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Marido sumiu, filha ficou em coma e perdeu casa: "Meu ódio virou motivação"

Luiza Souto

De Universa

13/12/2019 04h00

Karina, 37, foi casada por 13 anos com o pai de dois de seus três filhos. Quando a mais nova tinha dez meses, em outubro de 2018, o então companheiro levantou, tomou o café da manhã, disse "tchau, amor" antes de sair para trabalhar e nunca mais voltou. Desligou o celular. Sumiu por 20 dias. Depois de procurar a polícia e pensar no pior, Karina reencontrou o marido: ele foi morar com outra mulher, mãe de cinco, de outro relacionamento dela, e não teve coragem de contar.

Quando achou que sua situação não tinha como piorar, a paulistana viu a filha caçula ficar oito meses hospitalizada, em coma, com um coágulo no cérebro, após cair da cama. Os médicos informaram que, se a criança saísse dali, dependeria para o resto da vida de alguém. Durante esse período, Karina perdeu o emprego como auxiliar de cozinha e a casa onde vivia.

Um ano após ser abandonada, e trabalhando como motorista de aplicativo, Karina diz que vive num local melhor e passará o Natal sorrindo: "O ódio virou motivação". Ela conta a Universa como deu a volta por cima.

"Meu marido era uma pessoa muito boa, sem vícios. Nunca discutimos, a não ser por dívidas que tínhamos. Aparentemente, vivíamos muito bem. Ele trabalha como motorista de caminhão, e eu era auxiliar de cozinha.

Numa manhã, levantei, servi café, ele pegou a marmita, disse 'tchau, amor'. Me ligou no almoço, mas não voltou para casa. Fui à empresa onde trabalha e lá informaram que ele estava de férias. Achei estranho. Fui à delegacia prestar queixa, procurei a família dele. Pensei o pior. Só não imaginava que era mulher.

Depois de 20 dias sem resposta, voltei à empresa para saber se tinham alguma informação e ele estava lá. Disse que não sabia o que falar e apenas me pediu perdão. Eu insisti que ele contasse o que estava acontecendo. Foi quando ele confirmou que já tinha outra mulher, de 65 anos e que era mãe de cinco filhos, de outro relacionamento, e que foi morar com ela, mas avisou que não iria falar sobre o assunto, ou dar mais detalhes. Então me deu as costas e voltou a trabalhar.

Tenho três filhos. O de 16, que é de outro relacionamento, uma de 12 e a de 1 ano e 11 meses. Dias após esse reencontro que tivemos, minha filha, então com 10 meses, caiu por acidente da cama. Eu tinha acabado de deixá-la com o irmão mais velho e com uma pessoa de confiança que tomava conta deles.

O pai só foi visitá-la no hospital durante uma semana. Os médicos suspeitaram de negligência nossa, minha e do pai dela, e acionaram o Conselho Tutelar. Ainda corri o risco de perder a guarda dos meus filhos. A equipe médica viu que o pai não estava dando assistência e começou a investigar se eu tinha tentado matar a menina, ou mesmo ele, por raiva da separação. Mas não provaram nada. Minha filha hoje está bem, andando, parece que nada aconteceu.

E a situação ainda piorou: quando minha filha já estava internada havia 15 dias, fui atropelada dentro de um mercado. Para completar, emprestei meu carro a uma amiga e ela bateu o veículo. Deu perda total.

Minha família mora na zona sul e eu, em São Mateus, na zona leste. Então abandonei o emprego, em Guarulhos, para ficar com a minha filha no hospital e cuidar das crianças. Nossa casa era financiada e, como o meu ex-marido parou de pagar as parcelas, tive que vendê-la. Fui morar de aluguel.

Meu ódio virou motivação.

Para me virar, comecei a trabalhar como motorista de aplicativo. Saio de casa 3h30 e, às vezes, paro à meia-noite. Não é serviço fácil, mas hoje estou com uma casa melhor e um carro mais novo.

Conto para os passageiros a minha história porque tem muita gente que entra no carro cheia de problema e cai em cima do motorista, mas ninguém sabe o que ele está passando.

O mal não se paga com o mal

Os meus filhos mais velhos me ajudam com a neném. De tarde, busco a caçula na creche da prefeitura e fico em casa esperando eles chegarem da escola para voltar ao trabalho. Eles sabem que eu pago R$ 1.000 na prestação da casa e não dá para bancar alguém para cuidar deles.

É muito raro eu ter momentos de lazer. Aos fins de semana, deixo meus filhos na casa dos tios, da avó, em Franco da Rocha, a mais de 60 km de casa, para trabalhar.

O pai deles não visita nem liga. A única assistência que deixou foi um cartão de alimentação da empresa onde ele trabalha, que carrega com R$ 780 por mês. Não vou entrar na Justiça para exigir pensão porque está dando para levar.

Necessidade a gente não passa. Aperto, sim. Então trabalho de domingo a domingo. Mas, se meu ex não se comoveu nem com a própria filha no hospital, não se comoveria comigo. Soube que até os pais ele abandonou. O pai dele adoeceu e ele só o visitou no cemitério, na hora do enterro. Também deixou os amigos de lado.

O mal não se paga com o mal. Eu tento passar coisas boas do pai para as crianças porque, se ficar falando mal, elas só terão coisas negativas na vida. Eu digo que ele é um trabalhador e que ninguém é obrigado a ficar com ninguém.

Aprendi cedo que o ser humano é capaz de te levar tudo, menos o conhecimento. Hoje, vivo para meus filhos terem a oportunidade de fazer faculdade. Estarei lá na frente aplaudindo o sucesso deles.

Natal diferente

Eu fui adotada e, aos 16 anos, conheci a minha mãe biológica. Ela tinha HIV e morava na rua. Faleceu dois dias após o nosso reencontro. Somente aos 30, descobri que o homem que me criou como pai adotivo era, na verdade, meu pai biológico. Fui fruto de uma traição dele. Ele me contou tudo isso no hospital, antes de morrer. E pediu para perdoar minha mãe adotiva. Ela me maltratava demais, me agredia. Eu tinha que lavar, passar e cozinhar para seis irmãos. Hoje, ela me ajuda.

Precisei passar por tudo isso para saber que tenho que perdoar e levar tudo como um aprendizado para, só assim, dar a volta por cima. Moro numa casa melhor à que vivia com meu ex, e já paguei quase todas as prestações. E toda a família me trata muito bem.

No Natal do ano passado, mandei meus filhos para a casa de parentes e fiquei sozinha, na cama, chorando. Não queria que ninguém visse a minha derrota. Ainda mandei uma foto para o ex com a legenda: 'Você conseguiu acabar com o nosso Natal. Parabéns'. Ele nem respondeu.

Hoje, depois de deletá-lo da minha vida, meu foco está todo nos meus filhos. Neste ano, quero passar o Natal com os três e sorrindo."

**A pedido da família, a foto e o nome de Karina foram alterados

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