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Pandemia faz brasileira que mora na China passar 10 meses longe de casa

Ana Soares seus dois filhos, Tulipa, 4, e Leon, 15 meses: família ficou 14 dias isolada em quarto de hotel antes de voltar pra casa - acervo pessoal
Ana Soares seus dois filhos, Tulipa, 4, e Leon, 15 meses: família ficou 14 dias isolada em quarto de hotel antes de voltar pra casa Imagem: acervo pessoal

Marcela De Genaro

Colaboração para Universa

25/09/2020 04h00

Ana Soares, 34, arrumou as malas e saiu de casa no fim de novembro com seus dois filhos, Tulipa, 4, e Leon, 15 meses, animada para o que chama de 'o luxo da vida': passar 2 meses no Brasil. O plano, como costuma ser no fim de ano, era voltar no início de fevereiro, mas só foi possível 6 meses depois do previsto. O motivo? Nascida em Brasília, ex-moradora do Rio de Janeiro e vivendo em Changchun, na região de Jilin, Nordeste da China, ela teve a viagem interceptada, mais de uma vez, pela pandemia.

"De todos os desafios que eu estava preparada para enfrentar aqui na China, nunca nos meus sonhos mais psicodélicos poderia imaginar que ficaria 14 dias presa num quarto de hotel de 30m2 - que depois de 14 dias parecem 5m2 - com a minha família, em Xangai", conta a empregada pública licenciada que, apesar de não ser do tipo que queria morar fora, aceitou a ideia do marido Arnaud, que é francês, após receber de "presente" de retorno de licença maternidade a perda do cargo gerencial na Caixa Econômica, há 4 anos.

O confinamento em Xangai, do qual saiu nos primeiros dias de setembro, foi a última etapa de uma saga que ela e a família enfrentaram. Lockdown, regras diferentes em cada país (eles passaram por França, Suíça e China), a filha matriculada numa escola na França para, duas semanas depois, ter as aulas suspensas. Fechamento de fronteira chinesa para estrangeiros uma semana após o marido - com o qual se encontrou em fevereiro, na casa dos sogros, na Europa - voltar ao trabalho. Arnaud foi para a Ásia primeiro, por precaução, para ver se estava tudo bem antes de trazer a família. E eles só voltariam a se ver 3 meses depois, na Suíça.

Exames, quarentena em hotel e muita ansiedade

É difícil acompanhar o vai e vem e o que foi necessário para que voltassem finalmente para casa. Após bastante burocracia e a carta convite necessária para entrar novamente na China, Ana estava finalmente no avião em 19 de agosto. Havia chineses de macacão e óculos dentro da aeronave.

"Você sai do avião e precisa parar em cinco pontos antes de entrar no país. É necessário um QR Code de um formulário de saúde que você preencheu mostrando onde esteve nos últimos 15 dias. Quando cheguei não era, mas agora é obrigatório trazer um exame feito 3 dias antes da viagem. Depois vai a outro ponto e te dão uma amostra para fazer um novo teste; no próximo, você faz. Então você chegou no aeroporto, antes de passar para pegar a mala, faz um novo exame", resume Ana, que havia feito o teste antes mesmo sem obrigação.

Em todas essas paradas há medição de temperatura. Após pegar as malas, há o último ponto, onde as pessoas são unificadas de acordo com o destino depois de Xangai.

"Eu ia para o Nordeste, então todos que iam para a mesma região foram direcionados para um hotel. Você não podia escolher o quarto, mesmo quem oferecesse pagar caro. Houve casos de famílias que tiveram que ser separadas, mas isso era demais pra mim. Insisti por horas até conseguir. Podíamos ficar com um quarto pequeno, mas não separados".

Ana e a família só tinham autorização para pegar as refeições e tirar o lixo, que eram deixados em cima de uma mesa bem em frente à porta. Ela sabe que sua realidade foi melhor do que a de muitos que passam e passaram por situações complicadas na pandemia. Nos 30m² divididos com o marido - que seguia trabalhando - e os filhos, tinha o conforto da cama e comida, ainda que controlada.

Após alguns dias, Ana descobriu que poderia fazer compra online. "A primeira coisa foi comprar aspirador de pó, pois não havia serviço de quarto ou limpeza. Tem aquela coisa de comida caída no carpete, que quem tem criança sabe. Você chega, tem o lençol, recebe duas toalhas e algumas coisas para limpar o vaso sanitário", conta.

Todos os dias eles enviavam registros da temperatura de cada uma por aplicativo em chinês, em um horário da manhã e depois à tarde.

Os dias com a família tiveram momentos mais complicados, mas também competição de cambalhota, filha pulando durante uma hora na cama e um truque da avó paterna que ajudou os dias, riscados um a um num painel na parede, a passarem. Cada dia da semana era correspondente a uma cor de roupa e, assim, as crianças sabiam que usariam 2 vezes cada cor antes de ir embora.

No 12º dia a família fez um novo teste. Com tudo certo, foram liberados no 14º, e com certificado de cumprimento da quarentena:

Depois de 14 dias isolado em quarto de hotel, filho de 15 meses de Ana corre no aeroporto - acervo pessoal - acervo pessoal
Depois de 14 dias isolado em quarto de hotel, filho de 15 meses de Ana corre no aeroporto
Imagem: acervo pessoal

"Saímos e fomos direto para o aeroporto, completamente vazio, soltei meu filho, um bebê andante que estava preso no quarto de 30m2, para andar à vontade. Tem uma foto que ele é só um pontinho no fim do corredor" conta Ana sobre Leon, que nasceu na China, veio ao Brasil com 4 meses e só voltou agora.

"Medidas duras para salvar vidas"

Apesar das dificuldades, Ana concorda com todas as medidas tomadas:

"É tudo muito bem feito, uma coisa incrível. O que eles estão fazendo está salvando vidas, enquanto a gente vê quase 140 mil mortos no Brasil. É difícil criticar medidas duras para salvar vidas. É agoniante, é? E se eu estivesse infectada e transmitisse? E quantas pessoas iriam morrer depois porque consequentemente foram infectadas de alguma forma?".

"Pra mim, voltar pra casa depois de tanto tempo fora e uma quarentena intensa me deu esperança que toda a inconstância que a pandemia nos trouxe vai passar. Cada país no seu ritmo, mas vai e todo mundo sairá dessa dando mais valor ao que tem: da saúde a rotina diária!

Hoje Ana e a família andam sem máscara em Changchun. Por precaução coloca no uber e no mercado. Obrigatoriedade, só no metrô, onde também é necessário apresentar um QR Code que, através de um aplicativo de GPs, mostra que você não saiu da cidade nos últimos 15 dias.

"Eu estou voltando para a minha vida. Não sou muito adepta de que existirá um 'novo normal', acho que tendo uma vacina voltaremos a vida de antes. Aqui o pessoal de saúde está recebendo a vacina. Controlado, volta. Claro que as escolas e o trabalho terão um novo olhar sobre o digital, vão ter coisas que evoluíram com a pandemia, mas tem gente que acha que nunca mais vai voltar a andar sem máscara. Claro que vai, aqui na China já está assim. Então calma, respira, vai passar"", afirma.

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