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Casamento sem sexo: quanto tempo pode durar essa relação?

Períodos mornos são comuns, mas conversar pode ser bom - iStock
Períodos mornos são comuns, mas conversar pode ser bom Imagem: iStock

Heloísa Noronha

Colaboração para Universa

20/01/2020 04h00

Qualquer relacionamento, principalmente os estáveis e de "longa data", costuma atravessar alguns períodos em que a atividade sexual é menos frequente. Uma fase mais morninha — que para alguns é de "seca" total — pode ser resultado de vários fatores.

"A diminuição ou ausência de sexo em determinadas épocas do casamento é algo natural e costuma estar associada a momentos críticos da vida, como nascimento de filhos, reforma da casa, estresse no trabalho, conflitos interpessoais, crise financeira ou afetiva, abuso de álcool e ou drogas, infidelidade...", comenta a psicóloga Mara Lúcia Madureira, especializada em TCC (Terapia Cognitivo-Comportamental).

Porém, não são somente essas crises que influenciam na intimidade conjugal. Não é raro que, durante um casamento, as pessoas acabem se acomodando em relação ao sexo e deixem de transar por meses e até por anos. Isso conduz à questão: por quanto tempo é possível um casamento funcionar sem sexo?

Relações que atravessam longos períodos sem sexo são mais frequentes do que se imagina. E, acredite, nem sempre resultam em separação, o que não impede que a questão seja encarada como um sinal de alerta e que mereça ser trabalhada.

Por ter a sensação de que o outro estará sempre lá, no travesseiro ao lado, disponível, há a tendência de deixar o sexo para depois, pensando que depois haverá um momento mais favorável. E, aí, o casal começa a postergar esperando o melhor dia, local e/ou hora.

"Quando percebem, já se passaram meses sem uma relação sexual. É muito comum ver casais que deixam de fazer sexo porque hoje ainda é segunda e amanhã tem que acordar cedo ou porque hoje é sábado e ficaram fora o dia todo e é melhor deixar para domingo que estarão descansados. São pensamentos que acontecem tanto em homens quanto em mulheres e isso começa a distanciar o casal", afirma a psicóloga Adriana Severine, também especialista em TCC.

Amizade e cumplicidade seguram a situação

Não existe, segundo Adriana, um tempo limite para uma pessoa ou um casal ficar sem sexo, já que isso depende de vários fatores. "Há casais jovens que ficam quatro ou cinco anos sem sexo e mantêm o casamento, enquanto outros passam quatro meses sem transar e a relação desmorona. Sempre que falamos de relações humanas não se pode generalizar, pois cada indivíduo é único", diz.

Já Juliana Bonetti, psicóloga e terapeuta sexual, de São Paulo (SP), fala que o tempo que um casamento pode ou não durar sem sexo depende de como cada um lida com essa ausência.

"Em certos casos, geralmente o desejo está depositado em um só, ou seja, um no casal quer sexo e o outro não ou nem tanto. Nessas situações, sustentar um relacionamento fica complicado. As cobranças e as discussões tornam-se constantes e difíceis de administrar", diz. Quem sente mais vontade acaba se sentindo rejeitado.

Amizade, cumplicidade, amor, sonhos em comum, jeitos de pensar semelhantes e confiança são aspectos mais importantes do que sexo para algumas pessoas e que podem manter um casamento assexuado.

"Ter uma boa convivência fora do contexto sexual influencia muito a tolerarem à falta de sexo. Muitos casais têm uma vida conjugal muito boa no quesito vida a dois, filhos, família, trabalho. O sexo não é o que determinará uma separação", avisa Juliana.

Não é por isso, entretanto, que a baixa ou a falta de frequência sexual deve ser subestimada. O sexo é uma experiência importante para o bem-estar individual e do casal, pois ajuda a fortalecer a intimidade e o vínculo.

Afastamento emocional é um risco

Muito tempo sem transar pode afastar o par e é justamente esse afastamento — não só sexual, mas sobretudo emocional — que provoca uma espécie de "trava" quando a vontade surge, impedindo a pessoa de expressar ao outro que sente desejo. De acordo com Mara Lúcia, há pessoas que sentem falta de transar, mas não tomam nenhuma atitude. O que as impede?

"A falta de atitude pode expressar baixa autoestima, autoimagem negativa, dependência financeira ou afetiva. Por não se sentir suficiente física, intelectual, financeira ou socialmente, a pessoa se acomoda, encontra meios de se satisfazer sexualmente sozinha e segue a vida com o cônjuge. A passividade tem o objetivo de manter o status quo da relação e evitar entrar em contato com os próprios sentimentos de inferioridade ou incapacidade de gerir a própria vida contando apenas consigo mesmo", diz.

Para Juliana, um longo período sem sexo faz também com que a pessoa perca contato com a própria sexualidade e sensualidade e tenha medo de ser julgada pelo par, já que a intimidade, nesse fase, sofreu um certo abalo.

Para Adriana, quando o sexo começar a diminuir ou rarear, é preciso que os dois se disponham a conversar abertamente sobre o que está acontecendo. Pode ser um papo difícil, mas vai ajudar, inclusive, a motivar o casal a buscar estratégias para o problema ou alguma questão que esteja afetando a libido.

Por exemplo: se a pouca vontade de transar tiver a ver com as finanças, o par pode definir um plano para cortar gastos ou aumentar os ganhos e, conforme o contratempo for sendo solucionado, ir resgatando a intimidade e a cumplicidade.

"Mas, se os dois não se sentem confortáveis para conversar a respeito, o ideal é procurar uma terapia de casal para ajudá-los a entender o momento pelo qual passa a relação. Meu conselho é nunca ignorar o assunto e fingir que nada está acontecendo. Há casais que decidem viver sem sexo, mas isso deve ser uma decisão de ambos, não algo empurrado com a barriga e que não resolve a situação. O ideal é que ocorra um diálogo e não uma discussão ou briga sobre o assunto para encontrarem juntos uma saída", completa.

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