PUBLICIDADE

Topo

Violência contra a mulher

O que aprendi sobre estupro com a série "I May Destroy You"

Michaela Coel é Arabella em "I May Destroy You": criadora da série foi vítima na vida real - Michaela Coel como Arabella em I May Destroy You (Fonte: Reprodução)
Michaela Coel é Arabella em "I May Destroy You": criadora da série foi vítima na vida real Imagem: Michaela Coel como Arabella em I May Destroy You (Fonte: Reprodução)

Camila Brandalise

De Universa

31/07/2020 04h00Atualizada em 31/07/2020 16h40

A série britânica "I May Destroy You", exibida desde 16 de junho pela HBO no Brasil, caiu nas graças do público. Entre eles, ganhou fãs famosas como a cantora Adele e a atriz Jane Fonda. A razão do sucesso é o talento da criadora, produtora e atriz Michaela Coel, que vive a protagonista Arabella, em contar uma história que trata das várias nuances que envolvem abusos sexuais e consentimento.

Michaela se baseou em um trauma pessoal para escrever a série. Na TV, Arabella, uma escritora que ganhou fama nas redes sociais e está prestes a lançar seu segundo livro, perde a memória do que aconteceu na noite anterior. Depois, juntando as peças, se dá conta que sofreu um estupro após ser dopada. A autora também foi dopada e estuprada, em 2015, enquanto escrevia e estrelava o seriado "Chewing Gum", da Netflix.

A violência sofrida pela protagonista de "I May Destrou You" é um caso clássico de violência sexual, e dele ninguém duvida. Mas, ao longo dos episódios, o espectador se depara com outras cenas envolvendo situações abusivas em que os próprios personagens se perguntam: será que foi estupro? A partir disso, vai mostrando e discutindo as sutilezas que envolvem situações abusivas de diferentes naturezas.

A cantora Adele em post no Instagram: "Melhor coisa que vi na TV britânica em anos"

O seriado, além de ter cenas e diálogos divertidos e misturar o peso de um trauma com a leveza de uma jovem livre e corajosa, ensina aos telespectadores sobre um tema que, apesar de urgente, ainda é nebuloso.

Veja, abaixo, cinco questões sobre estupro discutidas pela série.


Pode acontecer com qualquer uma, em qualquer lugar

A personagem Arabella é uma mulher livre que gosta de fazer o que bem entende, sem muita preocupação com amarras sociais e morais. É corajosa, forte e sabe se impor quando precisa. Mas nem por isso escapou de ser uma vítima de estupro, após ser dopada por um desconhecido em um bar.

Ela mesma não acredita que isso possa ter acontecido e, antes de cogitar um abuso, pensa em várias explicações para os flashes de memória que começa a ter de um homem em cima dela em um banheiro. É aquela história: parece que nunca vai acontecer com a gente, até que acontece.

via GIPHY


Pode ser estupro mesmo sem você ter dito não

Em outro episódio, um amigo de Arabella, Kwame (Paapa Essiedu), vai à casa de um homem que conheceu em um aplicativo de paquera. Atenção! Daqui pra frente, haverá alguns spoilers.

A primeira relação dos dois é consentida, e Kwame abre a porta para ir embora com um sorriso no rosto. Nesse momento, o homem o impede de sair, traz Kwame para a cama novamente e, apesar da resistência dele em transar de novo, é imobilizado pelo peso do corpo em cima dele. "Isso não é sexo", diz o homem. Na verdade não é mesmo. Kwame é estuprado.

A situação se mostra tão desesperadora —afinal, um homem muito mais forte está em cima dele impedindo que ele possa se movimentar— que o rapaz fica em estado de choque. Não consegue dizer não nem fazer um escândalo.

É só na delegacia, ao acompanhar Arabella para um depoimento, que ele percebe que foi estuprado com as informações sobre o crime transmitidas pela policial que os atende.

A dúvida sobre ter sido estuprada ou não é muito recorrente em vítimas de estupro marital, quando o agressor é um marido ou namorado.

Primeiro, porque pode não haver violência propriamente dita e, como a ideia mais difundida de estupro é aquela do desconhecido ameaçando a vítima de morte, situações diferentes dessa costumam vir acompanhadas de dúvidas.

Segundo, porque ainda há o entendimento de que, estando em um relacionamento, é obrigação da mulher servir sexualmente ao parceiro, o chamado "débito conjugal", argumento reforçado por diversos juristas brasileiros, especializados em direito da família, até hoje para tentar justificar o estupro marital.

Pode haver crime mesmo em uma relação sexual consentida

Ao longo da série, Arabella conhece um escritor com quem começa a se envolver. Na primeira transa, ele pede que ela vire de costas e tira a camisinha no meio da relação, sem que ela veja. Depois, diz, como quem não quer nada, que achou que ela tivesse percebido.

Arabella nem se dá conta de que sofreu outro abuso, que inclusive é crime em diversos países. No Reino Unido, onde a série se passa, é estupro. No Brasil, é considerado violação sexual mediante fraude, com pena de dois a seis anos de prisão.

A personagem continua se relacionando com o escritor. Mas só percebe que foi vítima de outro abuso quando ouve um podcast sobre feminismo em que algumas mulheres falam dessa prática. Depois, pergunta a uma policial, e ela confirma: estupro. Ou seja, mesmo que Arabella tenha consentido com a relação sexual e a penetração, ainda assim foi vítima de um abuso. Ela, então, termina a relação e expõe seu estuprador publicamente.

via GIPHY


Abusos em relações sexuais acontecem de várias maneiras

Em um dos flashbacks da série, o público acompanha um episódio na vida de uma antiga colega de escola de Arabella.

Quando era adolescente, Theodora (Harriett Webb) fez sexo com um amigo do colégio que, na hora, sacou o celular e tirou uma foto dos dois. Na cena, ela reclama, pede que ele apague a imagem, e o rapaz começa a dizer uma série de impropérios sobre o comportamento da garota. Basicamente, diz que ela não tinha do que reclamar já que dava para todo mundo.

Theodora sabia que, caso contasse para alguém, era provável que a culpa recaísse sobre ela e fosse ouvir algo do tipo "ninguém mandou transar". Ainda assim, se sentiu abusada, uma vez que uma imagem íntima sua foi tirada sem sua autorização.

O problema é que apenas capturar uma imagem não é considerado crime. No Brasil, por exemplo, só é considerada prática criminosa o compartilhamento de imagens íntimas sem o consentimento da pessoa.


Outra vítima pode ser a melhor pessoa para ajudar

Essa mesma colega de escola de Arabella é uma das pessoas com quem ela se sente mais confortável para conversar. E é Theodora que apresenta para Arabella um grupo de apoio formado por mulheres vítimas de abusos e exploração.

Em meio a outras vítimas, o telespectador vê Arabella com um sorriso tranquilo pela primeira vez depois de ser estuprada. Ela mesma, em determinado episódio, fala da importância dos encontros com esse grupo e de como ouvir outras mulheres, além de falar, a ajudava a superar o trauma.

via GIPHY

No Brasil, é possível encontrar grupos similares por meio do site Mapa do Acolhimento, que mapeou serviços públicos de ajuda a mulheres vítimas de violências em várias cidades do país.

Violência contra a mulher