PUBLICIDADE

Topo

Nina Lemos

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Tabata Amaral é vítima de machismo que atinge todas as mulheres na política

O ator Zé de Abreu retuitou ameaças contra a deputada Tabata Amaral. - Reprodução
O ator Zé de Abreu retuitou ameaças contra a deputada Tabata Amaral. Imagem: Reprodução
Conteúdo exclusivo para assinantes
Nina Lemos

Nina Lemos é jornalista e escritora e mora em Berlim. É feminista das antigas e uma das criadoras do 02 Neurônio, que lançou cinco livros e teve um site no UOL no começo de 2000. Foi colunista da Folha de S. Paulo, repórter especial da revista Tpm e blogueira do Estadão e do Yahoo. Escreveu também o romance "A Ditadura da Moda".

Colunista de Universa

21/09/2021 04h00

O Brasil tem 513 deputados federais. Dentre esses, só 15% são mulheres. Se falarmos de prefeituras, as mulheres estão à frente de 12%. E as coisas estão melhorando. Esses números podem até ser considerados "bons". Isso porque as últimas eleições foram das que mais elegeram mulheres.

Ser mulher e fazer política no Brasil é um inferno. A vítima do momento é Tabata Amaral, a deputada mais jovem do Brasil, comumente tratada como uma "menina boba", uma tolinha, uma frágil. No último final de semana, o machismo contra ela foi mais longe. "Se eu encontrasse a Tabata Amaral na rua, eu dava socos", disse um desconhecido no Twitter. A ameaça foi retuitada pelo ator Zé de Abreu, que tem mais de 500 mil seguidores.

Em toda a história do Brasil, tivemos apenas uma presidente mulher. E ela sofreu um impeachment muito mal explicado (ou um golpe, como muitos, eu inclusa, preferimos chamar). Antes disso, foi chamada de vaca, vagabunda, xingada por todo um estádio de futebol na abertura da Copa de 2014.

Não é preciso concordar politicamente com Tabata para repudiar que uma mulher na política seja ameaçada com socos. É trágico o quanto homens (e mulheres também, muitos dos que xingaram Dilma Rousseff, por exemplo, eram mulheres) usam palavras chulas, ameaças e outras expressões de ódio quando a pessoa de quem se discorda na política é mulher.

O preconceito e o machismo atinge mulheres de todos os espectros políticos. A deputada Joice Hasselmann é chamada de Peppa Pig por ex aliados bolsonaristas, Manuela D'Ávila é ameaçada e sobra até para sua filha, Laura, de 5 anos, Gleisi Hoffmann, presidente do PT, é chamada de "pau mandado de Lula" e por aí vai.

Todas essas ameaças e ataques são injustificáveis e são machistas sim. Por que os homens não recebem o mesmo tratamento?

E claro, falar em "socar" uma mulher é seríssimo porque mulheres são vítimas de violência física em proporções inaceitáveis. Segundo pesquisa do Datafolha, cerca de 17 milhões de mulheres sofreram violência física, psicológica ou sexual no Brasil em 2020.

Partido do namorado?

O machismo também se manifesta de maneiras mais sutis. Semana passada, o articulista e professor Thiago Amparo atentou para o fato do seguinte título ter sido publicado aqui no UOL: "Deputada Tabata Amaral anuncia filiação ao PSB, mesmo partido do namorado". "Não sei por que isto seria notícia, como se ela fosse um acessório dele. Alguém aí tem um exemplo de uma matéria onde um político homem é tratado assim?"

Tabata, para quem não sabe, namora João Campos, prefeito de Recife. Mas uma coisa não tem nada a ver com a outra. Ela é um nome novo e importante na política, teve desentendimentos no PDT e mudou. Acontece. E não, ela não é a namorada do João Campos. Ela é uma mulher relevante no cenário político, que teve votação expressiva e que muitos partidos gostariam de ter em seus quadros.

Todo mundo dentro de todos os espectros da cena política deveria pensar um pouco antes de fazer uma crítica a uma política mulher. Não estou falando que elas não devam e não possam ser criticadas (inclusive duramente!), mas vale pensar: "eu faria o mesmo com um homem? Será que eu não estou sendo machista?" A democracia brasileira agradeceria.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL