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Minha história


"Decidi emprestar minha barriga e gerar um bebê para um casal gay"

Bruna Ananda deu à luz Aurora na presença de seus papais - Arquivo Pessoal
Bruna Ananda deu à luz Aurora na presença de seus papais Imagem: Arquivo Pessoal

Simone Cunha

Colaboração para Universa

10/01/2019 04h00

A confeiteira Bruna Ananda Braga Cordeiro, 27 anos, tem dois filhos: Ariel, de 11 anos, e Lara, de 4. Ela aceitou emprestar a barriga a um casal homoafetivo. Teve que se preparar com sessões de psicoterapia e realizar diversos exames para, finalmente, submeter-se à fertilização. A gestação teve algumas complicações, mas, com 38 semanas, Aurora nasceu. Na maternidade, ela já entregou a bebê aos cuidados dos pais. Desse gesto, nasceu uma bela amizade.

"Como seria minha vida se não pudesse ter meus filhos? Foi esse o questionamento que me fez avaliar a possibilidade de ser barriga solidária. Um primo do meu marido comentou que um casal homoafetivo, amigo dele, procurava uma mulher para ter o bebê. Nessa conversa, ele me perguntou se eu teria coragem de ajudar. Na hora, disse que não. Não sabia como poderia lidar com a situação. Mas, aos poucos, a ideia foi mexendo comigo. Eu não era amiga do casal, mas o desejo deles me sensibilizou muito. 

Falei com o meu marido sobre a possibilidade de ajudá-los e ele reagiu muito bem. Então, mandei recado ao casal, dizendo que gostaria de conversar pessoalmente para tomar uma decisão efetiva. Nos encontramos e a conversa parecia uma entrevista, eu perguntava muito sobre eles e eles sobre mim e a minha família.

Questionei se estariam dispostos a amar o bebê, independentemente do que pudesse acontecer: se nascesse com alguma deficiência, tivesse microcefalia ou qualquer coisa do tipo. E eles me garantiram que amariam e cuidariam do bebê como um presente de Deus, quaisquer que fossem as condições apresentadas. Essa conversa me deu segurança, percebi que desejavam mesmo ter um filho, pois havia muito amor envolvido.

Tomei minha decisão e iniciamos os preparativos, que envolviam muitos exames, pesquisa de clínicas, autorização do Conselho de Medicina para a realização do procedimento etc. Também pedi um acompanhamento psicológico, que foi essencial para ajudar no processo.

Um pouco antes da fertilização, comecei a sentir certa insegurança e conversei com meu marido. Ele achou que seria melhor eu desistir, pois isso poderia se transformar em um trauma. Mas a terapia sempre me ajudou a entender qual era o meu lugar nessa história. Quando chegou a autorização do Conselho de Medicina, a doadora já havia sido escolhida, assim como a clínica e o médico que faria a fertilização. Nesse período, começou minha batalha com diversos tipos de hormônios. Quando meu útero ficou pronto para receber os embriões, fomos para São Paulo.

A fertilização foi rápida e indolor. Voltei ao hotel e fiquei 24 horas em repouso. O médico disse que os sintomas da gestação apareceriam rápido. Em três dias, percebi meus seios inchados. Os pais demonstravam receio, achando que poderia não ter vingado, mas eu já sabia que estava grávida.

Depois da fertilização, Bruna já sabia que estava grávida - Arquivo Pessoal
Depois da fertilização, Bruna já sabia que estava grávida
Imagem: Arquivo Pessoal

Um mês depois, fiz o primeiro ultrassom e descobrimos que apenas um embrião estava perfeito, o outro era uma bolsa de sangue e era preciso cuidado para que o meu organismo não o expelisse de forma natural, pois poderia afetar o bebê. No segundo mês, o exame mostrou que o meu corpo havia reagido bem e que não havia mais risco. Nessa fase, o embrião passou a ser a Aurora e iniciaram os piores enjoos da minha vida.

Com quatro meses, o mal-estar cessou e começaram a aparecer dores no quadril, nas costas e nas pernas. Fiz uma ressonância magnética e descobri que estava com uma disfunção da sínfase pública, provocada pelo excesso de hormônios. Passei a andar de muletas devido às dores, que eram insuportáveis, até o quadro ser controlado.
Os meses foram passando, a barriga foi crescendo e eu decidi não comentar o assunto nem com os mais íntimos.

Não queria que minha família soubesse, porque eles são muito religiosos e temia que não aceitassem. Não me sentia em condições de ser criticada e de ouvir opiniões do tipo: 'Quando nascer você não vai conseguir entregar', 'Você vai para o inferno por dar a criança' ou 'Essa criança vai aprender a ser gay com os pais'. Por sorte, ouvi alguns comentários positivos, elogiando a minha decisão, de que acompanhou de perto o processo. 

Os pais da Aurora acompanharam toda a gestação, me visitavam e acompanhavam os exames. Também enviavam mensagens diariamente. Após longas 38 semanas, na madrugada do dia 11 de outubro de 2018, eu tive um sangramento. Fui para o hospital, meu marido e os pais estavam comigo o tempo todo, e se revezavam para segurar a minha mão durante as contrações. Às 10 horas, Aurora nasceu. Em seguida, já nos separamos, eu fui para um quarto e ela, para outro. Foi a maior dor da minha vida. Mas, de longe, podia observar os dois cuidando dela e isso me encantou, me deixou mais tranquila. 

Os primeiros dias em casa foram ainda mais difíceis, pois ficou um vazio. As lágrimas caíam ao alisar a barriga seca. Mas eu sabia que essa dor iria passar. Eu sempre soube que não seria fácil e, aos poucos, fui me reequilibrando. Quando me senti mais forte, decidi postar em uma rede social o que havia acontecido. Em três dias, o post teve 84 mil curtidas, 14 mil comentários e 18 mil compartilhamentos. Ao me ocupar com isso, o vazio foi passando. Mas o mais importante é que, hoje, a Aurora já está com três meses e eu tenho muito orgulho de contar essa história. Continuamos em contato e me sinto uma tia muito próxima, que a ama muito".