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Bolsonaro convoca mulheres para sua defesa; quem são suas apoiadoras

A deputada Caroline DeToni (PSL) na entrevista para a imprensa com o presidente Jair Bolsonaro na saída do Palácio da Alvorada em Brasília (DF) - WAGNER PIRES/FUTURA PRESS/ESTADÃO CONTEÚDO
A deputada Caroline DeToni (PSL) na entrevista para a imprensa com o presidente Jair Bolsonaro na saída do Palácio da Alvorada em Brasília (DF) Imagem: WAGNER PIRES/FUTURA PRESS/ESTADÃO CONTEÚDO

Luiza Souto

De Universa

29/04/2020 12h54Atualizada em 29/04/2020 17h41

Quatro deputadas aliadas do presidente Jair Bolsonaro protagonizaram, na manhã desta quarta (29), o grupo que saiu em defesa do presidente um dia após o mandatário falar que não poderia fazer milagre com o número de mortos pela covid-19 no país.

Nesta terça-feira (28), o Brasil atingiu oficialmente o patamar de 5.017 mortos pela doença causada pelo coronavírus, mais do que a China, país de origem do surto. Ao ser questionado sobre esses dados, em Brasília, Bolsonaro respondeu:

"E daí? Lamento. Quer que eu faça o quê? Eu sou Messias [referência ao seu sobrenome], mas não faço milagre".

Bolsonaro estava ao vivo, mas mesmo assim seus apoiadores insistem que a frase foi distorcida.

As deputadas Bia Kicis e Major Fabiana em coletiva nesta quarta-feira (29/4) em defesa do presidente Bolsonaro - WAGNER PIRES/FUTURA PRESS/ESTADÃO CONTEÚDO
As deputadas Bia Kicis e Major Fabiana em coletiva nesta quarta-feira (29/4) em defesa do presidente Bolsonaro
Imagem: WAGNER PIRES/FUTURA PRESS/ESTADÃO CONTEÚDO

"Vergonha o que vocês fizeram"

Após chamar a imprensa de mentirosa, a deputada Bia Kicis (PSL-DF) pediu para falar.

"Depois de ler a manchete, fui ver a fala do presidente do primeiro ao último minuto e fiquei chocada com a distorção que a imprensa fez. O presidente mostrou solidariedade, simpatia pelas famílias. Ainda me choco quando vejo tamanha distorção. Vergonha o que vocês fizeram", ela observa.

Em seu primeiro mandato político, Bia Kicis é uma das parlamentares mais próximas do presidente Jair Bolsonaro. Tem livre trânsito nos palácios do Planalto e da Alvorada. Ex-procuradora do Distrito Federal, foi ela quem apresentou a Bolsonaro o economista Paulo Guedes, hoje ministro da Economia.

Ativista de direita nas redes sociais, a deputada publicou uma notícia falsa sobre uma decisão do procurador-geral da República (PGR), Augusto Aras. Na publicação da deputada, ela afirma que Aras arquivou a notícia-crime apresentada pelo deputado Reginaldo Lopes (PT-MG), contra o presidente Jair Bolsonaro. Porém, a PGR publicou uma nota afirmando que ainda "não houve manifestação do órgão ministerial".

A deputada Bia Kicis ao lado de Jair Bolsonaro - Reprodução/Facebook
A deputada Bia Kicis ao lado de Jair Bolsonaro
Imagem: Reprodução/Facebook

Ela também divulgou em suas redes sociais fake news sobre um porteiro que morreu em um acidente, mas em seu atestado de óbito a causa da morte tinha sido atribuída à covid-19, doença respiratória causada pelo novo coronavírus. A notícia que circulou em redes sociais e em grupos de WhatsApp junto com o suposto atestado de óbito é apenas parcialmente verdadeira. De fato, ele não morreu em decorrência do novo coronavírus, mas sua morte não se deu por causa de um acidente com um pneu.

E durante sessão na Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) das Fake News, em fevereiro, a deputada, numa tentativa de defender o presidente Jair Bolsonaro (sem partido), disse que nas eleições "todo mundo inventa uma mentirinha de todo mundo".

"Respeite a parlamentar"

Assim que Bia terminou a sua fala, Carla Zambelli teve seu nome gritado por apoiadores que ali acompanhavam o presidente. Antes da deputada começar a discursar, o público presente, entre eleitores e jornalistas, tentavam falar, e Bolsonaro prontamente defendeu a política.

"Você está desrespeitando uma mulher parlamentar", lembrou o mandatário.

Após pedir para alguém ficar quieto, Zambelli diz que é preciso pressionar os governadores e prefeitos, "porque tem mais de 4,8 mil cidades que não têm nenhum caso de coronavírus e que podiam estar andando normalmente".

Ela defende ainda que toda morte é sentida.

"Porque atinge a família de todo mundo, mas tem que pensar nas famílias que estão sem empregos. Vamos apoiar o presidente, porque ele precisa do povo", ela pede.

Em sua participação no UOL Debate no último dia 13, a deputada afirmou que parte da população brasileira já está imunizada contra o coronavírus. "No Brasil, estamos num momento perfeito para enfrentar o vírus. Já temos uma quantidade de testes que estão chegando", disse a deputada.

Na noite de sexta-feira (24), Zambelli foi envolvida no rompimento entre o presidente Jair Bolsonaro e o ex-ministro Sergio Moro, da Justiça e Segurança Pública. Isso porque Moro divulgou, à TV Globo, mensagens trocadas com a deputada para comprovar que não aceitou a demissão de Maurício Valeixo da diretoria-geral da PF (Polícia Federal) em troca de uma indicação do presidente a uma vaga no STF.

Carla, que teve Moro como seu padrinho de casamento, disse a Universa que nesse rompimento teve que escolher entre o pai e a mãe em um divórcio.

Major Fabiana é uma das defensoras de Jair Bolsonaro - Major Fabiana/Facebook/Divulgação
Major Fabiana é uma das defensoras de Jair Bolsonaro
Imagem: Major Fabiana/Facebook/Divulgação

"Mau-caratismo"

"É preciso caráter. A gente tem que apoiar a quem, na ponta da linha, está entregando a vida a todos nós, e o presidente já sinalizou isso", afirmou a Major Fabiana Silva Poubel (PSL-RJ), antes de atentar que o presidente "está sensível a todo as essas questões".

"Não tem como dissociar a imagem do presidente a esse mau-caratismo que vocês estão tentando colocar e manipular todas as pessoas", concluiu.

Natural do Rio de Janeiro, a deputada comandou por dois meses a Secretaria de Estado de Vitimização, mas em outubro último desembarcou do governo de Wilson Witzel para reassumir o cargo de deputada federal. Na época, ela escreveu em seu Instagram que "serei eternamente leal à família Bolsonaro". O presidente estava saindo, àquela época, do PSL.

A deputada Caroline de Toni também defende a volta gradual ao trabalho da população.

"Não é a pretexto da pandemia que vamos proibir as pessoas o direito de ir e vir", começa ela em sua fala. "Para preservar a vida, a gente precisa garantir o direito à sobrevivência. Isso significa empregos. Por isso que a atitude do nosso presidente Bolsonaro".

Caroline também teve sua fala interrompida e novamente o presidente mostrou-se solidário.

"Imprensa, respeita uma mulher que está falando", pede ele.

Caroline é uma advogada e em 2018 foi eleita deputada federal de Santa Catarina com maior votação entre as mulheres (109 363 votos).

"Porta-vozes do discurso de homem forte"

"Faz parte do imaginário popular a defesa masculina da fragilidade feminina. Como se as mulheres precisassem ser protegidas". Esta é a opinião de Isabela Oliveira Kalil em conversa recente com Universa. Ela pesquisa, há seis anos, o avanço do conservadorismo no Brasil, e há um, mapeia quem são e o que querem os eleitores de Jair Bolsonaro. Isabela é doutora em Antropologia Social pela USP (Universidade de São Paulo) e coordenadora do NEU (Núcleo de Etnografia Urbana) da Escola de Sociologia e Política de São Paulo.

Na sua avaliação, as parlamentares que apoiam Bolsonaro são porta-vozes do discurso de que ele é o homem forte que vai proteger as mulheres, ao contrário do que a esquerda diz, o chamando de misógino e machista:

"E a narrativa hipermáscula dele e delas é vista como positiva entre as eleitoras. Faz parte do imaginário popular a defesa masculina da fragilidade feminina. Como se as mulheres precisassem ser todas protegidas".

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