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Mulher teve aborto negado mesmo sabendo de anomalia: "Pensamentos suicidas"

Grupo de mulheres da Anistia Internacional protestam por mudanças na legislação do aborto na Irlanda do Norte - Getty Images
Grupo de mulheres da Anistia Internacional protestam por mudanças na legislação do aborto na Irlanda do Norte Imagem: Getty Images

De Universa

06/10/2019 14h28

Há três anos, o casal Denise Phelan e Richard Gosnold, que mora na Irlanda do Norte, descobriu que o primeiro filho a caminho não sobreviveria. Mesmo assim, lhe foi negado o aborto. Naquele país, só é permitido o procedimento se a vida da mãe estiver em perigo ou se existe um risco permanente de danos graves para a sua saúde física e mental.

Mas essa história pode não mais se repetir no país: no próximo dia 21, deve entrar em vigor uma lei que permite o aborto, aprovada por deputados em julho último. Isso porque a Irlanda do Norte está sem Poder Executivo há dois anos, e caso ele não seja restabelecido até esta data, as novas regras votadas, incluindo o casamento entre pessoas do mesmo sexo, passarão a valer.

A medida, no entanto, tem forte oposição. Na segunda-feira passada (30), as quatro principais igrejas da Irlanda do Norte pediram que políticos tentem bloqueá-la. Na última quinta-feira (3), o tribunal de Belfast (capital) decidiu que a lei de aborto da Irlanda do Norte violava os compromissos de direitos humanos do Reino Unido. Ao "The Guardian", Phelan criticou:

"A declaração deles apenas confirma minha crença de que neste país as igrejas católica e protestante não podem concordar com nada, exceto que odeiam mulheres e querem nos controlar".

"Fiquei cinco dias com um bebê morto no meu ventre"

Em novembro de 2015, Phelan descobriu que estava grávida. Ela tinha 40 anos. No exame de imagem, quando o bebê tinha 10 semanas, o casal foi informado de que ele tinha "lindas pernas longas". No entanto, novos testes apontaram um distúrbio genético fatal, o que significava que o feto morreria no útero ou no nascimento. Ela também foi informada de que se o bebê ainda estivesse vivo ao nascer, ele sentiria dores e teria que viver sua breve vida com uso de morfina.

Com histórico de depressão e enxaqueca, Phelan descobriu que poderia abortar, mas nenhum médico estava disposto a indicá-la para realizar o procedimento em Belfast. Ela então desistiu.

Quando estava grávida de 36 semanas, Phelan sofreu uma queda enquanto passeava. No hospital, foi informada de que o bebê estava morto, mas ficou ainda cinco dias com ele no ventre. Os médicos induziram seu parto:

"Fiquei cinco dias com um bebê morto no meu ventre. O nascimento foi incrivelmente rápido quando começou. Eu estava drogada com antidepressivos e morfina, mas também estava vomitando. Eu não tive uma epidural. A dor era indescritível. Eu pensei que estava sendo morta. Foi como ser esfaqueada".

À reportagem, diz Phelan disse que chora todos os dias. "Tive depressão pós-parto e nós dois tivemos pensamentos suicidas. Nós dois sofremos de insônia. Eu tive que deixar meu emprego".

O bebê recebeu o nome de Alenja porque significa preciosa, uma tocha da vida.

Violência contra a mulher