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Assédio, machismo, suspeita de boicote: a rotina das entregadoras de app

Luana Belmiro: longas jornadas e assédio fazem parte da rotina de trabalho - Arquivo Pessoal/Gilnei J. O. da Silva
Luana Belmiro: longas jornadas e assédio fazem parte da rotina de trabalho Imagem: Arquivo Pessoal/Gilnei J. O. da Silva

Elisa Soupin

Colaboração para Universa

05/07/2020 04h00Atualizada em 06/07/2020 15h13

"Tem que ter o dobro de atenção quando você é mulher", diz a entregadora por aplicativos Luana Belmiro, 18. Além das reclamações sobre as condições de trabalho enfrentadas pela classe, que motivou uma paralisação no país no dia 1º, para as mulheres, há dificuldades extras: Luana relata boicote ao trabalho feminino em uma das plataformas.

Ela diz já recebeu algumas mensagens da empresa para a qual trabalha dizendo que para determinado serviço de entrega são necessários homens. "Querem dizer pessoas do sexo masculino mesmo. Tanto que, quando está com pouca demanda, os meus colegas homens recebem um aviso de que há pouca demanda naquele momento. Já eu, recebo isso [aviso de que é preciso homens]", diz ela.

Procurado, o aplicativo informou em nota "que é um equívoco de tradução - pelo qual a empresa pede sinceras desculpas e que já está sendo corrigido".

Mas essa não foi a única vez em que uma mulher desconfiou que o gênero a colocava em desequilíbrio de oportunidades com os homens. A entregadora Kerolayne Oliveira, 21, trabalhou por 4 meses em um famoso app de delivery de comida no começo deste ano e estranhou o volume de trabalho.

"No começo, é normal você pegar menos entrega, porque ainda não tem pontuação, seu perfil ainda está "frio", mas eu comecei a trabalhar junto de amigos homens. Eu rodava com eles, nos mesmos horários, mesmas áreas e o perfil deles esquentou muito mais que o meu. Eles faziam um número mais alto [de corridas]", diz ela, que já chegou a trabalhar 12 horas seguidas. Hoje, Kerolayne, entregadora há um ano, está trabalhando fixa para um restaurante do Rio.

Bolsa de entrega feita para homens

Além das desconfianças de boicote ao trabalho feminino, as entregadoras enfrentam outros problemas: preconceito no trânsito, machismo, assédio do cliente na hora da entrega do pedido e até o formato sobre a bolsa de entrega, uma reclamação unânime entre as mulheres. Pensada para o corpo masculino, a caixa de isopor forrada e com alças que estampa o nome dos apps fecha bem em cima dos seios, causando desconforto ou até mesmo inviabilizando o fechamento.

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Entregadora Carolina acredita que mulheres têm diferencial no trabalho
Imagem: Arquivo pessoal

Sem fechá-lo, a bolsa fica menos estável e sobrecarrega o peso da entrega sobre os ombros. "A primeira vez que usei a bag, tentei fechar ela nos seios e não deu. Eu regulei ela bem justa nos braços, para ficar bem apertada, mas sinto muita dor. Sou magra e meus ossos do ombro são saltados para fora, todo dia preciso passar remédio", conta Luana Belmiro.

A entregadora paulista Carolina Narciso, 31, que começou a fazer entregas em fevereiro, depois de ficar desempregada, também diz sentir muita dor. "Uma das primeiras coisas que eu falei é que deveriam lançar uma bolsa para mulheres e os caras acharam que eu queria uma bolsa rosa! A alça da frente é importante para a comida não sacudir, e não tem como. Era preciso uma bolsa diferenciada para o corpo da mulher", opina.

Elas são menos de 2% no iFood

"Bateu aquele medo no começo, né, de ser mulher e fazer isso, Dá para contar nos dedos o contato que eu tive com outras entregadoras", diz Carolina, que, hoje, pensa que deveria haver um aplicativo exclusivo para entregadoras mulheres.

"Vejo as mulheres mais focadas, traçam seus objetivos. Sinto que as clientes quando veem uma entregadora ficam mais à vontade. Temos um diferencial no atendimento. Acho que deveria ter um aplicativo só para nós, até para mostrar que mulheres podem estar nessa profissão, por que não?", diz ela, que trabalha de moto.

A ideia parece bem distante de se concretizar. O iFood informou que atualmente, entre seus 170 mil entregadores ativos na plataforma, 1,8% são mulheres. Uma pesquisa realizada pela Aliança Bike traçou um perfil dos entregadores de bicicleta pelo país e constatou que 99% da categoria são homens.

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Luana passou por situação de assédio e foi retaliada com uma nota baixa no aplicativo
Imagem: Arquivo Pessoal / Gilnei J. O. da Silva

Assédio é constante

Luana Belmiro, que ainda não tem o ensino médio completo e está sem aulas por conta da pandemia, é absoluta exceção à regra e sente na pele o assédio na hora de pedalar para ganhar a vida.

"Quando eu estou pedalando com a bag nas costas uns caras ridículos ficam buzinando, abaixando o vidro e falando coisas tipo: gostosa, desce da bike, para aí para mim. Umas coisas absurdas, o que uma pessoa espera de resposta?", diz.

Kerolayne também precisa lidar com isso. "Falam: 'Nossa, que menina linda fazendo entrega, vou pedir mais vezes'. A gente acaba aprendendo a lidar", diz ela, que vê um lado positivo: "Acho que mulheres ganham mais gorjetas que os caras", mas, diz, muitas vezes a vantagem não compensa.

Luana passou por uma situação em particular que a assustou. Ela foi fazer uma entrega à noite, em uma rua erma e foi abordada de forma desrespeitosa. "O cliente perguntou se eu não queria entrar, disse que eu era muito bonita, perguntou se era minha última entrega. Eu respondi que estava a trabalho, não iria entrar, não tinha interesse, desejei bom lanche", conta. Em retaliação, recebeu uma avaliação ruim.

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A entregadora Kerolayne sofre com o machismo no trânsito
Imagem: Arquivo pessoal

Jornadas longas, dinheiro curto

Em um fator que não diverge das reclamações masculinas, Luana contou a Universa como foi o rendimento de seu trabalho na última segunda-feira. Nesse dia, chovia em Porto Alegre, o que fez com que ela trabalhasse menos horas. Ao todo, foram 8h49, 11 corridas e o valor líquido de R$ 37,97.

"Choveu muito e deu temporal esse dia, então eles pagaram esses R$ 16,90 a mais, uma taxa extra para quando chove. O valor líquido foi de R$ 37 pelo Uber Eats por 11 viagens. As gorjetas dos usuários ajudam", diz ela, que em geral, em dias sem chuva, faz turnos de 12h com uma parada para ir em casa comer.

Outro lado

Uber Eats, Rappi e iFood foram perguntados sobre a suposta preferência por entregadores homens, sobre quantas são as colaboradoras mulheres em suas plataformas, sobre os ajustes das bolsas ao corpo feminino, sobre canais de assédio em que comportamentos abusivos pudessem ser denunciados.

A Uber Eats aformou que, por se tratar de uma empresa de capital aberto, não divulga estas informações. Posteriormente, informou que não tem preferência pelo gênero de seus entregadores e que relatos de assédio são realizados caso a caso.

A Rappi não divulgou números sobre suas entregadoras mulheres e informou que a questão referente às mulheres que atuam como entregadoras parceiras tem sido tema de atenção e que já há um projeto em curso.

Já o iFood disse nunca ter recebido reclamações sobre o desconforto provocado pelas bolsas. Em nota, o app também disse que "a alocação de pedidos não leva em consideração o gênero do (a) entregador (a). Em geral, o algoritmo considera fatores como disponibilidade e localização do (a) entregador (a) e a distância entre restaurante e consumidor".

Sobre casos de assédio, Rappi conta que existe um canal de denúncia. "Há a recomendação de que qualquer situação como a relatada seja informada imediatamente via central de atendimento — dentro do aplicativo, e, com base nisso, a Rappi toma as ações adequadas a cada caso, incluindo bloqueio do usuário", informa a empresa em nota.

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