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Ela ficou cega aos 27, teve depressão e, aos 34, é patinadora profissional

Arquivo Pessoal
Imagem: Arquivo Pessoal

Simone Machado

Colaboração para Universa

22/03/2020 04h00

Quando tinha 27 anos, em 2013, Beatriz Monteiro Santana ficou cega. Ela tinha diabetes, que, descontrolada, causou danos na retina. Passou por uma cirurgia, mas não conseguiu recuperar a visão.

Com a brusca mudança de vida, Beatriz enfrentou uma depressão profunda por dois anos. Até que resolveu mudar radicalmente de vida. Há quatro anos, tornou-se atleta profissional de patinação em velocidade e hoje disputa competições por todo o Brasil e também no exterior. Ela divide, aqui, sua história:

Beatriz e sua guia em um treinamento de patinação - Arquivo Pessoal
Beatriz e sua guia em um treinamento de patinação
Imagem: Arquivo Pessoal

"Tinha uma vida como a de qualquer outra criança na minha idade. Frequentava a escola normalmente, gostava de brincar e de comer doces. E foi justamente comendo doces um dia que as coisas começaram a mudar. Eu tinha 11 anos, era julho, mês de festas juninas. Como era tradição na minha família, minha tia fez uma festa e eu, claro, comi diversos doces como pé-de-moleque e paçoca.

No dia seguinte acordei passando mal, com diarreia e vômito. Achamos que era por causa dos doces e não demos muita importância. As dores no estômago e o vômito continuaram nos dias seguintes. Como eu já era pré-adolescente, minha mãe achou que eu poderia estar virando mocinha e por isso meu corpo estava tendo reações diferentes.

Até que, uns quatro dias depois dos primeiros sintomas, passei muito mal e cheguei a desmaiar. Minha mãe logo correu comigo para o hospital.

Passei por diversos exames até que os médicos descobriram que eu tinha diabetes. A notícia assustou, afinal ninguém na minha família tinha a doença, e eu tinha apenas 11 anos.

Como a minha glicemia estava muito alta, fiquei internada na UTI (Unidade de Terapia Intensiva) por uma semana. Depois fui para o quarto. Ao todo, foram uns 12 dias no hospital.

Falta de informação e preconceito

Arquivo Pessoal
Imagem: Arquivo Pessoal

Quando tive alta e fui para casa, tinha que tomar injeções diárias de glicose para controlar o diabetes, mas eu não entendia muito bem o porquê daquilo tudo. E, na época, os médicos não haviam sido muito claros sobre os riscos que aquela doença trazia.

Muitas vezes eu deixava de tomar a minha medicação por medo dos olhares das outras pessoas. Quase ninguém entendia que aquela seringa era um remédio, as pessoas achavam que era droga. Eu preferia fingir que não precisava dela.

A minha alimentação também era complicada, eu não queria deixar de tomar refrigerante com as outras crianças, por exemplo. Quando somos crianças e até depois, adolescentes, não queremos ser diferentes dos outros.

Temos medo do preconceito e de não sermos aceito em um grupo.

E assim eu fui levando a minha vida, muitas vezes deixando de cuidar da minha saúde por medo do preconceito.

Sinais de que havia algo errado

Medalhas de Beatriz em provas no país e fora dele - Arquivo Pessoal
Medalhas de Beatriz em provas no país e fora dele
Imagem: Arquivo Pessoal

Quando estava na faculdade, comecei a trabalhar como monitora em uma sala de informática. Foi nessa época que eu percebi que alguma coisa não estava normal com o meu corpo.

Eu já tinha meus vinte e poucos anos. Comecei a ter dificuldade para ler e minha visão passou a ficar turva.

Eu já não enxergava como antes, mas não sabia que isso poderia ter ligação com o meu diabetes.

Tinha dias que eu tinha muita dificuldade para ver as coisas ao meu redor. Sabe quando estamos em uma sauna e fica aquele vapor todo? Eu enxergava assim: tudo embaçado e sem definição.

Fui em diversos oftalmologistas, mas nenhum conseguia descobrir o meu problema. Até que um dia, aguardando por mais uma consulta em um oftalmo, a secretária me alertou que poderia ser algum problema na retina, e que o ideal era eu procurar um médico especialista em retinas. Ela me indicou um profissional e eu fui até ele.

Diabetes fora de controle

Depois de exames, foi constado que o meu diabetes, por estar descontrolado, havia afetado minha visão. Eu tinha retinopatia diabética. A situação era praticamente irreversível ? a única solução seria uma cirurgia na retina, mas o procedimento era arriscado.

Se algo não desse certo, eu ficaria cega definitivamente. Minha mãe caiu em prantos, mas eu precisava arriscar, era a única solução. Marcamos a cirurgia para o dia 26 de outubro.

Como aquele dia podia ser a última vez que eu enxergava, fiz questão de olhar cada detalhe.

Prestei bastante atenção nos rostos das pessoas que estavam comigo, nas roupas que elas vestiam e em suas características. Passei pelo procedimento e parecia que tinha dado certo. Mas, após o período de recuperação, o médico percebeu que minha retina não tinha se recuperado. Eu estava cega aos 27 anos.

Eu não queria aquela vida

No começo não foi fácil. Eu não queria aquela vida. Me fechei no meu quarto e não saía de lá para nada. As pessoas que conviviam comigo só choravam e o que eu mais ouvia dos outros era 'nossa, tão nova e cega'. Isso acabava comigo.

Em poucos meses, eu já enfrentava uma depressão profunda. Passei por diversos psicólogos, mas não estava aberta para ouvi-los e nem queria me ajudar.

A situação só começou a mudar dois anos depois. Aceitei me consultar com outra psicóloga e, como já estava mais aberta a ouvir as pessoas, essa profissional conseguiu me fazer enxergar a vida de maneira diferente. Ela me desafiava, e não apenas dizia que eu precisava mudar.

Passei a ter aulas de como usar a bengala. Com a ajuda da minha família, adaptei meu celular e o computador com aplicativos para deficientes visuais. Recomecei a minha vida.

Vídeo no YouTube mudou a rotina

Eu já saía do quarto, estava me adaptando com minha casa e a usar a bengala e já usava o computador e o celular como antes quando, ouvindo vídeos no Youtube um dia, minha rotina mudou de vez.

Isso foi há quatro anos.

Ouvi sobre uma patinadora que era deficiente visual. E pensei: é isso que eu quero fazer.

Minha família quase morreu do coração, mas eu estava determinada e com muita força de vontade.

Pesquisei e vi que tinha um projeto de patinação para deficientes visuais em São Bernardo do Campo [Grande São Paulo]. Todos os finais de semana eu pegava o ônibus, acompanhada de uma amiga, e ia patinar. Com o tempo, aprendi a pegar ônibus sozinha e a me deslocar com mais facilidade.

Mas apenas patinar de fim de semana por lazer não estava bom. Ouvi que teria uma prova de velocidade e quis participar. Com a ajuda de uma instrutora-guia, me inscrevi e fui correr. Ter a sensação do vento cortando o meu corpo é a melhor coisa do mundo. Me apaixonei por essa liberdade.

Competições nacionais e no exterior

Quando percebi, já havia me tornado uma atleta profissional ? eles chamam de paratleta, mas eu prefiro só atleta ? e estava participando de provas pelo Brasil todo e pelo mundo. Nesses quatros anos de patinação profissional já fiz provas em São Paulo, Santa Catarina, Minas Gerais, Paraná, Nova York e Berlim.

As competições na patinação são um pouco diferentes das de outros esportes. Existem diversas categorias, inclusive para deficientes visuais, mas todos correm juntos. A largada é uma só, o trajeto é o mesmo e os atletas estão lado a lado. Isso, sim, é inclusão.

Muitas vezes as pessoas perguntam: "Mas não é perigoso você patinar?". O único perigo que tem é cair, mas aí você pode ser cego ou não que o risco é o mesmo. Esse preconceito tem que acabar, sabe?

Não acho que sou uma heroína pela minha história ou algo assim. Os deficientes, e aqui eu me refiro a todos, podem fazer tudo o que as outras pessoas fazem. Eles só precisam se esforçar um pouco mais.

E é isso que as pessoas têm que entender: somos como qualquer pessoa, só temos que ter um pouco mais de garra para fazer as coisas comuns."

Minha história