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Ex-doméstica usou livros resgatados do lixo para fazer faculdade e virar PM

Andreia Tavares e o marido José: ele trazia livros que as pessoas jogavam fora e ela estudava para virar oficial da PM - Arquivo Pessoal
Andreia Tavares e o marido José: ele trazia livros que as pessoas jogavam fora e ela estudava para virar oficial da PM Imagem: Arquivo Pessoal

Abinoan Santiago

Colaboração para Universa

11/03/2020 04h00

Quando, há 17 anos, Andreia Tavares saiu de Canaã dos Carajás, interior do Pará, com destino a Goiânia com apenas a oitava série concluída e um bebê recém-nascido no colo, ela buscava uma vida melhor. E para ela não havia outra forma de conseguir isso que não passasse por terminar seus estudos.

O plano deu certo, mas não sem muito esforço. Trabalhando como empregada doméstica e diarista, ela concluiu o ensino médio. Depois, com a ajuda do marido gari, que levava para Andreia livros que encontrava no lixo, entrou na faculdade de direito e, mais tarde, conquistou uma das dez vagas em um concurso público da Polícia Militar, disputando com 2 mil candidatas. A previsão de Andreia é que ela vire tenente ainda este ano.

Em sua formatura do curso de direito com o marido e o filho de 16 anos - Arquivo Pessoal
Em sua formatura do curso de direito com o marido e o filho de 16 anos
Imagem: Arquivo Pessoal

Andreia, hoje aos 32 anos, credita suas conquistas ao auxílio do marido, José Francisco Barros, de 37 anos. "Sem condições de fazer um cursinho e comprar livros, meu marido trazia da rua o que achava no trabalho dele, principalmente os literários", relembra ela. "Isso me ajudou muito. Estudei e ganhei duas bolsas na faculdade, sem qualquer estrutura para estudar para o Enem. Passei com o que tinha disponível."

A principal motivação de Andreia era conseguir sair da vida difícil. "Tinha medo de passar fome de novo. Minha intenção era mudar a nossa realidade e não passar mais dificuldade financeira e sufoco."

Orgulhoso, o marido conta que ficava atento durante o trabalho para encontrar livros que poderiam servir para Andreia. Quando percebia que havia um livro no saco de lixo, ele o abria e checava as condições. "Sempre olhava os que estavam em bom estado, separa e guardava. Valeu a pena", diz o gari. José também acreditava que os estudos eram o caminho para mudarem de vida.

Família morou em barraco de lona

Andreia guarda em casa os livros que a ajudaram a entrar na faculdade e no concurso para PM - Arquivo Pessoal
Andreia guarda em casa os livros que a ajudaram a entrar na faculdade e no concurso para PM
Imagem: Arquivo Pessoal

Andreia desbancou mais de 2 mil candidatas que disputavam as dez vagas destinadas às mulheres para o cargo de oficial da PM de Goiás em 2016. No ano seguinte, iniciou o curso de formação e, desde 2019, é aspirante a oficial. Ela deverá virar tenente ao longo deste ano.

As vidas dela, do marido e do filho, hoje com 16 anos, mudaram, mas o início na capital goiana foi repleto de perrengues. Os três precisaram dividir um barraco de lona com a irmã de José durante dois meses, sob condições insalubres e sofrendo com sol, chuva e frio.

José Francisco chegou a Goiânia um mês antes de Andreia. Eles saíram do barraco de lona quando ele arrumou um emprego em uma fábrica de sacolas plásticas.
"Ficamos lá até ele ganhar o primeiro salário", lembra a aspirante. A família mudou então para um cômodo onde cabia apenas uma cama, um fogão e um armário.

"Nem geladeira a gente tinha. Usávamos a do vizinho. Ficamos seis anos nesse lugar", diz ela.

Vida de doméstica e estudos

A aspirante a oficial da PM de Goiás (em primeiro plano na foto) deve tornar-se tenente ainda este ano - Arquivo Pessoal
A aspirante a oficial da PM de Goiás (em primeiro plano na foto) deve tornar-se tenente ainda este ano
Imagem: Arquivo Pessoal

Para ajudar nas contas de casa, Andreia começou a trabalhar como doméstica quando o filho do casal completou pouco mais de três meses de idade. Em 2007, quando o marido ingressou como gari na prefeitura de Goiânia, Andreia conseguiu matricular-se no Ensino de Jovens e Adultos (EJA) e, dois anos depois, completou o ensino médio.

"Trabalhava como empregada doméstica durante o dia e, no período da noite, fazia o ensino médio. Sempre tive o sonho de fazer faculdade", relatou.

Com ajuda dos livros recolhidos pelo marido, Andreia prestou o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) pela primeira vez em 2009, mas a bolsa integral em uma faculdade veio só em 2011. Ganhou a de engenharia civil e de direito. Pensando em uma carreira na administração pública, preferiu o segundo curso.

Com apenas um ano de faculdade, ela passou em seu primeiro concurso, para o cargo de agente de transportes na prefeitura de Goiânia. Como o vencimento, à época, era de apenas um salário mínimo, deixou o emprego de empregada doméstica, mas continuou com as diárias de faxinas como renda extra.

"Fazia duas ou três diárias por semana. Ganhava menos na prefeitura do que como doméstica, mas precisava refazer minha realidade aos poucos e optei pela estabilidade mesmo recebendo pouco", comentou.

"Quando vi o resultado, nem acreditei"

A rotina de aulas como universitária, agente de transporte e diarista, além dos cuidados com a casa, durou cinco anos. Foi quando Andreia entrou no curso de oficial da PM de Goiás.

Ela prestou dois concursos para a corporação. Para soldado, eram 100 vagas — ela ficou em sexto lugar. Para o cargo de oficial, o edital ofertava apenas dez. Andreia entrou na décima posição.

Os livros recolhidos pelo marido, que auxiliaram Andreia para conseguir uma bolsa na faculdade, entraram em cena novamente: foram a fonte de estudo para os concursos.
"Nunca tive dinheiro para curso preparatório. Para o da prefeitura, lembro que comprei uma única apostila e complementava com alguns livros que eu tinha", diz.

Ao ver seu nome na lista de aprovados no sonhado concurso da PM, Andreia demorou para acreditar. "Fiquei um pouco insegura para o resultado pela quantidade de meninas inscritas e vagas ofertadas. Lembro que era uma faculdade inteira cheia de candidatas. Olhei a multidão e pensei :'Só vão sair dez daqui classificadas'. Quando vi meu nome, nem acreditei", conta. "Eu ganhava algo em torno de R$ 1,5 mil por mês e o edital ofertava um cargo de R$ 5 mil. Sorte que não tive um infarto na hora", brinca.

A qualidade de vida mudou. Atualmente, a família tem casa própria e não se preocupa com as dívidas como antes. Ela diz olhar para trás e não ter palavras para expressar o momento que vive atualmente.

"Quando a vitória chega, é uma sensação inexplicável. É demais chegar ao fim do mês e conseguir pagar as suas contas e comprar quase tudo o que deseja dentro das nossas condições. Antes era um pedacinho de carne contado para cada", afirma. "Os livros foram muito importantes para tudo isso. Tanto que guardo alguns até hoje. A estrada é árdua, mas vale a pena demais."

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