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Mães e filhos


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Casal gay tem gêmeos e pai ganha 6 meses de licença-paternidade

Cláudio e Fernando com os gêmeos Gabriel e Lucas, de nove meses - Bruna Prado/UOL
Cláudio e Fernando com os gêmeos Gabriel e Lucas, de nove meses Imagem: Bruna Prado/UOL

Talyta Vespa

De Universa

22/08/2019 04h00

Desde que comprou Brownie, cachorrinha da raça buldogue, a vontade de ter um bebê virou pensamento diário na cabeça do gerente de marketing Fernando, de 35 anos. Ele é casado há cinco anos com Cláudio, a quem foi apresentado durante uma festa por um grupo de amigos. "Adotamos a Brownie achando que cuidar de um cachorro amenizaria nossa vontade de sermos pais. Mas foi o oposto", conta.

Nessa entrevista, Fernando relembra a decisão de contratar o serviço de gestação por substituição --popularmente conhecido como 'barriga de aluguel'--, as angústias durante os oito meses de gravidez, a loucura do parto e as noites em claro cuidando dos gêmeos Lucas e Gabriel. Fernando trabalha em uma multinacional e ganhou, da empresa, licença-paternidade de 180 dias.

"Quando decidimos que teríamos um filho, Cláudio e eu começamos a pesquisar as opções que tínhamos. Poderíamos adotar uma criança, mas o processo no Brasil é muito demorado e incerto. Foi aí que entramos em contato com uma empresa que nos explicou detalhes da gestação por substituição, que ocorreria nos Estados Unidos. Gostamos da ideia", ele explica.

Bruna Prado/UOL
Imagem: Bruna Prado/UOL

Fernando prefere não revelar quanto pagou pelo procedimento, que durou um ano e deu a ele dois bebês que hoje têm nove meses. Depois da primeira conversa com um representante da empresa, o gerente de marketing demorou três anos para decidir se faria ou não o procedimento. A empresa terceiriza todo o serviço a uma companhia nos Estados Unidos, que contrata uma mulher para gestar a criança e cuida de todo o procedimento de fertilização in vitro.

Além da mulher que vai engravidar, a empresa busca, ainda, uma doadora de óvulos. "Isso porque, para a Justiça americana, se os óvulos utilizados forem os da mulher que vai engravidar, ela pode pedir reconhecimento de maternidade. Na certidão dos meus filhos, estão meu nome e o do Cláudio. Nós somos os pais e não conhecemos a doadora do óvulo", explica.

Segundo Fernando, desde a contratação do serviço até o nascimento dos gêmeos, demorou um ano e meio. "A gente se deu muito bem com a mulher que deu à luz nossos filhos. Apesar de jovem, ela estava muito certa do que queria: já tinha um filho, gostou do período da gravidez e só não tinha mais bebês porque não tinha dinheiro. A cada consulta, no pré-natal, ela conversava com a gente, mandava notícias", diz.

"Nós não esperávamos gêmeos. Colocamos dois embriões no útero para aumentar as chances de sucesso. É raro acontecer de os dois fecundarem, e tivemos essa sorte. Quando descobrimos que teríamos gêmeos, foi uma alegria tamanha", diz.

Mas o período foi, ao mesmo tempo, angustiante para Fernando. "Primeiro, a gente fez a transferência dos embriões, e, depois disso, precisamos esperar para saber se tinha dado certo. Em seguida, teve o exame de sangue que mostraria se a gravidez tinha vingado. Então, mais oito semanas para sabermos se os bebês apresentavam batimento cardíaco. Eram várias angústias que foram se tornando pequenas comemorações", explica.

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Imagem: Bruna Prado/UOL

Fernando recebeu da empresa em que trabalha uma licença-paternidade de 180 dias. "A melhor coisa foi não precisar negociar. Sugeri, em uma reunião, que houvesse uma licença maior para casais homossexuais. E meus gerentes tinham uma surpresa para mim: revelaram, naquela reunião, que eu poderia ficar seis meses cuidando dos meus filhos. Foi uma alegria imensa. Na empresa, a licença-paternidade já é estendida: pais podem ficar 40 dias em casa, e eu já estava feliz porque emendaria o período com as minhas férias. Ficar em casa por seis meses, então, foi um sonho".

Fernando voltou a trabalhar há três meses e conta que a quebra na rotina diária com os filhos deu um apertozinho no coração. "Fiquei com medo de eles esquecerem de mim, mas isso não aconteceu. Quando chego em casa, não preciso nem fazer nada, eles me recebem com um sorriso enorme. Isso não tem preço".

Tanto o gerente de marketing como Cláudio tinham se programado para viajar para os Estados Unidos na 36ª semana de gravidez (o que equivale ao oitavo mês) da moça que deu à luz seus filhos. Contudo, ela começou a ter dilatação na 32ª semana.

"Na 34ª semana, ela me ligou dizendo que estava há duas semanas em repouso absoluto, segurando as contrações. Ela disse que não queria que as crianças nascessem antes de nós chegarmos. Ela mora em Richmond, na Virgínia. Corri para lá. Pedi que, no trabalho, adiantassem minha saída e peguei o primeiro voo para a cidade americana".

Cláudio, no entanto, não pôde acompanhar o marido. Ele é cirurgião-dentista e tinha dois procedimentos cirúrgicos marcados para aquela semana. Fernando foi sozinho.

"Na 35ª semana, ela entrou em trabalho de parto. Liguei para Cláudio e pedi que ele fosse correndo para lá. Só que o hospital era em Richmond. Ele demoraria, no mínimo, 30 horas para chegar. Parece coisa de louco, mas a moça teve um trabalho de parto de 30 horas. Ela deu à luz 40 minutos depois da chegada de Cláudio. Ele estava comigo quando nossos filhos nasceram. Quando olhei para ele, só conseguia chorar".

Cláudio e Fernando enviam, com frequência, fotos dos pequenos à mulher que os gestou. "Ela virou uma amiga. Se esforçou ao máximo para esperar o Cláudio chegar e isso fez toda a diferença. Ela disse que quer vir para o Brasil visitá-los e ficaremos felizes em recebê-la".

Bruna Prado/UOL
Imagem: Bruna Prado/UOL

Pais de gêmeos

Fernando conta que ter gêmeos é demais, mas que é também difícil. "Tenho uma amiga que é mãe de gêmeos. Ela vivia dizendo que seria fácil cuidar de dois se nós os colocássemos na mesma rotina: mamar na mesma hora, dormir na mesma hora, tomar banho etc. Pensei: 'Tudo certo, isso é moleza'. Imagine. É a coisa mais difícil do mundo", ri.

Fernando continua: "Eles têm temperamentos muito diferentes. Enquanto um é chorão, o outro é dorminhoco. Um não mamava direito, o outro mamava bastante. As primeiras noites foram em claro porque se um deles chorasse enquanto o outro dormia, o outro acordava e caía no choro também. Era impossível".

E, agora, ambos estão engatinhando: "Não consigo ficar sozinho com eles. Um começa a engatinhar e corre para cima da cortina aí eu vou atrás com medo de a cortina cair em cima dele. Nisso, o outro já está indo em direção à tomada. É muito trabalhoso, mas é incrível. Foi a melhor coisa que poderia nos ter acontecido".

Fernando conta com a ajuda da mãe de Cláudio, que é obstetra e acompanhou, de longe, todo o pré-natal dos netos. "Quando contamos, nossa família disse: 'Grávidos, como assim?'. Depois é só alegria. Eles paparicam muito os meninos e estamos muito felizes".