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Minha história

"Após ser estuprada aos 17 anos, engravidei e decidi ter a bebê"

Estupro criança vulnerável - iStock
Estupro criança vulnerável Imagem: iStock

Bárbara Therrie

Colaboração para Universa

30/08/2020 04h00

Roberta*, 41, foi estuprada por dois homens ao longo da infância e da adolescência. Os dois agressores eram ligados à igreja que ela frequentava. Um deles morava com ela e a família e abusou dela dos 10 aos 14 anos.

Aos 17, conta, foi estuprada pelo cunhado do pastor. Engravidou, mas só descobriu a gestação quando estava com quase seis meses. Mesmo com a possibilidade de abortar, ela decidiu ter Marcela*, atualmente com 23 anos. Roberta hoje é babá, mora na zona sul de São Paulo, está terminando a graduação em serviço social e diz que a filha foi a tábua de salvação dela. A seguir, ela conta sua história:

"A primeira vez que sofri violência sexual foi aos dez anos de idade pelo José*, um 'irmão' da igreja que morava com a gente. Ele era como se fosse aquele tio legal que brincava comigo e com as minhas duas irmãs, nos levava à escola, nos dava presentes. Meus pais confiavam muito nele.

Em uma noite, eu acordei com ele introduzindo os dedos nas minhas partes íntimas. Ele tapou a minha boca e disse que, se eu gritasse, ele ia matar toda a minha família. Eu era uma criança, sentia que aquilo não era correto, mas não tive coragem de contar para ninguém, com medo de que ele cumprisse a ameaça.

Me afastei dele, mas ele continuou me visitando todas as noites e me obrigava a fazer sexo oral nele. Eu tentava achar maneiras de mantê-lo longe, uma delas foi não querer mais tomar banho para ver se ele se desinteressava.

Como eu estava cada vez mais resistente, José me ameaçou com uma arma. Eu não contei para a minha mãe dos abusos em si, mas disse que ele tinha uma arma escondida e que era perigoso, para ver se ela o mandava embora. Ele inventou uma história dizendo que era do trabalho dele e ficou por isso mesmo.

Minha mãe não acreditou e fez meu pai me espancar

Então, ele passou a abusar da minha irmã do meio, que tinha nove anos. Com ela, ele chegou a fazer sexo com penetração. Eu vi e fui para cima dele. Ele disse que não adiantava a gente se rebelar porque meus pais não iam acreditar. E de fato foi o que aconteceu.

Quando meus pais chegaram em casa, eu disse que ele era um monstro, que ele fazia coisa feia comigo e com a minha irmã. Minha mãe não acreditou e ainda fez meu pai me espancar. Sofri calada dos 10 aos 14 anos. Recentemente, durante a terapia, minha irmã caçula contou que também foi vítima dele.

Um dia, eu, meu pai e o José tivemos uma briga feia porque José não aceitava o pedido de namoro que eu havia recebido de um rapaz e humilhou meu pai dizendo que ele não sabia me criar e que eu era uma insolente. Meu pai estava num quadro grave de depressão e não reagiu. Eu peguei uma faca e o coloquei para fora. Após tudo isso, minha mãe se manteve em negação e nunca admitiu que falhou em não nos defender. Meu pai me pediu perdão por não ter sido o homem da casa que ele deveria.

Pastor disse que não podíamos fazer escândalo

Aos 17 anos, fui vítima de um segundo estuprador. Eu estava a caminho da escola, à noite, quando um homem encapuzado, dentro de um carro, me abordou e disse para eu acompanhá-lo senão ele estouraria meus miolos. Me colocou à força no veículo, me levou a um motel e me estuprou de todas as formas possíveis. Eu só chorava, pedia para ele parar, por favor, e suplicava a Deus que eu saísse viva dali. Ele ficou encapuzado durante todo o ato, e eu cheguei a desconfiar que fosse o José.

Ao ir para a garagem do motel, consegui ver o modelo do carro e memorizar a placa. Ele me deixou no mesmo lugar que me pegou. Eu voltei para casa toda machucada e contei tudo aos meus pais. Eu disse que tínhamos que ir à polícia, que eu tinha a placa do veículo, mas eles falaram que antes precisávamos conversar com o pastor para ver como ele nos aconselharia. O pastor veio à nossa casa, pegou os dados do carro, disse que não podíamos fazer escândalo, citou trechos da Bíblia e disse que deveríamos orar e pedir direção a Deus.

No dia seguinte, minha mãe me levou à ginecologista que fez o parto dela no meu nascimento. A médica me abraçou, me acolheu e disse que ia cuidar de mim. Ela me examinou, me deu alguns pontos e fez um laudo afirmando que eu fui vítima de violência sexual.

Estuprador foi protegido e eu fiquei como a endemoniada

Um tempo depois o pastor identificou que o estuprador era o Orlando*, cunhado dele. Houve uma reunião na igreja comigo, meus pais, o Orlando, o pastor e as respectivas mulheres. Foi um show de humilhação. Orlando me acusou de ser mentirosa. Ele disse que parou para conversar comigo, me convidou para sair, eu aceitei e o que o sexo foi com o meu consentimento. Ele pediu perdão para a mulher dele alegando que foi um deslize.

Em resumo, o estuprador foi protegido pelo pastor, eu fiquei como a louca, a puta e a endemoniada. Eles me culparam pelo ato do canalha, me silenciaram e me ameaçaram. Disseram que eles tinham dinheiro, influência, eram poderosos e podiam nos destruir. Nós éramos pobres e sem instrução, não tínhamos conhecimento e nem condições financeiras para nos proteger. Aceitamos todas as recomendações para abafar o caso.

Nesse período, eu entrei em depressão, parei de comer e emagreci muitos quilos. Eu estava com quatro para cinco meses de gestação sem saber, quando a ginecologista me pediu uma série de exames. Como ela saiu de férias, só entreguei os resultados um mês depois. Ao ver os papéis, ela me perguntou se depois do estupro eu tinha tido relação sexual com alguém. Eu disse que não.

Meu desejo era ter a criança

Ela então me disse que a violência sexual que eu sofri tinha resultado em uma gravidez. Eu estava grávida de quase seis meses! Eu gritava, fui invadida por uma dor profunda. Como era possível? Eu não tinha barriga, sintomas, não sentia o bebê mexer.

Ao me acalmar, ela colocou um aparelho na minha barriga para ouvir os batimentos cardíacos. Ao ouvir o coração da minha filha, a revolta deu lugar à emoção. A médica explicou que eu poderia abortar legalmente, disse para eu pensar e tomar uma decisão. Eu prontamente disse que não iria abortar, que meu desejo era ter a criança.

Ao chegar em casa, contei tudo aos meus pais e avisei que, independentemente da opinião deles, aquela era a minha escolha. Eles se limitaram a dizer que eu estava certa e que não poderia ir contra os princípios de vida de Deus. Eles avisaram o pastor e o estuprador. O pastor me orientou a não ir mais à igreja para não gerar perguntas sobre quem era o pai quando a barriga crescesse. O estuprador disse que eu era uma burra de não fazer o aborto porque ele não ia assumir a criança e nem me dar um centavo.

Eu não consegui curtir muito a minha gravidez, por mais que eu tivesse decidido ter a minha filha, não era fácil. Tudo mudou quando ela nasceu, no dia 27 de maio de 1997. Ao vê-la pela primeira vez, a única coisa que pensei foi: 'Ela vai ser minha companheira para o resto da vida'.

Continuei morando com os meus pais e as minhas irmãs, que me ajudavam a cuidar da Marcela. Até os cinco anos dela, o estuprador fez um inferno na nossa vida. Ele monitorava a nossa rotina. Eu tive que trocá-la de escola quatro vezes. Um dia, eu o encontrei na farmácia, e ele me ameaçou dizendo que ia pegar a menina e sumir com ela. A Marcela era a prova do que ele tinha feito comigo, ele morria de medo de que eu o expusesse. Eu mudei de bairro e nunca mais tive notícias dele.

Minha filha foi minha tábua da salvação

Eu passei a infância da Marcela dizendo que o pai dela era caminhoneiro e que vivia viajando, por isso ela não tinha como conhecê-lo. Mas chegou um momento em que essa mentira não fazia mais sentido.

Quando ela fez 14 anos, eu entreguei um diário com anotações de tudo o que tinha acontecido e depois conversei com ela pessoalmente. Minha filha chorou, se ajoelhou e me pediu perdão pelas afrontas que ela me fazia como forma de me punir por não ter um pai. E me agradeceu por amá-la mesmo ela não tendo sido planejada e desejada.

Em nenhum momento eu me arrependi de ter tido a minha filha, mesmo ela sendo fruto de um estupro. Ela foi minha tábua de salvação. De certa forma, foi o meu placebo para que eu não desistisse da vida porque vontade não faltou para me matar.

Eu me casei três vezes. Mas, por não ter tratado os traumas que vivi, tive relacionamentos abusivos e sofri violência doméstica. Eu nunca quis ter outros filhos pois sempre achei que a Marcela não merecia ter o amor dividido com uma irmã ou irmão desejados. Por esse motivo e por gostar muito de crianças, me tornei babá.

Estou no meu quarto casamento, finalmente encontrei um marido que é meu amigo, parceiro e me respeita. Hoje tenho 41 anos e minha filha, 23. Ela se tornou uma mulher extraordinária que me dá muito orgulho.

Em janeiro deste ano, comecei a fazer terapia e acompanhamento no Navis (Núcleo de Assistência à Vítima de Violência Sexual) do Hospital das Clínicas, de São Paulo, junto com a minha irmã caçula. Por muitos anos, eu me senti culpada pelos estupros que eu sofri pensando no que eu poderia ter feito para provocar isso.

Hoje, eu vejo que a culpa não foi minha, mas que eu fui vítima de pessoas doentes, com distorção de caráter. Às mulheres que sofrem algum tipo de violência sexual, meu conselho é que elas não guardem para si, mas que denunciem o agressor e procurem ajuda."

*Os nomes foram trocados a pedido da entrevistada para preservar a identidade dos envolvidos.

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