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Minha história

"Não achava calcinha para mim e hoje ajudo marcas a serem inclusivas"

A influenciadora Kate Viana - Arquivo Pessoal
A influenciadora Kate Viana Imagem: Arquivo Pessoal

Elisa Soupin

Colaboração para Universa

30/09/2020 04h00

Quem é plus size sabe como pode ser difícil encontrar uma roupa que vista bem, mas a influenciadora Kate Viana, do perfil "Como vai gordinha", fez um desabafo no Instagram sobre o desafio que vive para achar a mais básica das peças: uma calcinha. Kate, 40, tem 1,56 de altura e veste 56. Como sua barriga é grande, não consegue achar peças que a vistam e precisa dar um jeito para se adaptar aos modelos do mercado.

O vídeo em que relata o perrengue que vive para achar peças íntimas apropriadas foi assistido mais de 20 mil vezes e surtiu um efeito positivo, mas já não está mais no ar. Nele, ela conta que, sem a peça adequada, um dia a calcinha que usava escorregou por seu corpo e caiu no chão enquanto ela fazia compras em um grande supermercado no Rio de Janeiro, onde mora. A experiência humilhante de Kate, que tem mais de 50 mil seguidores, mobilizou várias marcas a tentarem resolver o problema dela — e, de quebra, de outras tantas mulheres. A seguir, ela conta sua história.

"Peça íntima sempre foi minha maior dificuldade"

"Eu nunca fui magra, sempre tive sobrepeso, desde criança, mas eu não era gorda como sou hoje. E a maior dificuldade para mim sempre foi o uso da peça íntima. Toda mocinha queria aquele sutiã de cotton menina-moça, mas minhas costas são largas e aqueles modelos nunca couberam, eu sempre fui grande e fiz natação desde os 7 anos.

Eu tenho corpo triângulo invertido, maior em cima do que embaixo, e nunca consegui comprar um conjunto de calcinha e sutiã. Minhas lingeries não casavam, nunca eram iguais, com um sutiã maior e uma calcinha menor.

Cursei enfermagem e, na faculdade, eu precisava usar sempre calcinha clara, para que não marcasse no uniforme do estágio, e tinha muita dificuldade de encontrar branca. Uma vez, me trocando para ir para a aula, uma colega ficou me zoando, dizendo que eu só usava calcinha bege broxante, 'Por que não coloca uma renda branca?', ela disse.

Eu não colocava porque não conseguia achar do meu tamanho. Se hoje já é difícil, imagina naquela época, há 20 anos, não tinha nada bonito, era tudo de vó. Nem se ouvia falar de moda plus size no Brasil. Eu fiquei arrasada com esse episódio e contei para a minha mãe.

Minha madrinha, que costurava vestidos noiva, fez para mim uma calcinha renda branca, toda trabalhada sobre uma calcinha e um sutiã beges. Foi um sonho. Eu passei a ter calcinha de renda porque ela comprava roupa de algodão e bordava pra mim.

Quando eu comecei minha vida sexual, aos 24, eu já tinha minhas lingeries bonitas. Usar uma lingerie de renda me deu uma coragem muito grande, porque eu realmente tinha um bloqueio com a coisa da lingerie bege, não queria que meu companheiro olhasse para mim e pensasse: 'vó'. Me casei e cinco anos depois, aos 29 anos, engravidei. Nessa época eu pesava 80 kg, mas eu ainda não tinha essa barriga que dobra em cima do quadril e cobre a pepeca.

Depois que tive meu filho, descobri um de hipotiroidismo subclínico, que causa um atraso no metabolismo, retenção de líquido, gordura abdominal, insônia, desânimo, prostração. Em um ano, eu fui do manequim 50 para o 56. Eu faço uso de corticoide e o corticoide também incha e engorda.

Comecei a não encontrar mais calcinha, uma peça tão básica. Durante muito tempo, eu ficava muito triste. Como é possível não achar uma calcinha do meu tamanho? Eu não tinha mais biquíni, não cabia mais em maiô. De 2010 a 2012, meu esposo e filho iam à praia e eu ia com eles usando um short e um top de academia, porque não existia biquíni pra mim.

Eu pensei: perdi a minha identidade, minha autoestima, não me sinto mais bem, não tenho uma roupa bacana. Eu não tinha prazer de comprar, eu comprava o que coubesse, e, em 90% das vezes, eu não gostava do que eu comprava.

Quando meu filho Julio fez três anos, criei o blog "Como vai gordinha" para falar desses assuntos e comecei a trocar ideia com outras pessoas gordas que tinham muitas indicações de costureiras, de pessoas que faziam roupa sob medida, a gente foi trocando informações sobre como se vestir melhor. O que eu queria mesmo era chamar a atenção das marcas com meu blog, mostrar que existia um público ali.

Em 2012, quando a minha barriga começou a crescer muito, passei a usar cuecão de homem. Até que, no final do ano passado, eu passei um constrangimento muito grande no supermercado. Eu tinha cuecas que estavam lavando e as roupas não secaram. Eu estava com uma calcinha que não cobria a minha barriga, eu fazia um truque para conseguir usar: enrolava por debaixo da barriga e o que sobrava na frente de tecido que não era o suficiente para cobrir a barriga, eu prendia embaixo dela.

Essa técnica me fazia ficar assada na cicatriz da cesária. Nesse dia, eu fui empurrando o carrinho e fui sentindo a calcinha descendo, e eu fiquei tentando ajeitar discretamente, mas não parava de descer.

Quando eu estava na fila do açougue, a calcinha desceu de vez e caiu no chão. Eu não sabia o que fazer. Eu fiquei com a calcinha nos pés, abaixei para pegar, coloquei no bolso do vestido, larguei o carrinho e fui para o carro. Foi horrível, chorei muito mesmo.

Isso aconteceu no final do ano passado e eu fiz o vídeo sobre o assunto, mas eu ficava protelando a publicação, com medo. Porque às vezes as pessoas te arrasam muito na internet. Mas os resultados foram muito legais.

Pessoas se identificaram com a minha histórias e dez marcas entraram em contato comigo, me pediram minhas medidas, me perguntaram qual seria a calcinha perfeita. Duas não tinham o produto, uma disse que queria desenvolver, uma outra disse que realmente não tinha como fazer agora.

Outras marcas têm me enviado peças, e eu venho provando todas e compartilhando com minhas seguidoras. Sei que parece piegas, mas eu até chorei quando uma delas chegou e eu vi que me servia, me vestia bem, era boa para o meu corpo. Eu estou ajudando as marcas, com a ideia de analisar o máximo de calcinhas e dar o feedback, e estou ajudando as mulheres que buscam uma peça, direcionando qual calcinha pode servir a elas.

Fiquei muito feliz que o fato de compartilhar uma coisa tão humilhante que vivi possa estar ajudando a mexer nas estruturas e fazer a indústria olhar para corpos que precisam se vestir. Eu nunca tive problema com meu corpo, com ser quem sou, o triste é você não achar nada que você vista e com o que se sinta bem. Nenhuma mulher nem ninguém deveria passar por isso."

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