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Com manequim 54, ela convenceu a Farm a oferecer tamanho GG após 23 anos

Mariana Rodrigues veste peças da Farm garimpadas entre os tamanhos G - Arquivo Pessoal
Mariana Rodrigues veste peças da Farm garimpadas entre os tamanhos G
Imagem: Arquivo Pessoal

Elisa Soupin

Colaboração para Universa

13/08/2020 04h00Atualizada em 13/08/2020 17h09

Fashionista e fã de estampas e muita cor, a redatora e blogueira carioca Mariana Rodrigues, 33, sempre teve uma relação de adoração pelas roupas da Farm. Mas havia um problema: "Sempre achei que a Farm não fosse para mim, eu não passava nem pela porta", conta. O motivo de desconfiança era o manequim: ela veste 54 e nada nas vitrines alegres e sensuais da marca era pensado para ela.

Os anos se passaram e o jogo virou -mesmo que às custas de muita peça não comprada: o GG chega aos estoques da loja carioca nesta sexta-feira, depois de 23 anos. Por trás dessa mudança significativa para parte das mulheres brasileiras, está ela, Mariana.

Hoje ela faz parte do time da marca e foi responsável por convencer os superiores de que essa mudança precisava ser feita. Ela acredita que o processo de ampliação da grade faz parte de um processo de revolução na forma de pensar da empresa, que já teve o nome vinculado a inúmeras polêmicas, mas hoje está mais preocupada com a inclusão "de dentro para fora", diz Mariana.

"Eu muitas vezes me perguntei se esse momento do GG ia chegar, porque mudar a proposta de marketing é fácil, o difícil é mudar de fato. Pra mim, é importante que o GG chegue com gente gorda envolvida no processo, no planejamento, isso é melhor do que ter lançado antes com pessoas magras falando para gente gorda", diz ela.

O GG da Farm vai variar de acordo com o modelo, o que quer dizer, na prática, que algumas peças GG vestirão corpos 46, já outras servirão mulheres que vestem até 56.

De um longo flerte à consumidora da loja

A relação de Mariana com a Farm mudou há 4 anos, quando ela deixou de namorar as roupas e comprou uma peça. "Em 2016, uma amiga minha que tinha o corpo muito parecido com o meu me falou que tinha algumas coisas de lá. Eu entrei na loja muito nervosa, suada, e comprei uma peça. Vivi uma euforia de ter um vestido da Farm, mas pouca coisa servia, eu tinha que garimpar muito para achar", diz ela.

"Fiz no meu blog o post 'Sou gorda e uso Farm' e ele chegou a Katia Barros, diretora criativa da Farm, que compartilhou. Quando ela compartilhou, chegou até mim uma menina contando que nunca tinha vestido nada da marca, daí eu marquei de ir com ela no shopping. Essa menina desceu a loja inteira e levou muita coisa", lembra ela, que começou a fazer amizades com outras mulheres gordas que gostavam da marca para trocar impressões sobre modelos.

Além disso, naquele momento Mariana ainda não sabia, mas havia entrado no radar da empresa. "Em 2017, eu recebi uma pesquisa da Farm, falei sobre tamanhos, sobre o que eu gostava, o que não gostava e foi muito legal", lembra ela.

No ano seguinte, a empresa investiu em uma coleção com padronagem mais ampla. "Eu fui convidada para ir à fábrica e conhecer como eles estavam pensando no processo de democratização para a modelagem", diz.

Depois disso, Mari passou a apontar para a marca quais eram as peças que vestiam corpos maiores e que a loja poderia produzir no tamanho G em maior escala, porque o público plus size provavelmente iria se interessar. O trabalho de Mari foi para as peças de Alto Verão de 2019, pensada, portanto, em 2018. Essa coleção contou pela primeira vez com uma modelo plus size no lookbook.

"Em junho de 2018, eu recebi um e-mail da head de marketing me chamando para o processo de uma vaga em redação, já que sou jornalista. Em agosto, comecei", conta. Enquanto trabalhava em sua área, dava pitacos na modelagem.

Com os sugestões de Mariana, o público plus size estava entrando com mais força no radar da marca. "Quando eu entrei na marca, descobri o 'mundo das farmetes' e mergulhei, analisava cada uma das peças", conta ela, que ficou craque em entender o que vestiria e cairia bem nela e em outras mulheres gordas, já que Mari começou a receber cada vez mais mulheres plus em suas redes sociais, onde tem 22 mil seguidores. Eram pessoas que queriam saber se uma loja como a Farm realmente fazia roupa para os seus corpos.

Em um movimento contrário, ela recebeu muitas críticas de pessoas do movimento gordo. "Rolou muito hate, porque a Farm tinha casos de gordofobia. Só que eu me via como parte de uma rede de mudança e estava muito feliz em participar disso. Fui acusada de enaltecer loja de magra e muitas outras coisas", conta.

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Imagem: Arquivo Pessoal
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Imagem: Arquivo Pessoal

Tem muita gente querendo comprar

O que não era novidade para Mariana se confirmou rapidamente: embora parte do público plus size fosse crítico, havia uma outra parcela sedenta por consumir tendência.

"No final de 2018, eu criei uma conta no Instagram só com dicas de roupas da Farm para o público plus size", diz. Ela recebe uma porcentagem sobre cada venda e em geral suas vendas mensais passam dos 6 dígitos: tudo fruto de sua clientela gorda, a quem ela presta uma consultoria, analisando o corpo da cliente e indicando quais modelos podem funcionar, caso a caso. Em um único mês, já vendeu R$ 249 mil em peças.

"Conforme as coleções iam aumentando de tamanho, as vendas iam crescendo, e aí eu propus fazer um encontrinho na loja de Ipanema [na zona sul do Rio], e nesse dia foram umas 15 meninas", conta ela. A loja pediu um feedback sobre o que mais tinha vendido e anunciou que em 2020 o GG entraria na grade.

Mariana sabe que é parte essencial do processo que levou o público plus size a conquistar, finalmente, maior atenção da marca. "O GG para mim é muito representativo. As pessoas achavam que a loja não era para elas. Quando eu contei que ia ter GG, elas piraram", conta.

Nesse primeiro momento, cerca de 30% das peças da coleção terão GG, o que deve dobrar na próxima coleção. Tem o dedo da Mariana em cada peça escolhida para entrar na grade maior.

"Vamos começar com um número reduzido e entender a resposta das pessoas, que sei que será positiva. Essa conquista não é minha, porque se não houvesse quem comprasse e gostasse, não iria ter GG", diz ela.

E o que move Mariana em seu trabalho é muito mais do que vender uma roupa de marca. "A moda fez eu me entender como pessoa gorda. Me vestir com o que eu gosto faz com que eu me sinta confortável no meu corpo." Hoje, ela volta a reviver essa alegria quando alguém descobre que pode caber em uma das peças que deseja comprar. "Cada vez que uma cliente fala para mim que nenhuma roupa vai caber e compra e se acha linda, eu me sinto eufórica como da primeira vez que eu comprei um vestido da Farm."

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Vestido curto floral brilhante, da coleção da Farm, agora em tamanho GG
Imagem: Divulgação

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Vestido cropped Bananissima, também disponível no tamanho GG
Imagem: Divulgação

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