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"Sharenting": por que a exposição dos filhos na internet não é necessariamente algo ruim

Segundo pesquisa britânica, antes de completar cinco anos crianças têm, em média, mil fotos delas próprias postadas na internet - Getty Images via BBC
Segundo pesquisa britânica, antes de completar cinco anos crianças têm, em média, mil fotos delas próprias postadas na internet Imagem: Getty Images via BBC

Paula Adamo Idoeta

Da BBC News Brasil em São Paulo

13/01/2020 13h15

Ao começar a pesquisar sobre "sharenting", alguns anos atrás, a acadêmica americana Stacey Steinberg achou que concluiria seus trabalhos convencida a nunca mais compartilhar nada sobre seus três filhos na internet.

Não foi o que aconteceu.

Prestes a lançar seu livro sobre o tema, Steinberg diz que ainda tem "mais perguntas do que respostas" sobre o hábito tão atual dos pais de publicar fotos, vídeos e relatos sobre a vida dos filhos online — sharenting é uma combinação, em inglês, das palavras share (compartilhar) e parenting (parentalidade).

"Não sei se já encontrei esse equilíbrio (entre o que compartilhar ou não), acho que ainda não. O que posso dizer é que me esforço tanto em servir de modelo para um uso apropriado de redes sociais quanto me esforço em outras decisões, como se devo permitir que meus filhos brinquem sozinhos na rua, em qual escola vou matriculá-los. É mais uma peça do quebra-cabeça da parentalidade", conta ela à BBC News Brasil.

É que as crianças atuais compõem "a geração mais observada em toda a história", nas palavras de Benjamin Schmueli e Ayelet Blecher-Prigat, num dos mais importantes artigos acadêmicos sobre privacidade infantil.

Uma pesquisa feita em 2017 com 2 mil pais de crianças pequenas britânicas apontou que estes publicavam online, por ano, 195 fotos de seus filhos.

Antes de completar cinco anos, essas crianças têm, em média, mil fotos delas próprias postadas na internet.

Stacey Steinberg, que é professora de Direito da Universidade da Flórida, tornou-se referência nos EUA e no Reino Unido ao escrever artigos acadêmicos e um livro (Growing Up Shared, ou "Crescendo compartilhado", em tradução livre, a ser lançado em agosto) sobre sharenting.

Ela argumenta que, ao mesmo tempo em que o compartilhamento exagerado — e, sobretudo, impensado — serve de mau exemplo para as crianças e ameaça seu bem-estar, o ato de compartilhar em si é benéfico ao aumentar nossa conexão comunitária, troca de experiências e convivência social.

"Existe um grande poder na prática de compartilhar nossas vidas com nossas comunidades."

Getty Images via BBC
Imagem: Getty Images via BBC

O essencial, defende ela, é refletir antes de publicar e incluir as crianças no processo decisório sobre o que vai ser postado sobre elas online, de forma a educá-las sobre privacidade, consentimento e como se portar nas redes sociais.

"É irônico que tanto de nossa energia seja gasta em como nossos filhos usam as redes sociais e quanto tempo eles passam na internet, e raramente focamos em nosso próprio comportamento", diz.

"E sharenting é uma das formas como podemos servir de modelo (às crianças) para o uso das redes sociais. Fazemos bem em pensar sobre o tempo de tela das crianças — certamente é preciso estabelecer limites —, mas também faríamos bem em olhar para nós mesmos, sobre como nos portamos online e o que compartilhamos."

"As decisões não serão as mesmas para todas as famílias, (mas) devemos pensar muito a respeito e tomar decisões bem informadas que se encaixem em nossos valores. (...) As famílias se beneficiam muito em compartilhar suas vidas online — recebem apoio dos demais e aprendem — e certamente não quero silenciar as vozes dos pais. Mas existe um conflito intrínseco no que diz respeito às crianças: somos tanto os guardiões que mantêm as informações sobre nossos filhos protegidas e privadas, como os que decidem o que tornamos público e quando."

Crianças com poder de veto

Com isso em mente, Steinberg passou a dar voz aos próprios filhos antes de compartilhar algo sobre eles.

"A conversa é diferente com meu filho adolescente e com minha filha que ainda está na primeira série. Mas mesmo ela já tem noção de si mesma, de momentos em que sente vergonha, e tem opinião sobre o que a faz sentir bem ou não", conta.

"Se tiro uma foto dela, pergunto o que ela acha de eu compartilhar. E começo com pouco: 'posso mandar essa foto para a vovó?'. E a partir da reação dela avanço na conversa. Vejo isso como uma forma de ensinar para ela que ela tem o direito sobre a própria imagem, sobre seu corpo. Ela pode decidir como e quando vou compartilhar informações sobre ela", prossegue.

"Meu filho do meio participa de competições de ginástica, e (pergunto) antes de compartilhar vídeos e mostro a ele os comentários que recebo, de forma que ele se sinta confortável com o que está sendo dito sobre ele online."

'Mas qual é o problema em compartilhar?'

"Tenho orgulho de você e quero compartilhar isso. Não entendo qual é o problema", dizia uma mãe à filha adolescente em uma reportagem sobre o tema do New York Times em agosto de 2019. A filha, de 16 anos, reclamava que a mãe "compartilha minha vida inteira" online.

Discussões semelhantes entre mães e filhos foram apresentadas em uma reportagem do programa Fantástico, da Rede Globo, sobre o tema, em abril do ano passado.

"Fico à mercê de uma situação que eu não estou controlando, que não sou eu que estou querendo expor", dizia uma das jovens brasileiras entrevistadas, queixando-se que a mãe postava cada detalhe e etapa das viagens de férias familiares.

Talvez o diálogo mais famoso sobre o sharenting até agora tenha se dado entre a atriz americana Gwyneth Paltrow e sua filha Apple Martin, também em 2019.

"Mãe, já discutimos isso. Você não pode postar nada sem o meu consentimento", comentou Apple em uma foto de mãe e filha em uma montanha, publicada por Paltrow em sua conta no Instagram.

"Mas não dá nem para ver o seu rosto!", respondeu a atriz.

Para a pesquisadora Steinberg, muitas vezes existe uma desconexão entre o que pais e filhos consideram aceitável de se publicar, embora isso seja fluido e esteja em mutação à medida que as pessoas aprendem mais sobre as redes sociais.

"Lembro que, aos meus 11, 12 ou 13 anos, quando eu ia às compras com a minha mãe e ela falava que determinada roupa ficava bem em mim, eu corria para comprar uma roupa de que ela não gostasse. A minha ideia do que ficava bem em mim era diferente da dela", diz Steinberg.

"É isso que precisamos entender: nossa visão do que pode agradar nossos filhos é diferente da visão deles. Sendo conscientes disso, também seremos conscientes dos demais riscos de compartilhar informações online e estaremos no caminho certo."

Outra pergunta a se fazer é: se publicassem isto sobre mim, será que eu iria gostar?

Essa vale em particular para pais que publicam fotos e vídeos dos filhos tendo ataques de birra, chorando ou se "portando mal". Esses vídeos podem ser engraçados ou bem intencionados, mas, arquivados eternamente na internet, podem no futuro virar motivo de vergonha para as crianças.

Getty Images via BBC
Imagem: Getty Images via BBC

"Devemos pensar em como eles se sentirão quando abrirem nosso feed de redes sociais e virem o que foi postado sobre eles 10, 15 anos antes. E quando compartilhamos coisas que podem ser embaraçosas para eles, devemos pensar como nos sentiríamos se compartilhassem coisas do tipo sobre nós mesmos", diz a acadêmica.

Em entrevistas com mil jovens do Reino Unido de 12 a 16 anos, uma pesquisa identificou que 40% deles disseram que seus pais já haviam compartilhados fotos embaraçosas deles.

Perigos das redes: de roubo de identidade a pedofilia

Existem, ainda, riscos maiores do excesso de compartilhamentos, pelo mau uso dos dados pessoais por terceiros.

O primeiro desses riscos é o de roubo de identidade, a partir de fotos e informações pessoais obtidas online. Crianças são vistas como alvo em potencial para esse tipo de roubo porque, como passam anos da infância sem precisar de determinados documentos, de pedidos de conta bancária ou crédito financeiro, elas podem ter suas informações usadas ilegalmente por muito tempo sem que isso seja detectado.

Um relatório de 2018 do banco britânico Barclays estima que "mais uma década de pais que compartilham excesso de informações pessoais online" produzirá 7,4 milhões de incidentes de fraude de identidade até 2030.

"Pelas redes sociais, nunca foi tão fácil para fraudadores obter informações-chave (nome, idade, local de nascimento, nomes dos pais etc.) necessárias para roubar a identidade de alguém", disse, na época, Jodie Gilbert, chefe de segurança digital do banco, pedindo que os pais fossem mais cautelosos com as configurações de privacidade de suas redes sociais e com o que é postado sobre seus filhos.

O outro grande perigo é a pedofilia: de que fotos nuas ou de poucas roupas de crianças acabem circulando em redes frequentadas por pedófilos.

Segundo uma pesquisa feita em 2017 na América Latina, quase 40% dos brasileiros entrevistados admitiam ter postado online fotos dos filhos em roupas íntimas, fraldas ou tomando banho.

"Antigamente, fotos espontâneas de crianças eram tiradas desajeitadamente, mas os pais preservavam e as compartilhavam em álbuns de fotos dentro de suas casas. Como profissional de cibersegurança, que passa muito tempo em redes sociais, fico impressionado com o que os usuários compartilham online e como estamos expondo nossos filhos a viverem um tormento no futuro", afirmou, na época, em comunicado, Dmitry Bestuzhev, da Kaspersky Lab, empresa responsável pela pesquisa.

Para Stacey Steinberg, esses perigos de fato são reais, mas tampouco devem ser superestimados. O mais importante, opina, ainda é pensar no bem-estar das crianças online — garantindo que elas tenham controle do que é postado sobre elas e modelando um bom comportamento nas redes sociais.

As precauções básicas

Para pais que queiram ser mais cuidadosos com o que compartilham dos filhos, ela dá sete recomendações:

1 - Conhecer as políticas de privacidade de sites e redes, para poder escolher com qual público você quer compartilhar (em geral ou só amigos, por exemplo) e, em alguns casos, conseguir esconder o conteúdo dos algoritmos de busca do Google;

2 - Registrar-se para receber notificações (por exemplo, do Google) sobre o que é publicado;

3 - Pensar quando é o caso de postar anonimamente. Por exemplo, se a ideia é compartilhar uma história sobre uma condição médica do seu filho que possa, futuramente, causar algum desconforto a ele, Steinberg sugere buscar fóruns em que os pais possam encontrar ajuda e apoio, mas de modo anônimo;

4 - Não compartilhar a localização física da sua família em fotos;

5 - Dar às crianças maiores o poder de vetar o que elas não quiserem que você publique sobre elas, tanto por respeito a elas como para ensinar-lhes a importância do consentimento e de bons modos nas redes sociais;

6 - Não publicar imagens de crianças nuas ou seminuas;

7 - Sempre pensar no bem-estar futuro das crianças e como elas se sentirão, mais tarde, ao verem aquela publicação.

"Ainda não sei se vou mudar de ideia ao longo do tempo sobre o que compartilho", conta Steinberg à BBC News Brasil.

"O que posso dizer é que certamente penso muito mais a respeito disso do que pensava cinco anos atrás. Somos a primeira geração a ter filhos nascidos já com as redes sociais, então ainda estamos aprendendo. Não existe um manual. Minha intenção é deixar os pais bem informados, mas sem julgá-los. Nos beneficiamos de compartilhar e vamos continuar a fazê-lo; precisamos é descobrir formas de usar isso a nosso favor."

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