O alerta da dor

Atriz Isabella Santoni viveu anos sentindo dor todo mês. Uma década depois descobriu a causa: endometriose

Isabella Santoni em depoimento a Luciana Bugni Thales Cortes/UOL

Aos 11 anos tive minha menarca. Os médicos dizem que está cada vez mais cedo e hoje vemos meninas de 9 anos menstruando.

Eu chorei muito, foi um baque muito grande. Era como se eu tivesse perdendo minha infância. Queria ir à praia e à piscina e não podia.

No começo era tudo desregulado, até que virou menstruação mesmo, com tudo que vem no pacote: cólica, TPM... Tudo isso era tratado como algo normal. As mulheres mais velhas diziam que era preciso aturar, porque não havia o que fazer.

É como se recebêssemos um kit com absorventes, analgésicos para cólica e um chocolatinho para não matar ninguém. E, assim, tínhamos que lidar com isso.

Fui ao ginecologista aos 15 ou 16 anos e passei a tomar pílula anticoncepcional. Eu trabalhava como modelo para viabilizar os cursos de atuação que queria fazer. Eu estudava, pegava condução.

Sempre ouvia que era normal ter cólica e tomar remédio para dor. Tinha dias em que tomava três comprimidos para aguentar: de manhã, à tarde e à noite.

Foi um longo período assim até eu descobrir que meu problema era endometriose - o diagnóstico só veio dez anos depois, quando eu tinha 26.

'Bella, isso não é normal'

Eu achava que a vida era ter muita dor todo mês. Aos 21 anos, fui colocar DIU de cobre. Não queria mais tomar hormônio e sentia que estava ficando muito inchada. Era a época em que vivia a Letícia de A Lei do Amor, que tinha câncer e precisava emagrecer bastante para ficar com o aspecto da doença.

Mas eu não sabia que o DIU era superinflamatório, as dores triplicavam e eu seguia tomando muitos analgésicos - e ninguém do corpo médico desconfiou de que eu tinha endometriose.

Cinco anos depois, em 2020, estava lançando minha marca, a Nia, e tive que estudar muito para fazer a grife nascer. Nessa época, minha imunidade baixou. Tinha sintomas de covid, com muito cansaço e diarreia, mas os testes todos deram negativos. Tive que tomar corticoide e não melhorava.

Eram sinais do meu corpo: tive um gânglio no pescoço e fiz ressonância para acompanhar. No tratamento, a médica perguntou se eu tomava muito remédio e eu expliquei que, durante um período do mês, vivia com analgésicos para conseguir ter uma vida normal.

Foi a primeira vez que alguém me falou que isso não era normal. Semanas depois, fiz uma live com uma ginecologista e comentei sobre as cólicas. Ela também acendeu outro alerta: "Bella, isso não é normal".

Fizemos uma tentativa de deixar os remédios de lado e ver como seria tratar com carvão ativado, que é mais natural. Aí eu senti muita dor mesmo. Era insuportável.

Tive que fazer ressonância da pelve para descobrir o que estava errado e só então, em 2021, finalmente veio o diagnóstico de endometriose. Foi um baque.

Os limites do corpo

Eu não estava esperando que fosse uma doença e fiquei bastante insegura. Juntei a isso a desinformação na internet: li que não poderia ter filhos, que tinha que fazer cirurgia... Fiquei muito mexida, com o feminino abalado.

E então veio um insight: eu precisava ouvir o que meu corpo estava querendo me dizer. Como a gente vive demais no automático, precisa fazer uma escuta de si com mais atenção.

Não somos ensinadas, por exemplo, a respeitar os limites de nosso corpo. Cresci ouvindo que cólica era normal, mas ficou claro que não era. Nesse momento, eu só chorava e perguntava aos médicos o que deveria fazer.

Minha endometriose não é algo grave. Não está perto do útero e, sim, próxima ao intestino e bexiga.

Tirei o DIU e voltei a tomar pílula agora de maneira contínua, para não menstruar - o que me incomodou porque a ideia não era ter hormônios no meu corpo.

Eu tinha muita vontade de conhecer meu ciclo menstrual, saber as fases do meu ciclo. Senti também que os seios cresceram muito. Mas aceitei que é importante passar por isso. A endometriose pode ou não crescer, apesar de estar fazendo o tratamento corretamente.

Hoje, como falamos mais do assunto, as investigações de endometriose começam antes. É improvável que as garotas convivam 10 anos com o problema sem saber que tem, como aconteceu comigo.

É uma doença muito incerta e o único remédio é acompanhar. No ano passado, por exemplo, viajei muito, mudei a alimentação e tive mais sintomas. O meu corpo já me avisa que é preciso ter cuidado.

Hoje, fui surfar e a água do mar estava muito gelada. Já saí do mar com dor. Atenção ao corpo é uma escuta diária. É preciso parar um pouco e descansar quando vejo sinais como cólica, cansaço, dor de cabeça.

Tento cuidar de mim de maneira natural com a fisioterapia pélvica e acupuntura.

Se tem dor, vá ao médico

Comecei a trabalham muito cedo, sempre fui muito ativa. Ser desse jeito é o que me fez conquistar tudo que eu tenho. Estar sempre no lugar de pessoa forte que não precisa de nada.

Mas quando o corpo avisa que você está fraca, precisando descansar, é quase uma luta contra a gente mesma. Ninguém nos ensina a pausar.

A sociedade quer que você trabalhe, mas para conviver melhor com isso eu preciso ouvir meu corpo. Meu aprendizado durante a caminhada foi aprender meus limites - dormir bem, me alimentar bem e evitar muito estresse.

Aprendi com a endometriose que tudo oscila o tempo todo e a gente não tem certeza de nada. Se eu ultrapasso um limite, como entrar na água gelada hoje, compenso depois, aquecendo meu corpo durante a tarde.

A dieta é rigorosa: não posso comer glúten, industrializados, chocolate, cafeína, carne vermelha... Essa foi uma das notícias mais tristes para mim, que adoro comer. Mas estou aprendendo a lidar com meu corpo, mesmo que escorregue às vezes.

A dor me alerta de que preciso parar. Acho que é importante saber disso: sintoma é alerta e o remédio te desconecta dos sintomas, como aconteceu comigo por dez anos.

Fizemos recentemente uma campanha sobre endometriose para o Instituto Crispi e os relatos das mulheres são tão particulares que nem parecia a mesma doença. Em cada uma acontece de um jeito.

A ideia então é levantar uma bandeira: se tem dor, vá ao médico.

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