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Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Toda mãe deveria ver Kate Winslet em "Mare of Easttown", série da HBO

Kate Winslet vive Mare Sheehan em "Mare of Easttown" (HBO) - Reprodução
Kate Winslet vive Mare Sheehan em 'Mare of Easttown" (HBO) Imagem: Reprodução
Brenda Fucuta

Brenda Fucuta é jornalista, escritora e consultora de conteúdo. Autora do livro "Hipnotizados: o que os nossos filhos fazem na internet e o que a internet faz com eles", escreve sobre novas famílias, envelhecimento, identidade de gênero e direitos humanos. Além de entrevistar pessoas incríveis.

Colunista de Universa

05/06/2021 04h00

Uau, que história boa tem a série "Mare de Easttown", que a HBO transmitiu nos últimos dois meses. Ela me pegou de um jeito que só Games of Thrones fazia: a cada fim de capítulo, uma depressãozinha por saber que ia demorar uma semana para eu ter acesso a um novo episódio. Mas Mare e GOT nada têm em comum, fora o trabalho incrível de roteiro. Enquanto uma série é épica e imperial, fala de conquistas de reinos, a outra é coloquial, fala do dia a dia de moradores de uma pequena cidade dos Estados Unidos.

Em Easttown, acontece um crime. Uma detetive cansada e amarga (Kate Winslet) é encarregada de investigá-lo e, para cumprir seu trabalho, precisa pressionar parentes e vizinhos. Sendo tão pequena, todos se conhecem. Todos se conhecendo, todos são suspeitos. Este é o fio condutor da história. Simples, clássico, funcional.

O que deixa essa trama de detetive tão especial é o foco na maternidade. Não a cor de rosa, previsível, mas a maternidade difícil, cheia de escolhas impossíveis e dúvidas intermináveis. Suas principais personagens são mães. Duas delas sentem que falharam, não foram boas o suficiente. Se sentem responsáveis pela infelicidade dos filhos. A terceira mãe, a que mais se aproxima do modelo de mãe atenta e perfeita, descobre que é impossível proteger o filho de um mal terrível.

Faz tempo não vejo um mergulho tão dramático no lado escuro da maternidade. Por meio de suas personagens, Mare faz as perguntas que as mães se fazem quando as coisas não acontecem conforme o planejado. E se... (Conhece?) E se eu tivesse agido de outra forma? E se eu tivesse sido mais firme? Mais amorosa? Mais presente? Menos protetora? Mais atenta?

A lista não termina, a culpa materna é muito potente e, não à toa, consegue sustentar um roteiro tão rico, complexo e universal

Mães destruídas pela culpa, amarguradas pela falta do perdão, condenadas a sofrer com o erro do filho: essas mães são interpretadas de forma esplêndida por Kate Winslet, Jean Smart (que faz o papel de sua mãe) e Julianne Nicholson (melhor amiga da detetive). Fabulosas ao demonstrar a dor e a frustração de pessoas que, escolhendo amar e criar filhos, percebem que não têm domínio nesta tarefa. Os dramas das mães de Easttown são do tipo extremo. Um jovem suicida, um adolescente infrator, uma jovem adicta que abre mão de criar o filho por não confiar em si mesma.

Parecem dramas que não acontecem todo dia, nem perto de nós — mas acontecem.

Mesmo assim, somos capazes de nos identificarmos com a dor das mães da história porque reconhecemos um parentesco com nossas próprias dores

Eu já disse aqui que morro de inveja das mães que parecem ter nascido prontas. Olho para seus filhos e me lembro que eles filhos não tiveram dor de barriga, não repetiram na escola, não fumaram maconha, não ficaram sem emprego. Acontece mesmo isso? Acontece, tenho evidências concretas (rs). Não sei se é erro de amostragem da pesquisa ou se é a regra confirmando a exceção porque, com tanta possibilidade de dar errado, é inacreditável que dê certo.
Uma vez, nos anos 80 do século passado, uma reportagem da revista Veja, dizia algo parecido. O nascimento de uma criança saudável estaria no mesmo patamar de um milagre, tendo em vista a complexidade da tarefa da geração da vida, da formação de um corpo, órgãos e sistemas vitais. Vejo a maternidade como o exercício rotineiro do mesmo milagre. Só uma crença em algo sobrenatural explica a falta de noção que temos dessa atividade gigantesca que é acompanhar o crescimento de um ser humano e tentar não deixá-lo sucumbir à doença, à tristeza, à frustração, à rejeição, às dores próprias da vida.

Aquilo que acreditamos ser nosso dever só é factível em parte. Diferentemente do que aprendemos a crer, ser responsável por uma criança não nos dá o poder divino da onipotência, da onipresença e da onisciência

No máximo, conseguimos que nossos filhos sejam nutridos, amados, educados, ajudem a lavar a louça de vez e votem nas pessoas certas (nem sempre).

Finalizando, imagino que a culpa que atormenta as mães de "Mare de Easttown" (assim como a nossa culpa) nasça da falsa sensação de que podemos tudo. De que mãe que é mãe, que é guerreira, que é leoa, faz das tripas coração para proteger seu filho dos males do mundo.Um engano, autoengano.

Não somos tão poderosas assim. Achar que tudo é nossa culpa é acreditar na própria onipotência.Ao contrário do que desejamos, não temos controle sobre o destino dos nossos filhos.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

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