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Jovem com deficiência visual se forma em Estética e ganha diploma em braile

Tais pegou o diploma na semana passada e foi surpreendida: ela não sabia que ele viria em braile - Clarissa Barbosa/IBMR
Tais pegou o diploma na semana passada e foi surpreendida: ela não sabia que ele viria em braile Imagem: Clarissa Barbosa/IBMR

Nathália Geraldo

De Universa

14/10/2020 04h00

Se não fosse a pandemia do coronavírus, Taís Machado Araujo, 25 anos, seria uma das formandas que celebrariam a conclusão da faculdade em uma festa. Afinal, três anos (e meio, mas ela conseguiu cortar matérias) de Estética no Centro Universitário IBMR, no Rio de Janeiro (RJ), merecem comemoração. Mas, mesmo sem baile, adiado para o ano que vem, o fim da vida universitária da jovem foi motivo de emoção por conta de um detalhe: por ter deficiência visual, ela recebeu seu diploma em braile.

No ano passado, a lei estadual lei estadual nº 8519 tornou obrigatória a impressão de diplomas em braile por estabelecimentos de ensino público e privado para pessoas com deficiência visual é obrigatória no estado do Rio de Janeiro. Por ser uma lei tão recente, Taís pode ser a primeira aluna de Instituições de Ensino Superior no Rio de Janeiro que usufruiu desse direito no momento da colação. A informação é do Instituto Benjamin Constant (IBC), centro de referência nacional na área da deficiência visual vinculado ao Ministério da Educação.

Taís nasceu sem enxergar e já havia passado por dificuldades na tentativa de ingressar no Ensino Superior uma vez. Em outra instituição de ensino, ela tentou cursar Pedagogia, mas não teve suporte de professores, coordenação, colegas de classe para superar os obstáculos que a falta de inclusão colocou em sua vida. Na Estética, foi diferente. Quando precisava fazer exercícios em que treinava limpeza de pele em uma pessoa, por exemplo, dividia a tarefa com uma dupla: aplicar cremes e esfoliante era com ela. Da extração de cravos, o parceiro cuidava.

O diploma em braile foi uma surpresa para Taís, e também para a mãe dela, Margareth Machado, que foi sua "maior incentivadora" para levar os estudos em frente. "Em casa, eu recebia arquivo em PDF, que meu leitor do notebook não consegue abrir. Minha mãe, então, sentava comigo e lia para mim", contou a jovem para Universa.

O braile é um sistema de escrita e leitura tátil para cegos. Ter o diploma impresso assim em mãos emocionou a formanda (como você vê no vídeo abaixo) e carrega também outro significado: autonomia. "Sempre que ela precisar dele e, se estiver guardado numa gaveta, vai conseguir achá-lo sozinha", comenta Margareth.

Na faculdade

Tais deficiência visual - Clarissa Barbosa / IBMR - Clarissa Barbosa / IBMR
Massoterapeuta e agora formada em Estética, jovem quer ensinar pessoas com deficiência visual sobre Beleza futuramente
Imagem: Clarissa Barbosa / IBMR

Taís conta que nunca foi muito ligada a questões de aparência, e sabia pouco sobre a própria pele e os cuidados que poderia dar a si mesma. "Era meio descuidada", brinca. Quando o curso de Pedagogia não vingou, ela resolveu fazer um técnico de massoterapia, modalidade de massagem clássica para aliviar dores e estresses.

Aí, decidiu que queria estudar Estética, focando em aspectos de cuidado corporal, como massagens e drenagem. O desânimo que a acompanhava na outra faculdade sumiu já que, no novo curso, ela ouviu a frase "Como posso te ajudar?" de amigos, professores e profissionais da instituição.

"Fiquei superfeliz. Em algumas matérias, como a 'Imagem e Comportamento', eu tive mais dificuldade, porque era muito visual. Precisa entender os formatos de rosto. Mas os professores sempre arrumavam um jeito de me explicar", pontua. "Nas aulas práticas, a maioria dos aparelhos era touch [screen]. Então, eu precisava de ajuda dos colegas para fazer os procedimentos".

Como apoio para os estudos, a universitária também teve um ledor na sala de aula, ou seja, uma pessoa destinada a fazer a leitura de rótulos de produtos e materiais que o professor colocasse à disposição ou na lousa. Taís também gravava o áudio das aulas para ter acesso em casa.

Ela diz que conquistar um diploma universitário é maravilhoso. "Eu sei que para outras pessoas com deficiência visual é mais difícil, mas eu diria para não desistir. Quero trabalhar na área, mesmo que eu tenha limitações e não possa fazer tudo. E ainda quero fazer um projeto para ensinar Beleza aos deficientes visuais, para que saibam que não é porque a gente não enxerga que não pode se cuidar. Mesmo porque há o aspecto tátil, que é muito importante".

Inclusão

Tais deficiencia visual e Margarth, mãe - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Para mãe da jovem, documento em braile é um passo dado para a inclusão de pessoas com deficiências visuais
Imagem: Arquivo pessoal

Para Margareth, ver a filha segurando o diploma em braile é ao mesmo tempo um orgulho e um recado para a ampliação dos direitos e da inclusão/acessibilidade das pessoas com deficiências visuais. Ela espera, ainda, que uma lei federal seja criada para obrigar a emissão em braile de todos os tipos de documentos pessoais.

"Eu digo porque, na Pedagogia, ela teve que visitar escolas infantis e não conseguiu ir em uma porque disseram que ela assustaria as crianças", relembra, reafirmando a necessidade de o discurso de pluralidade nos espaços públicos ser efetivamente aplicado.

"O diploma só mostra o quanto a inclusão é importante e que a deficiência é uma limitação, mas não um impeditivo. E cada pontinho desse diploma é alguém que a ajudou, quem deu o braço para Taís atravessar a rua até a faculdade, o segurança do trem que a levou até a plataforma, os professores, os coordenadores e os colegas de classe".

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