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Mulheres protagonizam um mundo em evolução


Tirinhas "de ódio" viralizam com rotina de patrões e empregadas domésticas

A série em quadrinhos é escrita por Leandro Assis, que também a ilustra, e Triscila Oliveira - Reprodução/Instagram
A série em quadrinhos é escrita por Leandro Assis, que também a ilustra, e Triscila Oliveira Imagem: Reprodução/Instagram

Nathália Geraldo

De Universa

01/04/2020 04h00

Pelo perfil @leandro_assis_ilustra, no Instagram, quase 600 mil pessoas acompanham a rotina de duas famílias fictícias que não só têm o mesmo sobrenome que muitos brasileiros, Santos, como vivem situações comuns de relação entre patrões e empregados domésticos, em que borbulham preconceitos, estereótipos e abusos de poder.

De um lado, o cotidiano de um núcleo familiar branco que, originalmente, era classificado como "de eleitores bolsominions" pelo próprio criador da obra, o ilustrador e roteirista de cinema e TV Leandro Assis.

De outro, a realidade da família de uma trabalhadora doméstica, negra, que, em suas interações com os patrões, escancara a desigualdade racial e social que temos no Brasil — o país com maior número de trabalhadores domésticos, 6,3 milhões de pessoas, segundo dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua, a Pnad, referentes a 2019.

Não à toa, na vida real, em tempos de isolamento por conta do coronavírus, estamos discutindo as regras do jogo sobre a manutenção deste tipo de serviço, as dificuldades de se ter o isolamento social nas favelas. Em 19 de março, o debate se acalorou: foi confirmada, no Rio, a morte de uma trabalhadora doméstica que contraiu o vírus da empregadora que, por sua vez, chegou doente de uma viagem à Itália.

Leandro divide a criação das tirinhas d'Os Santos com a criadora de conteúdo Triscila Oliveira. Há cinco anos, ela fala em seu perfil na rede social (@afemme1) sobre política, feminismo negro, sociedade, entre outros assuntos, passou a colaborar com a produção de Leandro na décima edição.

A série é divulgada na página de Leandro no Instagram — em uma publicação mais recente, o autor conta que a primeira rede social tem eliminado alguns dos conteúdos — que podem ser acessados integralmente no Twitter (@leandroassis73). Nos comentários das redes, o público diz sentir "um soco no estômago" a cada história; seja por se identificar com os personagens, seja pela indignação com a temática — tão próxima de tantos brasileiros.

Tirinhas d'Os Santos têm temática social e viralizam no Instagram

Os Santos, antes de ganharem as duas narrativas — de uma família pobre e de outra "classe média que acha que é rica", como define Triscila — era uma tirinha de ódio que retratava apenas uma "família bolsominion", explica Leandro. Com o tempo e para atrair menos "bolsominions mau humorados" à página, Leandro quis ampliar as temáticas.

"Vinha muita gente reclamar no Instagram e o nome da série estava limitando o tema, enquanto ela já trazia questões como injustiça social, racismo, homofobia", pondera o ilustrador, que atualmente mora em Porto, Portugal. Demorou pouco para que o enredo de Os Santos não ficasse só nas vivências de uma família branca, mas também alcançasse a experiência das trabalhadoras domésticas e seus núcleos familiares.

Triscila acompanhava as publicações e, depois de ter escrito um relato sobre sua vivência como ex-diarista na página de Leandro, foi convidada pelo ilustrador para ser coautora das tiras. Para ela, uma das mais impactantes é a "Lacoste", em que Edinéia — uma das filhas da personagem Didi — é criticada por seus patrões por ter estragado uma camisa ao tentar lavá-la.

"Isso é tão comum. Porque quem tem um poder aquisitivo maior adquire coisas que a gente nem sabe que existe e às vezes nem sabe como cuidar daquilo. Seja uma peça de móvel com madeira diferente, uma roupa e até uma comida que não se sabe preparar. Eu já passei por isso, minha mãe já passou...".

Uma série em quadrinhos N. 12 - Lacoste #tirinhaossantos

Uma publicação compartilhada por Leandro Assis (@leandro_assis_ilustra) em

"Eu fui faxineira, e tenho propriedade para falar de racismo, classismo e machismo"

"Eu sou filha de mãe solo, que era diarista sem registro. Vivíamos numa pobreza muito grande e, quando eu tinha 11 anos, ela foi atropelada. Então, aos 12, eu comecei a faxinar. Eu conheço a realidade que a gente escreve nas tirinhas, porque, com minha vivência, tenho propriedade para falar de racismo, machismo, classismo", conta a coautora.

É por essa experiência profissional compartilhada por ela, a mãe e outras mulheres negras, maioria nestes postos — ranço histórico da falta de inclusão dessas pessoas no mercado de trabalho formal após o fim da escravização de negros no Brasil — que Triscila conta que, a cada tirinha revisita dores — que só não mais representam sofrimento porque ela faz acompanhamento terapêutico.

A mulher preta no Brasil, como eu, vive um carrossel emocional, ainda mais no momento em que estamos. Por isso é preciso saúde mental para levar o realismo à vida daquelas personagens.

Aos 18, Triscila decidiu abandonar o posto de faxineira. "É meio invasivo estar ali, mesmo que te tratem com respeito. Então falei: 'Chega para mim'. E como tinha estudado só até o ensino médio, tirei minha carteira de trabalho e passei a atuar como vendedora de loja, caixa de supermercado, balconista", conta, a respeito do movimento de romper essa padrão "hereditário" que se dá entre as trabalhadoras domésticas.

Por que o ódio?

Por que colocar no ar uma "tirinha de ódio", em tempos de tanta polarização?

Para Leandro, que é roteirista de TV e cinema e já trabalhou na Conspiração Filmes, o sentimento vale justamente para colocar na arena as injustiças sociais que as elites tentam esconder. "A história começou com uma crítica ao governo atual, mas vai além de polarizações, esquerda e direita. O ódio vem de notarmos que temos uma classe social que quer manter seus privilégios, que não quer diminuir a desigualdade social, que não percebe que o caminho é a educação", comenta.

Entre o público, o gostinho amargo após terminar de ler as tirinhas pode surgir quando se sente que a carapuça serve. "Tem gente que se identifica com os patrões, e que até diz que está revendo algumas posturas; tem gente que se vê na família das empregadas. Para esses dois tipos, a vontade é que isso passe pelo ódio e se transforme em mudança". Há ainda os que acham que as críticas são em tom de vitimização — mas são poucos, explica Leandro.

Os "socos no estômago", diz Triscila, são um convite para uma movimentação real dentro da sociedade.

"Precisamos falar destas questões, que estão se tornando cada vez mais urgentes diante do governo que a gente tem", pontua. "A gente não pode usar o público como saco de pancada, mas é preciso gerar o incômodo necessário diante dos contextos".

Personagens e planos de um livro

Para quem acompanha a "novelinha" no Instagram ou no Twitter, Leandro dá uma boa notícia: os autores planejam lançar um livro com as tirinhas. Se você ficou interessado em entender mais profundamente as relações das personagens, um seguidor dos autores fez uma árvore genealógica d'Os Santos:

Aqui, mais tirinhas para ler:

Tirinha número 16 - Four seasons

Tirinha número 23 - Terapia [Aviso de gatilho sobre violência sexual]

Tirinha número 24 - Escravidão

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