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Engravidei com inseminação artificial caseira, diz mulher de casal lésbico

Arte UOL
Imagem: Arte UOL

Daniele Schmidt

Em depoimento a Camila Brandalise

25/07/2018 04h01

A supervisora de recursos humanos Daniele Schmidt, de 35 anos, e sua mulher, a auxiliar de logística Juliana Schmidt, também de 35 anos, recorreram à inseminação artificial caseira para ter um filho. O sêmen foi doado pelo namorado de um amigo e injetado por Juliana, com uma seringa comprada na farmácia, no corpo da companheira. O procedimento foi feito no quarto da casa delas. Com três tentativas em uma semana, Daniele engravidou. Hoje, as duas são mães de Ana Júlia, de dois meses. Daniele conta sua história à Universa:

“Quando minha esposa e eu decidimos ter um filho, procuramos uma clínica de reprodução assistida. Mas o valor era muito alto, cerca de R$ 12 mil, e não tínhamos esse dinheiro. Então, desistimos.

Um dia, chegando no trabalho, ouvi duas colegas comentando sobre inseminação artificial em casa. Me interessei e perguntei como funcionava. Uma delas tentava a técnica havia quatro anos e me indicou grupos de mulheres no Facebook que tinham conseguiram engravidar dessa maneira. Fui pesquisar.

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Na época, decidimos que minha esposa era quem tentaria engravidar, pois ela não tinha filhos, e eu tenho dois adolescentes, uma de 17 e um de 15, frutos de um casamento anterior. Mas não havia quem doasse o sêmen.

Fazíamos faculdade juntas e falamos do nosso desejo aos colegas da sala. Um deles, casado, se ofereceu para doar. O único pedido foi que a mulher dele não soubesse. Minha esposa engravidou dele, mas perdeu com 30 dias. Passamos um ano tentando, ainda com ajuda desse amigo. Até que ela falou que queria parar, porque estava frustrada.

Discutimos por causa disso. Queria que ela continuasse tentando porque o tempo passava e também porque eu queria ter outro filho. Foi quando decidimos que eu então tentaria engravidar.

Não acreditava que ia dar certo. Conhecia mulheres que tentavam muito e sem sucesso; e também tinha a minha esposa, que não havia conseguido. Porém, depois de três tentativas em uma semana, engravidei.

Daniele (esq.) com a mulher, Juliana, e a filha, Ana Júlia - Arquivo pessoal
Daniele (esq.) com a mulher, Juliana, e a filha, Ana Júlia
Imagem: Arquivo pessoal

O doador foi o namorado de um amigo nosso. Um dia, eles foram nos visitar em casa e falamos dessa ideia. Minha mulher perguntou se ele toparia doar o sêmen e, no outro dia, ele me escreveu, dizendo que aceitava.

Combinamos que ele iria em casa três vezes, numa mesma semana, a que eu estava fértil. Não teve nenhum contrato formal - apesar do conselho de um advogado de que deveríamos fazer um documento -, combinamos tudo apenas em uma conversa. 

Quando nosso amigo chegou em casa, eu já tinha o que precisava: um copo esterilizado, como os usados em exame de urina, e uma seringa de 10 ml. Tudo custou R$ 5.

No primeiro dia, ele foi para o banheiro com o celular, para ver vídeos eróticos. Ejaculou no copo e, logo que saiu do banheiro, entregou o recipiente com sêmen para a minha esposa. Eu estava deitada na nossa cama, com os pés para cima e encostados na parede. Havia um travesseiro embaixo do meu quadril, para que ele ficasse mais elevado. Eu estava um pouco nervosa, e a Juliana me abraçou, fez um carinho para me acalmar. 

Com a seringa, a Juliana injetou o sêmen em mim. Nesse momento, estávamos só nós duas no quarto. Fiquei ainda meia hora nessa posição. Nas outras duas vezes seguintes, esperei só uns cinco minutos, porque tinha compromisso.

Uma semana depois, fiz o exame de farmácia e deu negativo. Estava há um mês em um trabalho novo, depois de um período desempregada, e queria muito focar na carreira. A verdade é que tinha feito o procedimento mais pela minha esposa. 

Duas semanas depois, fiz outro exame. E daí, deu positivo. Fiquei assustada. Nesse dia, a Juliana pediu que eu levasse um maço de cigarro quando fosse buscá-la no trabalho. Coloquei o exame dentro do maço. Quando ela abriu e viu, foi muito emocionante. Nós estávamos no carro, e choramos e nos abraçamos muito. 

No começo da gestação, me arrependi. Bateu um misto de felicidade e de medo. Eu tinha o sonho de ser mãe de novo, mas, com dois adolescentes dependendo de mim, e já com 35 anos, fiquei com muitas dúvidas. Só no terceiro mês, quando a Ana Júlia começou a se mexer, foi que esse sentimento passou. Hoje, vejo que me senti assim porque foi tudo muito rápido.

No hospital, a Juliana foi tratada como mãe também. Mas no cartório, tivemos problemas. Não queriam registrar nossa filha no nome das duas, e fiz o registro só no meu. Procurei então um advogado, e ele me orientou a levar até o cartório uma cópia do provimento do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) que autoriza o registro de crianças em casos de união homoafetiva. Um mês depois, conseguimos a carteira de identidade da nossa filha, com nossos dois nomes constando como filiação.

Hoje em dia, não temos mais contato com o doador. Frequentamos o mesmo centro de umbanda e, quando nos encontramos, nos cumprimentamos como se nada tivesse acontecido. Ele não namora mais o nosso amigo e, desde o início, falou que não gostava de criança. Nos garantiu que seria apenas uma doação.

A Ana Júlia mudou muito minha vida. A relação com a minha esposa e meus filhos era cheia de conflitos; eles diziam que ela não era nada deles, e isso afetava nosso casamento. Meu filho mais novo falava ainda que a Ana Júlia não seria irmã dele. No entanto, hoje, ele é muito amoroso. A maternidade, nesse momento da vida, me tornou uma pessoa mais calma. Hoje, não me arrependo de nada.”

Giana De Marco, advogada especializada em direito homoafetivo sugere a casais que escolham esse procedimento que façam um documento formal, em que o doador ateste que não reclamará a paternidade da criança no futuro. 

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