexualmente com mulheres, mas, na hora de escolher algum pornô para assistir, gostam de ver dois homens na cama. E, antes que alguém argumente, não: essa preferência não tem nada a ver com sentir falta de um pênis. O desejo e a excitação não têm regras rígidas.

Há muitos fatores que influenciam essa predileção. Passa por preferências pessoais, falta de conteúdo pornográfico lésbico que seja feito pensando no público lésbico (e não em fetiches masculinos), posicionamentos políticos e muito mais, porque a sexualidade, além de fluida, é complexa.

"Não há nada de estranho nisso. Não é estranho uma pessoa se sentir atraída visualmente por uma pessoa de outro gênero, mesmo que tenha outra orientação sexual. Parece que quando uma pessoa afirma que tem uma orientação diferente da heterossexual, ela é colocada em uma caixa: sou isso, e aí não pudesse ser mais nada", fala a psicóloga Michelle Machado, que atende muitos pacientes LGBT.

Desejo é mais complexo que categorias

A professora Natália Santos é lésbica mas fica excitada assistindo pornô entre dois homens.  - arquivo pessoal - arquivo pessoal
A professora Natália Santos é lésbica mas fica excitada assistindo pornô entre dois homens.
Imagem: arquivo pessoal

A professora Natália Santos, de 32 anos, se considera lésbica desde sempre, mas descobriu há alguns anos que fica excitada assistindo pornô entre dois homens.

"Eu sempre gostei de pornô e quando eu tive acesso a um conteúdo erótico em que eu vi dois homens juntos, percebi que aquilo me despertava tesão. E aí eu comecei a procurar essa categoria. E assistindo pornô gay, eu descobri que gosto muito de assistir sexo anal. Em várias posições diferentes", diz.

O conteúdo lésbico disponível nas plataformas pornográficas mais comuns não agrada Natália. "Como lésbica, eu conheço a realidade e vejo que o que está nos filmes não tem nada a ver com o real. Falta amor, carinho. Não tem beijo na boca! É muito brusco, com força e isso não dá prazer. Já começa em contato forte com a vulva, não tem preliminar e mulheres sabem que isso machuca", diz ela.

Não gostar do que "seria óbvio", no entanto, não faz com que Natália questione a própria sexualidade — nem deveria. Para a psicóloga Michelle Machado, falta o entendimento de que o desejo é mais complexo do que o impulso de categorizar as pessoas.

"Uma lésbica sentir tesão em ver dois homens juntos não significa que ela queira transar com esses homens, e é muito bom que essas mulheres encontrem o que lhes dá prazer, mesmo que seja diferente do que é dito que elas deveriam gostar. Porque existe uma expectativa: se você é lésbica, vai gostar só de pornô feminino.

"Mas ninguém questiona porque o homem hetero vê pornô de duas mulheres transando, é entendido como fetiche e validado. Qual o estranhamento, então, se uma lésbica gosta de ver dois homens transando?"

Pornô lésbico: gênero masculino

Natália comenta uma impressão repetida por todas as mulheres lésbicas entrevistadas ao longo desta reportagem: "O pornô lésbico é a expectativa que o homem tem de duas mulheres transando. A mulher gritando, a mulher com cara de prazer, gemendo muito alto o tempo todo", diz.

A sexóloga Carla Cecarello concorda. "Há uma grande disseminação da pornografia lésbica para consumo da figura masculina, eu não vejo o pornô lésbico sendo feito para as lésbicas de fato. Por esse motivo, os filmes são muito diferentes das vivências que elas têm nas relações com as suas parceiras. Parece fake porque realmente é", diz a especialista.

Para a funcionária pública Ingrid Cordeiro, de 32 anos, falta muita representatividade na pornografia lésbica. E não é difícil entender seu ponto: basta visitar um site pornográfico e procurar por "Lésbicas": a imensa maioria das mulheres é branca, magra, com cabelos super longos (em muitos casos, com um babyliss irretocável, que não se mexe durante o sexo).

"Eu nunca gostei de pornografia heterossexual e, para mim, o pornô lésbico é muito broxante, porque na imensa maioria das vezes, ele retrata duas mulheres muito femininas, obviamente heterossexuais, performando de forma a mostrar para o homem uma tara específica dele", explica.

Ingrid questiona a falta de diversidade no material que encontra. "Eu sou uma lésbica bem esteriotipada e é muito raro encontrar mulheres como eu na pornografia, menos ainda em posições em que recebem prazer. No pornô gay, há muito mais variedade e caras super másculos que são passivos na transa, e é o paralelo mais próximo que eu consigo encontrar do meu gosto pessoal".

Prazer político

Para a adestradora de cães J*, de 34 anos, que prefere se identificar somente assim, as questões que a fazem não consumir pornô hetero ou lésbico têm a ver com sua visão de mundo.

"Para mim, há questões política e moral envolvidas. Eu sou contra a pornografia, mas seria hipócrita dizer que eu não consumo. Antes eu consumia pornô hetero, mas fui começando a me incomodar com a forma como as mulheres eram tratadas, com a indústria do pornô. No pornô gay, eu comecei a procurar uma forma de consumir pornografia que não seja tão ruim para a mulher", diz.

A percepção de mundo de cada pessoa é capaz de afetar e moldar a percepção do prazer, como acontece com J e Fernanda. Pensar que as mulheres estão em uma situação de violência, desconforto ou mal-estar durante a produção de um pornô pode fazer com que o resultado final traga até mesmo aversão.

A empreendedora Fernanda Fernandes, de 32 anos, também se solidariza com as atrizes da indústria pornográfica, além de sentir que o sexo visto nas telas não é algo com o qual ela consiga relacionar às próprias experiências.

"Eu não me sinto muito confortável em ver mulheres atuando, não consigo me conectar, e os filmes de lésbicas são para caras, então, tem uma coisa da mulher usando salto, com uma unha grande, é muito fora da realidade. Quando eu vejo a mulher ali eu fico pensando: nossa, essa atriz, tadinha, deve estar sofrendo", afirma.

Já na forma como o sexo entre homens é retratado, esse incômodo não existe para Fernanda. "Com o filme gay, eu acho mais natural: talvez não seja, mas eu não sou gay para saber. Acho que me excita o fato de parecer que eles estão curtindo, parecer mais realista, com as atrizes eu sempre fico me perguntando sobre várias coisas", conta.

A sexóloga Carla Cecarello explica que a sexualidade e o desejo passam, sim, pelas nuances políticas. "Ver a violência, ou a forma como a mulher é colocada em uma relação de submissão não excita e pode incomodar, e não permitir que as pessoas se entreguem às sensações. Não é uma questão moral, mas de respeito, direito", conclui.

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