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Mães e filhos

Ela vive por filho, como Thelma da novela: "Não sou única sem apoio do pai"

Andressa e o filho Arthur - Acervo pessoal
Andressa e o filho Arthur Imagem: Acervo pessoal

Christiane Ferreira

Colaboração para Universa

26/11/2019 04h00

Na nova novela Amor de Mãe, que estreou nesta semana no horário das nove, a personagem Thelma, interpretada por Adriana Esteves, é viúva e superprotetora. Mãe de Danilo (Chay Suede), a proprietária de um restaurante viveu um trauma no passado, quando tirou o filho de um incêndio ainda bebê. A vida de Thelma tem uma reviravolta quando ela recebe um diagnóstico de um aneurisma cerebral, que põe em xeque todos os seus valores e ensinamentos passados para o filho.

Na vida real, a estudante de Ciências Biológicas, Andressa Cecchin, 28 anos, do Paraná, poderia ter sua história retratada na ficção, por ser uma mulher forte, corajosa e que dá todo o seu amor e seu tempo ao filho Arthur, de três anos. Dono de um sorriso encantador e sapeca, o menino nasceu com mielomeningocele, uma má-formação na coluna, que lhe deixou com algumas sequelas, como paralisia do joelho para baixo e hidrocefalia, que fazem com que necessite de cuidados especiais. Mãe solo, ela não desanima apesar de todos os sobressaltos que a condição de Arthur acaba trazendo. A seguir, veja o depoimento de Andressa para Universa.

"Tinha 25 anos quando engravidei do Arthur. Eu e o pai dele frequentávamos a mesma roda de amigos, nos envolvemos e ficamos uma vez. Um mês depois descobri que estava grávida. Quando contei, ele falou que não poderia ser pai naquele momento, que tinha vários planos — como se eu não os tivesse. Na época, estava desempregada (como até hoje) e morava com a minha mãe e irmã.

Com 36 semanas de gestação descobri em um ultrassom que Arthur tinha uma má-formação e que logo ao nascer precisaria passar por uma cirurgia. O pai dele não foi presente nos exames do pré-natal e, quando o menino nasceu, exigiu o DNA. Ele fez a escolha de não participar da vida do menino e se mudou para a Itália, onde mora até hoje.

Ao descobrir a má-formação de Arthur no fim da gestação costumo dizer que fiquei igual ao celular no modo avião, pois precisava manter a minha pressão arterial estabilizada. Sendo assim, decidi por não buscar nada sobre a doença, principalmente imagens de crianças na internet. Minha irmã viu e teve uma crise de ansiedade.

Me preparava para viver um parto humanizado, sem violência obstétrica. Me internei em 26 de outubro de 2016 e o Arthur nasceu em 3 de novembro. Dois dias depois me deram alta, mas ele continuou na UTI. O nascimento dele aconteceu em outra cidade, pois onde moramos não havia neurocirurgião. Então, logo que meu filho veio ao mundo, passou por duas cirurgias: uma de reparação na coluna e outra para colocar uma válvula para que impedir que a hidrocefalia afetasse o seu desenvolvimento.

Eu aprendi a ser mãe na raça. No hospital me ensinaram tudo, como fazer o curativo, dar banho, tratar o umbigo. Como minha mãe teve duas meninas, era um mundo completamente diferente. Falo que aprendo cada dia uma coisa nova. Nunca tinha visto uma criança na UTI. Quando o vi cheios de fios e sondas, foi horrível. Me senti completamente inútil porque nada estava nas minhas mãos.

A descoberta do problema de saúde do Arthur foi um choque, porque até então meu planejamento era ficar os três meses com ele, colocá-lo em uma creche, trabalhar e voltar para a faculdade. Mas isso não foi possível porque ele precisa de cuidados. Falo que é uma maternidade atípica, pois quando Arthur fica doente chega a ficar dez dias internado. Ano passado passou por duas cirurgias em duas semanas. Tudo que faço penso nele, se vai ter acessibilidade, se terei lugar para trocar fraldas. É tudo muito diferente da vida das minhas amigas. Desde que tive o bebê saí apenas uma vez sem horário para voltar.

Preciso levar o Arthur a cinco médicos para consultas de rotina. Todos ficam em Curitiba, longe da minha cidade. Apenas neste mês foram quatro consultas e duas internações. Depois de conhecer outras mães no hospital, percebo que não sou a única sozinha sem o apoio do pai. Em três anos vi apenas um pai largar o emprego para se dedicar à saúde da filha. O restante são mães sozinhas aguentando a barra.

Quando Arthur precisa ficar internado, também é em outra cidade. A locomoção é paga pela prefeitura, assim como os remédios e os cuidados com meu filho. Fico hospedada em uma casa de apoio, onde posso dormir e tenho alimentação gratuita. Minha rotina é toda voltada aos cuidados com o meu filho. De manhã ele fica na escolinha e duas vezes por semana o levo na Apae para sessões de fonoaudiologia, estimulação, terapia ocupacional e fisioterapia.

Confesso que sou uma mãe superprotetora, mas a minha preocupação é que o quadro dele pode mudar de uma hora para outra. Como ele tem problemas na bexiga, o medo é que dê alguma complicação no rim. Fico sempre em cima, atenta. Ano passado quase o perdi porque quando a válvula da cabeça entope temos de correr para o hospital. E o único sinal que dá é a febre alta.

Não consigo expressar o que sinto por ele, pois é um amor muito louco. Sempre quis ser mãe, ter um filho biológico e adotar outro. Mas não imaginava que seria tão cedo. Brinco que ser mãe é querer fugir, mas querer levar o filho junto. Não conseguiria imaginar a minha vida sem esse serzinho. Cada dia é uma coisa nova."

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