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Acusado de atear fogo em ex e matar filhos é condenado a 28 anos de prisão

Bárbara Penna - Carine Wallauer
Bárbara Penna Imagem: Carine Wallauer

Luciano Nagel

Colaboração para Universa, de Porto Alegre (RS)

04/09/2019 20h16

Resumo da notícia

  • João Guatimozin Moojen Neto foi condenado a 28 anos e quatro meses de reclusão em regime fechado
  • Ele espancou e ateou fogo na ex, Barbara Penna, em 2013, e está preso desde então
  • Durante o incêndio, os dois filhos do casal, Isadora, de 2 anos, e João Henrique, de 3 meses, morreram
  • Mário Ênio Pagliarini, vizinho que tentou salvar Barbara e os filhos, também morreu
  • O julgamento levou pouco mais de 20 horas, mas ainda cabe recurso à decisão judicial

João Guatimozin Moojen Neto, de 28 anos, foi condenado na noite de hoje (4) a 28 anos e quatro meses de reclusão em regime fechado por três dos quatro crimes a que respondia. Moojen foi condenado pela tentativa de homicídio a Barbara Penna, pelas mortes dos dois filhos e inocentando pela morte do vizinho, Mário Ênio Pagliarini. A sentença foi proferida as 18h54 pelo juiz da 3ª Vara do Foro Central de Porto Alegre, Paulo Augusto Oliveira Irion. Ainda cabe recurso à decisão judicial. O julgamento levou dois dias e durou pouco mais de 20 horas. Já o processo acumulou oito volumes, totalizando mais de 2.200 páginas além de pendrives e objetos da cena do crime.

A vítima falou após a condenação do ex-companheiro. ''Foram dois dias muito intensos. Apenas me lembrei de tudo que sofri durante todos estes anos, de toda a luta que tive que enfrentar e trazer a tona a memória dos meus dois filhos, do senhor Ênio e todos afetados. Agora estou um pouco mais leve. Sei que a defesa irá ingressar com recurso, mas pelo menos a justiça em parte está sendo feita."

Barbara disse o que pretende fazer a partir de agora. ''A justiça fez a sua parte, mas nada traz meus filhos de volta. Eles foram assassinados por quem deveria cuidar deles. A partir de agora vou tentar pensar em mim, pois venho há anos vivendo diariamente tudo o que aconteceu comigo. Eu ainda não sei o que gosto de fazer, nem me conheço ainda. Agora vou tentar recuperar de verdade a minha vida''.

Acusado pediu perdão

O acusado foi o último a prestar depoimento após os relatos das seis testemunhas de defesa ontem (3). Antes de começar a falar, por volta das 20h30, um vídeo de 17 minutos foi apresentado em um telão. Nas imagens, Moojen está no hospital e é interrogado pelo delegado. Na primeira versão ele nega que tenha ateado fogo, depois volta atrás e admite que jogou fogo na vítima e a empurrou pela janela do apartamento.

Em sua versão aos jurados, ainda muito nervoso, ele pediu perdão à Bárbara e aos familiares. "Não tenho nenhum tipo de raiva em relação a ela. Na real, nunca esqueci'', disse. Durante o depoimento, quase sempre de cabeça baixa, contou que a discussão com Barbara começou porque ele queria comprar drogas. Em frente ao júri, Moojen admitiu que ateou fogo na vítima e num travesseiro, mas negou que atirou Barbara da janela do terceiro andar do edifício. Após a declaração, ficou em silêncio e a sessão do primeiro dia foi encerrada pelo juiz.

O que alegou a defesa

A defensora pública Tatiana Boeira, que representa o réu, explicou que tentou demonstrar aos sete jurados que não somente Moojen foi culpado pelos fatos ocorridos naquela trágica noite de 7 de novembro de 2013. "Quanto à estratégia de defesa demonstrei para os jurados que esta situação é muito triste e vitimou toda uma família. Mostramos que João tem um diagnóstico de transtorno de personalidade, é usuário de entorpecentes, e não tinha total capacidade de controle sobre as ações. O réu é doente, é incapacitado'', argumentou a advogada durante a sessão do júri na tarde de hoje.

''No momento em que os fatos ocorreram ele estava sob efeito de drogas. Ele tem responsabilidade sobre algumas coisas, e eu penso que outras pessoas têm responsabilidade por aquilo que aconteceu, porque tiveram mais alternativas de optar, tiveram livre-arbítrio para decidir estar lá ou não estar... e estavam lá", finalizou.

Na manhã de hoje, os debates entre acusação e defesa foram acalorados. Primeiro falou o promotor de justiça José Eduardo Corsini por uma hora e meia em frente aos sete jurados. Em seguida foi a vez da defensora do réu, Tatiana Boeira, apresentar seus argumentos.

''Os jurados reconheceram que o acusado era parcialmente incapaz, ou seja, não tinha plena capacidade de entendimento do que estava fazendo. Eles entenderam que a situação de Barbara merecia uma pena mais grave e desacolheram todos os laudos. Com relação às crianças, entenderam que o réu não tinha intenção de matá-las. Sobre o vizinho de 79 anos, acataram a tese de que a morte se deu por causa do incêndio e pela circunstância que foi causada por João, mas também pela própria atitude dele em voltar para socorrer as vítimas. Estudamos ainda com a família ingressar com recurso'', disse Tatiana, após a condenação.

O crime

Moojen estava preventivamente detido na Penitenciária Estadual de Charqueadas desde novembro de 2013, quando espancou e ateou fogo em sua ex-companheira, Barbara Penna, na época com 19 anos, em seu apartamento situado no bairro Jardim Lindoia, zona norte da capital gaúcha. Durante o crime, os dois filhos, Isadora, de 2 anos, e João Henrique, de 3 meses, morreram asfixiados devido ao incêndio causado dentro da residência. Na tentativa de salvar a família, um vizinho do prédio, de 79 anos, morreu em consequência da forte fumaça inalada.

Violência contra a mulher