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Amor de garupa: entregadores de aplicativo contam como é trabalhar em casal

Juliana e Borges  - Arquivo Pessoal
Juliana e Borges Imagem: Arquivo Pessoal

Laura Reif

Colaboração para Universa

23/06/2020 04h00

O volume de entregas feitas por restaurantes e aplicativos aumentou significativamente durante o isolamento social, com centenas de milhares de pessoas confinadas em casa para impedir a proliferação do novo coronavírus. Com a deterioração do mercado de trabalho e aumento na demanda por entregas, capitais como São Paulo também viram crescer o número de entregadores. Nesse turbilhão entre risco de vida, de emprego e de relações, tem casais que decidem encarar juntos o trampo sobre uma moto.

É o caso de Leticia Suman, 20, que faz entregas com o namorado, Eric Augusto, 25. Os dois enfrentam juntos os 35 kms de Itapecerica da Serra até o centro de São Paulo, onde vão de moto fazer entregas para quem está de home office na região. Ele é profissional de TI; ela, que trabalhava com eventos, ficou desempregada no início de março. O casal está junto há seis meses e planeja o casamento. Os dois começaram a fazer entregas há cerca de três meses para juntar dinheiro para a ocasião.

Munidos de máscaras e álcool em gel, eles partem para o trabalho quase todos os dias da semana, muitas vezes no período da noite. "Eu sou uma pessoa muito agitada, tenho transtorno de ansiedade, e ficar trancada em casa me faz muito mal. Sempre que saímos para trabalhar, me sinto bem dando uma volta. A gente conversa bastante, se distrai e isso é muito bom", conta Leticia.

Leticia e Erick - Arquivo Pessoal - Arquivo Pessoal
Leticia e Erick
Imagem: Arquivo Pessoal

Ela diz que ainda não sabe pilotar, mas que está aprendendo aos poucos com o namorado. Também planeja tirar a carteira de habilitação e comprar a própria moto no futuro. Eles trabalham duro para tentar se manter estáveis em um momento de crise, mas a experiência acaba servindo para manter também o amor vivo.

Como moram nos fundos da casa dos avós de Eric, o trabalho vira passeio. "Querendo ou não, é um momento que temos para nós. Conversamos bastante, cantamos músicas, e isso faz o tempo passar rapidinho", conta.

O casal de entregadores de São Caetano do Sul (Grande São Paulo), Natália Bernal, 26, e Vinícius Sanches, 33, namora há oito anos e decidiu manter o trabalho em motos separadas. Como os pedidos os levam para endereços diferentes, eles resolveram criar uma brincadeira para animar as noites de trabalho, trocando mensagens e apostando quem consegue fazer mais entregas.

"A gente fica a noite inteira conversando e se encontrando. Já aconteceu de nos encontrarmos fazendo entrega no mesmo lugar ou marcando mesmo", diz Natália, que explica que encontrar o namorado do meio do expediente faz o trabalho parecer menos exaustivo.

Os noivos Borges Silva, 24, e Juliana Oliveira, 24, também vivem o amor sobre duas rodas. Eles moram em Guarulhos (Grande São Paulo), estão juntos há nove anos e fazem todas as entregas lado a lado há 10 meses. "Isso mesmo, ela vai comigo, minha companheira", explica Borges. Para ele, a presença da noiva ajuda muito.

Natália e Vinicius - Arquivo Pessoal - Arquivo Pessoal
Natália e Vinicius
Imagem: Arquivo Pessoal

"Muitas vezes paramos em lugares onde não se pode estacionar, por exemplo. Então um entrega ou retira o produto e o outro fica na moto. Também ajuda a evitar furtos", explica Borges. Juliana completa: "Além dessas vantagens que ele disse, eu, particularmente, gosto de trabalhar na companhia dele. Estamos tentando conquistar nossos objetivos juntos, então nada melhor que trabalhar juntos. Assim, ainda temos o privilégio de passar mais tempo um com o outro."

Em uma publicação em uma rede social, Wagner Junior, 19, viu o relacionamento de dois anos viralizar. Com 24 mil curtidas, o post elogiando a namorada, Larissa Silva, 17, foi longe. O casal, de Campo Grande (MS), tem o hábito de fazer entregas juntos, mas só ele é entregador. Ela é jovem aprendiz em uma empresa. Na legenda, Wagner escreveu:

"Tá vendo essa menina aí? É minha namorada e futura esposa. Na última quarta-feira, um dia chuvoso e frio, eu estava saindo pra trabalhar. Sou motoboy, ela me chamou e disse que queria ir comigo. Eu disse que não era pra ir, pois estava frio e poderia chover. Ela pediu a capa de chuva do meu pai, insistiu e disse que se fosse pra eu passar frio, ela passaria comigo. Gente, tenham uma mulher que te incentive e que lute com você, que sonhe com você. Sou um homem melhor com ela ao meu lado, amo ela e pra sempre amarei, porque sei que com ela eu irei vencer na vida. Na verdade, iremos vencer juntos até o fim. Te Amo."

Sobre a publicação, Wagner conta que nem todas as reações foram positivas. Muitos apontaram que, com duas pessoas, a moto consome mais gasolina, o que gera mais gastos. Mas ele não se importa. "Trabalhar de motoboy às vezes é um pouco entediante, sabe? Pelo fato de rodar a noite toda sozinho. Com alguém, fica bem melhor, ainda mais com alguém que você ama. Tem cliente que até fica feliz e fala: 'olha, que bom que você está com ele'."

Ele conta que a namorada gosta de conhecer restaurantes novos e que tem visto muitos casais de motoboy. "Já vi a mulher pilotando e o cara na garupa", diz. Para ele, a companhia da namorada e os elogios dos clientes salvam a noite. "Sempre, no final, a gente come um lanche e vai embora. Ela sempre foi uma menina parceira para caramba", conta.

Sobre as precauções durante a pandemia da Covid-19, os entrevistados relataram que um serviço de entregas por aplicativo enviou kits com máscaras e álcool em gel. Eles seguem fazendo as corridas seguindo os protocolos de higiene para realizar as entregas com segurança. As fotos dos personagens são de antes da pandemia, por isso a ausência de máscaras.

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