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Mestre do Sabor: Kátia diz que comia miojo, mas se reconectou com a cozinha

Kátia Barbosa, jurada do Mestre do Sabor: "Já fui mais grossa. Hoje amadureci" - Reprodução / TV Globo
Kátia Barbosa, jurada do Mestre do Sabor: "Já fui mais grossa. Hoje amadureci" Imagem: Reprodução / TV Globo

Ana Bardella

De Universa

18/10/2019 04h00

O reality culinário Mestre do Sabor, da Globo, começou faz pouco tempo, mas já demonstrou ser diferente dos outros em pelo menos em um quesito: a forma como os participantes são tratados. Se nas demais emissoras os jurados beiram a rispidez, na versão global a desaprovação vem em outro tom.

A carioca Kátia Barbosa, única mulher entre os avaliadores, conquistou o público pelo jeito simpático. Em entrevista para Universa, ela comenta: "Não gosto de criticar o trabalho de ninguém. Precisamos ter cuidado porque estamos julgando pessoas que cozinham para viver e que podem ser traídas pelo emocional, pela pressão".

Na entrevista a seguir, a jurada do programa fala sobre a infância simples e a repercussão na televisão:

Chef não, cozinheira

Eduardo Almeida
Imagem: Eduardo Almeida

Desde a primeira exibição do programa, a carioca de 57 anos deixou claro: prefere ser chamada de cozinheira em vez de chef. A humildade tem a ver com as origens. Nascida em Ramos, no pé do Morro do Alemão, no Rio de Janeiro (RJ), Kátia teve uma infância pobre: seu pai mantinha uma barraca de doces e vendia na porta dos cinemas da região. Hoje, dona de cinco estabelecimentos gastronômicos, ela segue a linha da culinária tipicamente brasileira.

O conjunto fez sucesso entre o público e entre os participantes: muitos escolheram fazer parte do seu time. Mas ela confessa que não costuma acompanhar a repercussão do próprio trabalho. "No bairro em que eu moro algumas pessoas me reconheceram no supermercado, mas não fico vendo as redes sociais. Minha única preocupação é ser natural. O público ainda vai me ver chorando muitas vezes", garante.

"Comia macarrão instantâneo"

Quem vê a profissional na televisão não imagina que sua relação com a cozinha nem sempre foi boa. Por influência do pai, até os 17 anos gostava de cozinhar. "Depois do seu falecimento, perdi a conexão quase completamente. Comia macarrão instantâneo, fazia um bife ou uma carne moída no máximo. Só depois que a minha primeira filha nasceu, aos 23 anos, é que voltei a me preocupar com o assunto", diz.

O segundo casamento também contribuiu para que ela resgatasse a conexão com os alimentos. "Meu marido gosta muito de comer. Logo que passamos a morar juntos, gostávamos de beber e cozinhar ouvindo música", relembra. Kátia carrega o hábito até hoje: "Perto do meu fogão sempre tem algo dançante tocando. Pode ser MPB, rock, sampa, pop... Não importa. O que eu gosto é de trabalhar feliz".

"Fui parar na cozinha depois de falir"

Antes de se envolver profissionalmente com a gastronomia, Kátia tinha uma empresa de bijuterias. "Quebrei, fiquei endividada e fui parar no Aconchego Carioca. Era o bar do meu irmão e da minha cunhada. Foi lá que comecei a cozinhar para o público. Depois da separação dos dois, entrei de sócia no negócio", conta.

Bolinho de feijoada: um divisor de águas

A criação mais famosa de Kátia é o bolinho de feijoada. A ideia surgiu de uma comida de infância. "Estava visitando os bares em um festival em Belo Horizonte e um local me chamou a atenção, pois oferecia um bolinho de feijão. Imaginei que se tratava de algo feito com arroz e feijão, como o que a minha mãe fazia quando era criança. Descobri que, na verdade, era uma espécie de acarajé. Mas decidi naquele momento que iria resgatar a receita", conta.

"De volta ao Rio, tentei fazer e não ficou bom. Mas chamei um amigo para provar: nós dois pegamos papel e caneta e tomamos algumas cervejas, brincando. Fui fazendo testes até chegar na receita final, com feijoada em vez de feijão normal. Graças à receita, participei do concurso Comida de Boteco. Não ganhei, mas foi um sucesso. Foi a grande virada da minha carreira. Comecei a entender como o carioca gosta de comer", relembra.

"Mãe de todo mundo"

Rispidez na cozinha não faz o estilo da cozinheira. "No dia a dia evito confronto direto porque sou bem estressada, perfeccionista. Já passei pela fase de tratar as pessoas de maneira grosseira, mas sinto que amadureci. No programa, tenho mais cuidado ainda. São milhões de pessoas, não gosto de fazer os participantes se sentirem expostos negativamente. Sem falar que tenho uma personalidade protetora, sou meio mãe de todo mundo. Obviamente às vezes dou uma bronca, mas entendo que o estresse é grande, o tempo é curto", ressalta.

Conselho de quem chegou lá

Considerando que o empreendedorismo na cozinha é a via pela qual muitas mulheres complementam a renda no Brasil (e algumas até conquistam a independência financeira através dele), Kátia aconselha quem está no início da carreira. "Primeiro é preciso ter determinação e estudo. Se quer fazer bolos, tem que entender tudo sobre o assunto", diz. Ela também relembra que a cozinha deve ser feita à base de tentativa e erro. "As grandes ideias surgem enquanto você está trabalhando. Pratique e faça testes sempre", recomenda.

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