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Ana Paula Araújo: "Por sermos mulheres, somos todas vítimas em potencial"

Ana Paula Araújo lança o livro "Abuso - A cultura do estupro no Brasil"  - Leo Aversa/Divulgação
Ana Paula Araújo lança o livro "Abuso - A cultura do estupro no Brasil" Imagem: Leo Aversa/Divulgação

Luiza Souto

De Universa

14/10/2020 04h00

Apresentadora do programa Bom dia, Brasil, a jornalista Ana Paula Araújo, 48, perdeu a conta das vezes em que foi apalpada em locais lotados. Numa delas, tinha 18 anos e estava saindo da faculdade, em Niterói, região metropolitana do Rio, rumo à casa da tia, na Vila da Penha (zona norte), quando acordou no ônibus com a mão de um passageiro em sua coxa. E o rosto do homem quase colado ao seu. Sua reação foi xingá-lo e mandá-lo viajar em pé.

Ela descreve o ocorrido no livro "Abuso - A Cultura do Estupro no Brasil" (Globo Livros), que acaba de lançar. "Contei esse episódio porque é bem trivial na vida de todas as mulheres que usam o transporte público ou por aplicativo", diz a apresentadora carioca, formada em comunicação pela UFF (Universidade Federal Fluminense) e que, em 2010, se destacou durante a cobertura da ocupação do Complexo do Alemão, quando ficou por oito horas ininterruptas no ar. O feito rendeu a ela e à equipe de jornalismo da Globo o prêmio Emmy Internacional.

No decorrer das 320 páginas da obra, sua primeira, resultado de quatro anos de pesquisa sobre o tema e mais de cem entrevistas com vítimas, familiares, criminosos, psiquiatras e diversos especialistas no assunto, o que se lê são histórias desoladoras, como o caso do estupro coletivo praticado por três adolescentes (dois de 16 e um de 13 anos) contra uma jovem grávida, de apenas 15 anos, e que ainda assistiu ao pai de seu filho ser degolado, em Uruçuí, no Piauí, há três anos. A jornalista ficou de frente com os criminosos.

"Falava com frieza tão grande que fiquei com medo", descreve ela ao se referir a um dos três.

Diante de tantos relatos pesados, que a fizeram voltar às sessões de terapia e não deixar a própria filha, de 14 anos, ler a obra, Ana Paula diz que chegou a uma conclusão urgente.

"Os homens têm que ser educados a respeitar as mulheres, a aprender o que é consentimento."

O que a motivou a escrever o livro?
Comecei a ver uma mobilização maior de mulheres denunciando [a violência de gênero], teve a campanha do primeiro assédio [hashtag criada em 2015 pela ONG feminista Think Olga que levou milhares de mulheres a contarem sobre a primeira vez em que sofreram assédio sexual], então a vontade de escrever esse livro vem da realidade que permeia a vida de todas as mulheres, em maior ou menor grau. Não conheço nenhuma mulher que não tenha um caso de abuso para contar. E, se por acaso a mulher não sofreu abuso, de qualquer maneira convive com esse fantasma, de que isso possa acontecer.

Por sermos mulheres, somos todas vítimas em potencial.

Quando você se deu conta desse fantasma na sua vida?
Desde a adolescência. Nós, mulheres, recebemos muita orientação de que temos que tomar cuidado, ficar atentas com os homens. E o que falo no livro é que, na verdade, a gente tem que educar os homens, né? O problema está neles. Os homens têm que ser educados a respeitar as mulheres, a aprender o que é consentimento. A gente fica ensinando as meninas a se proteger --como se houvesse algo 100% eficaz para ficarmos completamente protegidas de um ataque sexual-- e não educa os homens.

Você cita, no livro, um caso que aconteceu com você dentro de um ônibus, em que acordou com um passageiro com a mão na sua coxa. Como foi colocar isso pra fora?
Foi um dilema por meses. Ficava pensando se deveria contar alguma experiência pessoal, até que ponto iria me expor, porque não é um livro sobre mim. Mas, ao mesmo tempo, não queria que pensassem que não sabia sobre o que estava falando, num momento em que disse que todas as mulheres passam por isso. E contei esse episódio porque é bem trivial na vida de todas as mulheres que usam o transporte público ou por aplicativo. Até apresento uma pesquisa (feita pelos institutos Patrícia Galvão e Locomotiva, em 2019) que mostra que 97% das mulheres entrevistadas passaram por assédio ou abuso no transporte público somente nos três meses anteriores ao início da enquete.

Você afirma no livro que o estupro é o único crime em que a vítima sente vergonha. Foi assim que você se sentiu nesse episódio?
Sim. Os sentimentos da vítima são sempre de vergonha, nojo e culpa, mesmo sabendo que a culpa não era minha. Eu estava dormindo, mas achei que tinha que ter colocado a bolsa entre eu e ele, que poderia ter me protegido de alguma forma.

Você ouviu cerca de cem pessoas, entre vítimas e abusadores. Disse até que manteve a calma diante de alguns criminosos. E descreveu ter visto "a maldade nos olhos" do então menor que estuprou uma grávida no Piauí. Como foi estar de frente com eles?
Depois de tantos anos de profissão, de entrevistar tantos bandidos, a gente acaba aprendendo a se controlar um pouco e a focar mais na informação. Mas claro que senti uma revolta imensa. E medo de alguns. Esse menino, especialmente, que estuprou a mulher grávida, era de uma crueldade tão absurda e falava com uma frieza tão grande que fiquei com medo. Ouvi coisas que não tive coragem de colocar no livro, porque eram ainda piores. [Assim Ana Paula descreve uma das partes da conversa: "Ele simplesmente falou: 'Ah, veio na cabeça para matar. Aí peguei a faca e cortei o pescoço do cara'"]. Parecia que estava entrevistando toda a maldade do mundo dentro de uma pessoa só. E pensar que esse menino, por ser menor de idade, deve estar nas ruas de novo... [O Estatuto da Criança e do Adolescente prevê que jovens infratores fiquem apreendidos por até três anos, mas com revisões a cada seis meses. Ao completar 21 anos, o adolescente é libertado automaticamente]. Certamente vai cometer algum outro crime porque mostra que não tem o menor arrependimento do que fez. O estupro é o único crime em que a vítima sente culpa, e os criminosos não.

Vi homens que acham o estupro absurdo, mas pensam que o que fizeram foi só um momento. Não se dão conta de que são estupradores.

Você é mãe de uma adolescente de 14 anos. Como aborda esses assuntos com ela?
É um papo bem franco e aberto. A gente sempre conversou muito, de acordo com a idade dela. Desde pequena, sempre ensinei que, nas partes íntimas, ninguém pode ficar tocando. Que, para ajudar na higiene, tem que ser alguém de confiança, como a mamãe e o papai. E ela acompanhou de perto todo o processo do livro. Por mais que ela não tenha lido, porque achei muita coisa pesada, contei para ela algumas situações que podiam servir de esclarecimento, especialmente o de que a vítima nunca é culpada. A informação protege a criança.

Tem uma idade certa para ler seu livro?
Tenho uma afilhada de 17 anos que está doida para ler. Entreguei para a mãe dela e falei: "Leia você primeiro e, se achar que está tudo bem, você passa para ela ler". Sempre peço que os pais leiam o livro. Como faço aqui também. Às vezes, minha filha pede para ver determinado filme, e eu vejo primeiro para depois assistir com ela. Prefiro assim.

Você acredita na recuperação de um estuprador, que ele possa receber um bom tratamento terapêutico?
O problema é ter o tratamento. Não há nenhum. Encontrei um projeto que atende abusadores flagrados em transporte público [em 2017, a Justiça de SP criou uma espécie de curso de reciclagem com questões como machismo e masculinidade a homens presos em flagrante por situações de assédio no transporte coletivo], e a Justiça de São Paulo transformava parte da pena [do acusado] num curso sobre violência de gênero, mas não há nenhum tratamento. E por isso não há nenhuma estatística para dizer se é eficaz. No caso desse projeto em São Paulo, nenhum deles reincidiu. Mas não se sabe se não reincidiram ou não foram pegos de novo. A gente deveria poder conseguir trabalhar um pouco mais com estupradores para eles admitirem o que fazem. Muitos não se reconhecem como estupradores.

Você precisou fazer terapia por causa do livro?
Sim, voltei para a terapia por causa do livro. Fiz em alguns períodos da minha vida e estava sem fazer nos últimos três anos. Foi uma loucura mergulhar nesse universo do livro sem ter uma válvula de escape para tantas histórias pesadas. Mantive minha rotina de apresentar o jornal e tinha que me concentrar em algumas horas e nos feriados para enfileirar entrevistas. Sentia muita dor de cabeça porque saía de centros de internação para menores ou presídios muitas vezes com peso no corpo.

Tinha dia que me sugava, de tanta maldade.

Você conta, no livro, o caso de uma mulher que segue casada e visitando na cadeia o homem que estuprou sua filha. E o de outra que consentiu que o marido estuprasse a enteada. Qual a sua visão sobre essas mulheres?
Peguei casos de mães com vários tipos de reação [à denúncia de estupro contra a filha]. Uma das vítimas relatou que, quando contou para a mãe que havia sido estuprada, ela não queria ouvir. Depois, essa mãe falou: "Isso acontece. Eu já passei por isso também". Então tem caso de mãe que acha que é assim mesmo, que não há nada que possa ser feito. Outras entram numa relação de competição, de achar que a filha seduziu o marido dela, e que ela [a filha] é a culpada. Tudo isso é um reflexo da cultura machista de achar que as mulheres são culpadas num caso de violência sexual. Tem mulheres que são muito negligentes com os filhos. Mas tem aquelas que saem em defesa e compram a briga. Isso vai da criação, do caráter e da força delas.

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