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App LBGTQ+ é só pra sexo? Eles dizem que é possível encontrar amor também

Gui é panssexual e achou o amor no app - Arquivo pessoal
Gui é panssexual e achou o amor no app Imagem: Arquivo pessoal

Eligia Aquino Cesar

Colaboração para Universa

20/09/2019 04h00

Gui é pansexual, ou seja, sente-se atraído sexual, romântica ou emocionalmente por pessoas, independentemente da orientação sexual ou identidade de gênero destas. Ewerson deixou o Rio de Janeiro para viver ao lado do marido, Denis, em São Paulo. Já João Victor está vivenciando as alegrias de uma relação livre ao lado de Lucas, que conheceu na capital paulista, após deixar sua cidade no Vale do Paraíba, na qual pouquíssimas pessoas conhecem sua orientação sexual.

O que essas pessoas têm em comum, além de o fato de não serem heterossexuais? A resposta é simples: histórias de amor que tiveram início em aplicativos de paquera voltados para o público LGBTQ+, provando que, ao contrário do que muita gente pensa e gosta de difundir, os apps para esse tipo de público não têm apenas a intenção de conectar pessoas em busca de sexo casual, mas também de unir quem está a procura de romance.

"É possível, sim, conhecer alguém no app e construir uma vida a dois, como faço com a minha"

Ewerson da Motta Ferreira, 34, sempre teve experiências legais no Grindr. Ele vê como grande vantagem do app, o fato de ser voltado exclusivamente para gays. "Meus três últimos relacionamentos vieram de aplicativos. Eu entrei no app com a ideia de conhecer alguém legal, bater papo, fazer amizades, mas minha perspectiva era achar um cara bacana para ter um relacionamento sério".

O primeiro namoro do consultor de logística iniciado na ferramenta durou dois anos e o segundo quatro meses "Depois que os conheci, desinstalei o aplicativo, porque para mim não tinha sentido permanecer ali estando em um relacionamento sério. Além do mais, meus namoros nunca foram abertos", ressalta.

O marido, Denis Luiz Mazini, 38, com quem está há dois anos e quatro meses, Ewerson conheceu também em um app de paquera após retornar à sua cidade, Rio das Ostras, no litoral do Rio de Janeiro, após um período de cerca de um ano na capital do Estado. "Nos falamos pelo app durante um mês e por mais dois meses pelo telefone, sem contato físico algum, até que fui a Campos dos Goytacazes (RJ) conhecê-lo e a partir daí começamos a construir uma vida juntos e está sendo maravilhoso".

Ewerson e Denis: dois anos juntos - Arquivo pessoal
Ewerson e Denis: dois anos juntos
Imagem: Arquivo pessoal

O jovem repudia a ideia de que os aplicativos voltados para o público LGBTQ+ são somente para pegação e sexo. "A proposta é conhecer pessoas. Acho que existe um estereótipo muito ruim em cima de quem é gay, como se fôssemos promíscuos. A realidade é que tanto homossexuais quanto heterossexuais querem sexo casual e também relacionamento sério. Depende do objetivo de cada um e isso não depende da orientação sexual", salienta Ewerson.

"Amo o Lucas e quero que ele nunca para de me surpreender com pequenos carinhos"

João Victor Guimarães, 23, diz ter se assustado com os comentários que ouviu quando instalou o Grindr pela primeira vez. "Muitos falaram 'as pessoas usam esse app para transar'. Eu ficava pensando 'quem usa o Grindr? Gays'. Não dá para generalizar. Parece um preconceito, mas a ideia é muito mais simples: você é gay e às vezes só quer namorar. Não existe essa sexualização que a galera faz".

O relações públicas afirma que teve sorte no app, já que conheceu Lucas, 23, seu atual namorado assim que instalou o aplicativo. "Quando cheguei a São Paulo, me senti sozinho e quis conhecer pessoas novas. Baixei o aplicativo, conversei com muita gente, mas ele foi o que mais me chamou a atenção e o único com quem marquei encontro e já deu super certo", relembra.

Guimarães admite que como nunca tinha saído com alguém que conheceu em app de paquera ficou apreensivo. "Achei que ia morrer? Sim. Mas no primeiro encontro ele me levou uma rosa e eu nunca tinha ganhado uma flor, menos ainda num primeiro encontro, o que me conquistou muito".

João Victor acredita que o jeito fofo de Lucas será um diferencial quando resolver apresentá-lo à sua família e amigos, que vivem no interior de São Paulo. "O grande problema são meus amigos, todos heterossexuais, tenho medo da amizade mudar. Já minha mãe, é impossível que não saiba, só se ela quiser viver em mundo de mentiras. A questão é que agora estou longe, mal nos vemos. Quando estou lá não quero fazer algo que nos leve a brigar", pontua, compreensivo.

"Tudo pode acontecer, independentemente do canal pelo qual você conhece a pessoa"

Gui Queiros, 30, já é mais direto em relação à própria orientação sexual. O DJ que hoje se identifica como pansexual, passou por um período no qual se entendia como homossexual quando era mais jovem. Foi nessa fase que namorou três rapazes que conheceu no aplicativo de paquera Growlr, voltado ao público bear (do inglês urso) e admiradores — alusão a homens parrudos, que têm barba e pêlos no corpo.

"Foram relações breves, mas muito intensas, que duraram em médias seis meses e das quais ficou o sentimento de amizade. Ainda mantenho contato com as pessoas". Gui conta que as relações foram monogâmicas e que tiveram todas as fases de um namoro tradicional. "Foi tudo muito bonito e bacana. Hoje não sou mais uma pessoa monogâmica e nem acho que isso faça mais sentido em minha vida, mas nessa época eu acabei me relacionando dessa maneira".

Por toda vivência que teve, Gui acredita que os relacionamentos iniciados em apps de paquera gays podem dar certo, sim. "De uma conversa casual, surgiu um interesse, gostos parecidos, vontades similares, tudo foi acontecendo da forma mais natural possível, bem à moda antiga. A diferença é que conheci a pessoa no modo online em 2019 e não em um parque como seria em 1970. Não vejo motivo para algo assim não dar certo", destaca.

Para Queiros, uma das razões para que os aplicativos voltados para o público LGBTQ+ serem vistos como promíscuos é o fato de parte da sociedade ainda ser muito retrógrada. "Estamos em 2019, mas muitos têm o pensamento em 1950. Usa-se a carta da promiscuidade para inferiorizar pessoas LGBTQ+. Isso é feito há muitos anos para tentar demonizar alguns comportamentos, que, na realidade, são normais".

Gui vê como "caretice" a forma conservadora como muitos vêem o sexo nos dias de hoje. E diz que, tão natural quanto procurar amizades e relacionamento sério nos aplicativos de paquera, é, também, buscar sexo casual. "É meio absurdo! Você pode se relacionar da forma que quiser: o corpo é seu e a vontade é sua. Se está te fazendo bem e você não está prejudicando ninguém, está tudo certo", conclui o jovem.

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