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Mães e filhos

Como Thelma, de "Amor de Mãe": existe limite para proteger o filho?

Thelma (Adriana Esteves) em Amor de Mãe - REPRODUÇÃO/REDE GLOBO
Thelma (Adriana Esteves) em Amor de Mãe Imagem: REPRODUÇÃO/REDE GLOBO

Heloísa Noronha

Colaboração para Universa

10/02/2020 04h00

Em "Amor de Mãe", Danilo (Chay Suede) é o filho único de Thelma (Adriana Esteves) e superprotegido desde o dia em que sua mãe o salvou, ainda criança, do incêndio que matou seu pai. Thelma sempre fez absolutamente tudo por ele, inclusive alguns exageros, como arrumar sua roupa, e hoje sofre ao vê-lo casado com Camila (Jéssica Hellen) e não tê-lo mais tão por perto.

A educação superprotetora de Danilo na trama global das 21 horas é um assunto que rende pano pra manga, principalmente porque a maternidade não surge na vida de uma mulher com um manual. Trata-se de um universo em que até mesmo as melhores das intenções podem obter resultados horríveis, se não forem bem dosadas.

Num primeiro momento, as atitudes de Thelma se apoiam no trauma vivido no passado. "Não foi um decisão consciente, mas ela passou a cuidar mais da vida do filho do que da dela para não encarar os próprios vazios e a dor da solidão, do desamparo e do luto", comenta Gisela Castanho, terapeuta de casais e de família de São Paulo (SP).

"O apego dela pelo filho revela sua dificuldade em lidar com todas essas questões de sua vida. Então, a Thelma tomou a vida do Danilo para ela, como se fosse um território seu, em que tivesse que gerir e cuidar. O filho não é dono do próprio território", completa Claudia Puntel, psicóloga especializada em trauma e experiências somáticas, terapia familiar sistêmica e constelação familiar.

Assumindo toda a carga

É comum achar que comportamentos com o de Thelma são mais frequentes entre mães solo e/ou de filhos únicos, mas não necessariamente.

"Pode-se pensar que uma mãe solo acaba depositando no filho uma carga emocional maior. Se ela não compartilha seu poder e responsabilidades parentais, não há quem faça o contraponto quando ultrapassa o limite razoável de proteção", observa a psicóloga Thalita Martignoni, pós-graduanda em terapia cognitivo-comportamental aplicada à infância e juventude. De acordo com a especialista, muitas vezes, é isso mesmo o que acontece.

Por outro lado, justamente por não terem um parceiro com quem dividir o ônus da educação do filho, muitas mulheres querem que ele seja mais autônomo e contribua nas tarefas domésticas e em outras responsabilidades. "Afinal, a sobrecarga é grande", observa Thalita.

Muita emoção em jogo

Os filhos únicos, do mesmo modo, podem ser alvo de superproteção pelo excesso de investimento emocional dos pais. Porém, muitos recebem incentivo desde cedo para serem autossuficientes para a eventualidade da morte dos responsáveis e por não terem irmãos com quem possam contar.

"Comportamentos como o de Thelma não estão diretamente relacionados ao status de relacionamento ou à quantidade de filhos da mãe, mas, sim, às situações que ocorreram em sua vida ou em seu ambiente social que podem interferir no modo com que ela se comporta e, consequentemente, na maneira com que trata o filho", opina a psicopedagoga Luciana Brites, cofundadora do Instituto NeuroSaber, em Londrina (PR).

Capuski/Getty Images
Imagem: Capuski/Getty Images

Prejuízos para mãe e filho

Nas primeiras semanas da novela, Danilo levou um fora da namorada, cansada da ausência de opinião e da falta de autonomia do parceiro.

Segundo especialistas, a dificuldade de encarar relacionamentos afetivos na idade adulta é algo recorrente na vida de quem é dependente emocionalmente da mãe. Filhos criados numa "redoma" provavelmente nunca precisaram tomar alguma decisão séria, por ter sempre alguém que fizesse isso para eles.

"Num relacionamento afetivo é preciso ter trocas e tomar decisões o tempo todo, então a pessoa pode, sim, encontrar conflitos. É válido lembrar que várias crianças que têm esse 'laço' muito dependente ficam mais tempo na casa de seus pais por conta do conforto existente no lar e pela dificuldade de enfrentar os desafios da vida adulta", observa Luciana.

Para Thalita, quanto mais um filho é poupado, mais lhe são roubadas oportunidades de se sentir capaz de enfrentar os desafios da vida. "Ele nunca se sente pronto para assumir grandes compromissos porque assumiu uma crença de incapacidade. A mãe que superprotege não sabe que essa atitude, na verdade, faz o caminho inverso. Quem muito ajuda, enfraquece o outro", alerta.

Interferência velada

O filho que sempre foi superprotegido pode estar acostumado com as interferências da mãe de tal forma que não se sente invadido quando ela se interpõe na sua relação amorosa. Tal excesso chega a ser reverenciado de forma equivocada como uma forma de sentir amado e cuidado.

"Porém, quando alguém assume um relacionamento adulto, não é mais apenas o seu espaço individual que está em questão, mas o do casal. A nora pode se sentir invadida e invalidada no lugar de esposa e, então, tenta impor os limites pelo marido, que não consegue se indispor com a própria mãe ou que nem compreende que esse limite seja necessário", exemplifica Thalita.

Depressão é um risco

A probabilidade de ter depressão e ansiedade e comportamentos de oposição é alta, por não saberem lidar com a vida em si. Outros problemas de saúde também são comuns, pois as pessoas somatizam e se sentem sufocadas.

Além disso, apesar de muitas mães se sentirem confortáveis no papel de superprotetoras, deixam de viver a própria vida.

O fato de ignorarem (ou fingirem que ignoram) esse problema não o torna menor. "Sentimentos de culpa e ressentimento podem surgir quando elas compreendem que a relação desenvolvida não foi tão positiva e saudável para a vida do próprio filho", fala Luciana.

É preciso cortar (de novo!) o cordão umbilical

Ainda que esse cordão umbilical seja uma figura de linguagem, a dependência que cerca relações codependentes funciona como uma espécie de "laço" que precisa ser rompido. Atenção: não é o vínculo entre mãe e filho que necessita ser desfeito, mas a dependência tóxica que os aprisiona.

Para alguns filhos, segundo Claudia Puntel, trata-se de uma missão complicada, já que há muito medo de perder o afeto da mãe ao dar o "grito de liberdade".

"Existe também chantagem emocional e manipulação e os filhos não percebem isso. Então, ficam muito ligados à mãe com medo de, caso façam o que querem e se mostrem como verdadeiramente são, ela fique magoada. Muitas vezes, o que mantém relações assim não é o amor, mas sim a culpa", afirma.

Para cortar esse cordão umbilical simbólico, o primeiro passo é ter o entendimento que a codependência está prejudicando a vida de todos.

"Mesmo que seja um processo doloroso, tomar uma atitude é necessário para o crescimento e o desenvolvimento próprio e para dar conta da vida adulta, até porque em muitos casos o filho não terá os pais a vida toda para tomar decisões ou fazer as coisas para ele", declara Luciana.

Como lidar com a possível mágoa

Geralmente as mães ficam magoadas porque estão num momento de transição, em que se deparam com o ninho vazio e não conseguem reequilibrar os papéis que constroem sua identidade com a perda de grande parte das funções que exercia junto ao filho.

"Quando qualquer filho sai de casa para construir um caminho próprio, os pais passam por uma fase de adaptação, em que têm que deslocar parte da energia que investiam no papel parental para as outras áreas da vida, como a conjugalidade e até mesmo a individualidade. O papel de mãe sempre continuará, mas agora tem que ser reconfigurado", pontua Thalita.

Segundo ela, se o investimento na maternidade é muito desproporcional, quando se volta para outras áreas da vida, a mãe percebe que negligenciou muitas questões importantes em nome dos sacrifícios que fez pelo filho.

De acordo com Gisela o processo do "corte" vai doer, mas será, finalmente, uma forma de a mãe enxergar o quanto a superproteção mais prejudicou do que beneficiou o filho. "Não é preciso romper o vínculo, mas os dois têm de ressignificar a relação e descobrir um novo jeito de se relacionarem", argumenta.

monkeybusinessimages/Getty Images/iStockphoto
Imagem: monkeybusinessimages/Getty Images/iStockphoto

Incentivar a autonomia é um ato de amor

Na opinião de Claudia, a superproteção é uma forma de "amputar" psiquicamente o outro: se a mãe ou o pai não deixa que o filho experimente os problemas da vida, não tem ferramentas para aprender a desenvolver a coragem e vai ficando cada vez mais com falta de confiança.

"Proteger é diferente; é ajudar a criança a fazer certas coisas e, à medida que ela for crescendo, deixar que a mesma se organize e faça, sempre no tempo dela", diz.

De acordo com a psicóloga e neuropsicóloga Elaine Di Sarno, de São Paulo (SP), superproteger um filho envolve anular a sua autonomia e, de certa forma, aprisioná-lo em suas próprias escolhas, decisões e frustrações.

"Algumas atitudes superprotetoras podem virar uma obsessão, sufocando e prejudicando o amadurecimento. É comum que essas crianças se tornem adultos inseguros, inquietos ou quietos demais, com muito medo, que não conseguem se socializar bem. Alguns se transformam em pessoas revoltadas ou agressivas, sem gostar de obedecer regras e valorizar o tempo em família, com desejo de isolamento", descreve.

O que é ser uma boa mãe?

Elaine lembra que ser um bom pai ou uma boa mãe não significa prover todas as necessidades dos filhos, mas dar a eles a oportunidade para que construam suas vidas de forma saudável.

"Não é preciso ter medo que a criança passe por frustrações ou que arque com as consequências de seus comportamentos, pois somente dessa forma é que ela desenvolve o que chamamos de repertório de enfrentamento, o que leva consequentemente à construção da autoconfiança e da autoestima", afirma.

Criar um filho com autonomia é um ato de amor porque faz da criança um adulto capaz de enfrentar e se impor nos contextos que serão apresentados durante sua vida, conseguindo lidar com relacionamentos no meio familiar, profissional e, principalmente, pessoal, tornando-a responsável por suas atitudes e consequências.

"Vivemos em uma época de muita ansiedade, em que os pais estão muito assustados com os riscos a que os filhos estão expostos. Acabam errando na dose da proteção, principalmente quando já tiveram experiências dolorosas e traumáticas, como é o caso de Thelma", alerta Thalita.

A profissional acrescenta que a superproteção acaba sendo uma medida compensatória para os pais aliviarem a ansiedade. "Mas a mensagem que acabam passando para a criança é de que o mundo é excessivamente hostil e perigoso e que ela é frágil para lidar com os desafios do mundo", finaliza.

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