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Como em 'Maid', relações entre mãe e filha podem ser abusivas

Descobrir que sua mãe te inveja de vez em quando, como acontece com Alex, também não é bonito, mas é humano - fizkes/ iStock
Descobrir que sua mãe te inveja de vez em quando, como acontece com Alex, também não é bonito, mas é humano Imagem: fizkes/ iStock
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Brenda Fucuta

Brenda Fucuta é jornalista, escritora e consultora de conteúdo. Autora do livro "Hipnotizados: o que os nossos filhos fazem na internet e o que a internet faz com eles", escreve sobre novas famílias, envelhecimento, identidade de gênero e direitos humanos. Além de entrevistar pessoas incríveis.

Colunista de Universa

30/10/2021 04h00

A série "Maid" é difícil de ver. Desisti dela três vezes. "Ah, vai, tá brincando que vai ficar pior", eu pensava. E não é que, a cada capítulo, ficava pior para Alex, a heroína? Era nesse momento em que eu simplesmente desligava a Netflix e ia fazer outra coisa da vida. No dia seguinte, eu voltava a ela porque, apesar de pesada, a série é hipnotizante.

É a história de como uma jovem talentosa, destinada a estudar Literatura em uma universidade, precisa lavar privadas porque o sistema norte-americano fracassa no apoio a mulheres vítimas de violência doméstica. No Brasil, esse não é um aspecto da história que impressiona. Lavar privadas das casas dos outros ainda é o trabalho remunerado mais comum entre as brasileiras. Somos 6,2 milhões nessa profissão. E agressão doméstica, claro, é uma das várias e tristes manifestações de um país mais violento do que cordial.

O melhor do seriado reside na forma inteligente, nada simplista, de falar de relacionamentos abusivos. Apesar de o foco estar na vítima, a protagonista Alex (interpretada pela atriz Margaret Qualley), a série nos apresenta agressores complexos pelos quais torcemos, porque também eles lutam para superar seus demônios.

São muitos os abusadores. O marido de Alex é alcoólatra e violento. O pai de Alex também —o que fez da mãe, Paula, ter sido vítima de um relacionamento abusivo quando era jovem. São abusivos o governo, com seus projetos falhos de apoio às vítimas, e as primeiras empregadoras de Alex.

E, dentre tantos relacionamentos difíceis e atormentados, o que mais me chamou a atenção foi o de Alex com sua mãe, Paula. (O relacionamento não foi explorado no livro que inspirou a série, lançado no Brasil com o título "Superação, Trabalho Duro, Salário Baixo e o Dever de uma Mãe Solo". Escrito pela ex-empregada doméstica Stephanie Land, o livro é um relato autobiográfico da luta de uma jovem mãe para sobreviver longe do marido agressor.)

Quando a filha cuida da mãe

Na série, Paula é uma artista plástica que sofre com a bipolaridade e as escolhas erradas dos parceiros amorosos. Ama a filha e a neta, mas é incapaz de cuidar delas. Em determinado momento, Alex constata, assustada, que foi ela, a filha, quem cuidou da mãe desde pequena e será ela quem cuidará da mãe na velhice. É uma constatação dolorosa, uma inversão de papéis que se apresenta de forma implacável. Mais uma vez, o roteiro foge da solução fácil da heroína injustiçada que será salva por um benfeitor. Afinal, assim é a vida. E ela pode ser tudo, menos justa.

Me perdoem pelos spoilers, mas não há como contorná-los para falar sobre o ponto que achei mais corajoso da série, que é a ambiguidade ardida e complicada na relação entre mãe e filha.

Vou pedir ajuda da psicanalista Maria Rita Kehl, em texto publicado sobre relacionamentos entre mães e filhos: "O amado e o odiado são um só —ambivalência que nos acompanha pela vida toda. Ambivalência que é da essência de toda relação amorosa, pois todo objeto que satisfaz também frustra, e o absoluto não se recupera mais?"

Inveja, um segredo sujo

Paula tem problemas mentais, mas nem por isso deixamos de reconhecer em várias falas dela um dos segredos sujos de boa parte das mães em relação as suas filhas: a inveja. Alex é jovem e desejada pelos homens. A mãe, não mais. Alex abandonará a cidade onde viveram gerações de mulheres de sua família e ingressará na universidade. Sua mãe continuará lá.

Conheço mães que, impedidas de buscar ou realizar seus próprios sonhos, deslocam seus projetos para as filhas. É sempre algo triste de se ver. Outras, como Paula, parecem ter raiva do que a filha conseguiu e que a ela foi negado. Mães invejosas, narcisistas, segundo psicanalistas. Na interpretação de Paula, a atriz Andie MacDowell (lembra de "Quatro Casamentos e um Funeral"?) está soberba. (Curiosidade: as duas protagonistas são mãe e filha de verdade.)

Andie, em entrevista sobre a série, disse que a própria mãe lutou contra o alcoolismo e a esquizofrenia. "Minha mãe estava sempre em sofrimento", declarou a atriz. "Eu entendo a complexidade de uma pessoa que está quebrada, alguém que você ama mesmo sabendo como ela é difícil."

A relação de mães e filhas não é cor-de-rosa. É complexa, ambígua e difícil. Aquela história de "somos as melhores amigas" ou "minha mãe é minha ídola" esconde mais do que parece.

Esconde momentos em que uma mulher encara outra e pensa: agora é a vez dela e por mais que eu a ame eu também a invejo.

A inveja não é bonita, mas é humana. Descobrir que sua mãe te inveja de vez em quando, como acontece com Alex, também não é bonito, mas é humano. Bom seria que nós, mulheres, aceitássemos essa ambivalência no relacionamento e entendêssemos que ninguém ama o outro o tempo todo. Nem as mães.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

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