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Natalia Timerman

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

'Top Gun - Maverick': é possível amar e odiar um filme ao mesmo tempo?

Tom Cruise retorna em Top Gun 2 - Reprodução / Internet
Tom Cruise retorna em Top Gun 2 Imagem: Reprodução / Internet
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Natalia Timerman

Natalia Timerman é psiquiatra, escritora, mestra em psicologia e doutoranda em literatura. É autora de "Copo Vazio", "Rachaduras", finalista Jabuti na categoria contos, e "Desterros", acerca de seu trabalho num hospital penitenciário.

Colunista de Universa

17/06/2022 04h00

Meu filho mais velho, quase adolescente, adora aviões. Há alguns anos os desenha, estuda os modelos, as velocidades, a que se presta cada tipo, seu alcance.

Foi através dele que eu soube da estreia de "Top Gun: Maverick", a continuação do filme que assisti inúmeras vezes na minha própria adolescência e que provavelmente inaugurou, diante do personagem de Tom Cruise, o formigamento no peito de prazer e dor que mais tarde aprendi que se chamava paixão.

Eu adorava a trilha sonora do filme, os acordes da música tema me enchiam imediatamente de uma alegria um pouco heroica, como se eu partilhasse com os pilotos e principalmente com Maverick sua glória; o refrão de "Take my breath awaaaaay" ainda hoje me transporta imediatamente para aquele tempo em que havia a certeza ingênua de um futuro de enamoramentos arrebatadores à minha espera.

Lá fomos ao cinema, meu filho, um amigo dele e eu. Ou melhor: e nós, Natalia e Natalia, pois o escuro da sala testemunhou uma cisão, eu era duas assistindo ao filme. A primeira Natalia vibrava com as cenas, se arrepiava com o refrão de sua infância, torcia pela honra, pela glória, pela destruição dos inimigos, como a maioria dos filmes americanos me ensinou muito bem a sentir. A segunda sentia, em primeiro lugar, uma vergonha estrondosa da primeira.

Honra? Glória? Destruição dos inimigos? Pensando no Iraque, no Afeganistão, na Síria, no sul do planeta, a segunda Natalia tem plena consciência de que os filmes estadunidenses heroicizam uma hegemonia baseada em exploração, em massacres, na destruição física e cultural de tudo o que for diferente de um certo ideal de vida, ideal esse sustentado pela ilusão da existência de algo como o sucesso, ilusão essa que os filmes de Hollywood vêm justamente replicar e semear.

A segunda Natalia abismava-se com as palmas que escutava diante das manobras perigosas dos aviões, pensando na quantidade de carbono emitida por cada um deles para a produção do filme e nos treinamentos da esquadra de elite na vida real.

Saímos da exibição um tanto perturbadas, e mais até do que isso: a segunda Natalia brigava com a primeira por ter gostado do filme. Ao que esta disse: não seja boba, Natalia, enquanto você não me entender, sua revolta não vai servir de nada e vai sempre desembocar naquela frase famosa e anônima: é mais fácil acabar o mundo do que o capitalismo.

Frase inteligente e precisa, mas inerte, como se o fim do mundo fosse de fato o caminho à nossa frente e não houvesse alternativa nenhuma a ele.

Se seguimos como estamos, de fato não haverá. A ideia de conforto substitui o próprio conforto, em sociedades de indivíduos que se acabam de trabalhar; a existência de alguns milionários garante que enriquecer é possível e está ao alcance de qualquer um; o vislumbre do sucesso alheio instaura uma aparente ordem geral, e qualquer ordem, ainda que incômoda, custa muito para ser quebrada.

Em "Top Gun: Maverick", um dos valores incorporados pelo personagem de Tom Cruise com o amadurecimento é o de que voltar vivo é tão importante quanto o sucesso das missões. É claro que esse lema não se aplica aos inimigos.

Enquanto a primeira Natalia se entregava às palmas para o ensinamento: "não pense, faça", a segunda entendia que ele pode ser a manifestação de algo que tem a mesma raiz do fascismo; a primeira, então, se contrapõe, defendendo o filme: não, esse lema vai contra o excesso de racionalidade de que padece nosso tempo, excesso que nos desliga de nós mesmos, de outras capacidades além da cognitiva.

Ambas as Natalias sabiam que o final do filme seria feliz. Ambas concluem que, se não fizerem as pazes, se não for possível alçar a compreensão de uma à disponibilidade emocional da outra, se elas não forem capazes de articular uma transformação em que as duas sejam consideradas, não haverá mais heróis, nem finais felizes, e nem mesmo pessoas.

O tal sonho americano faliu, e se não faliu, é necessário que o faça, e talvez a nostalgia que Top Gun celebra seja apenas um indício disso: a exaltação do passado quando, por este caminho que seguimos, já não há vislumbre de futuro. Porque a temperatura do planeta está subindo e o inimigo, no fundo, somos nós.