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Nina Lemos

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

'Maid', estreia da Netflix, perturba ao mostrar abuso psicológico e pobreza

Margaret Qualley interpreta Alex na série "Maid", da Netflix. - Reprodução / Internet
Margaret Qualley interpreta Alex na série "Maid", da Netflix. Imagem: Reprodução / Internet
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Nina Lemos

Nina Lemos é jornalista e escritora e mora em Berlim. É feminista das antigas e uma das criadoras do 02 Neurônio, que lançou cinco livros e teve um site no UOL no começo de 2000. Foi colunista da Folha de S. Paulo, repórter especial da revista Tpm e blogueira do Estadão e do Yahoo. Escreveu também o romance "A Ditadura da Moda".

Colunista de Universa

04/10/2021 16h12

Alex (Margaret Qualley) e Sean (Nick Robinson), junto com a filha Maddy, de dois anos, formam uma jovem família americana pobre, ou "white trash", como eles são chamados nos EUA.

Mas a pobreza está longe de ser o único problema. O sujeito, quando bebe, perde o controle e passa a brigar com a namorada. Em uma dessas brigas, dá um soco na parede. Em outra, joga coisas. Aos poucos, a priva do trabalho e da independência financeira. E a vida de Alex vira um inferno. Se sentindo em risco e desesperada, ela foge no meio da noite com a filha, sem ter para onde ir. A partir daí, ela vai tentar de tudo para sobreviver e cuidar da filha.

Esse ciclo de pesadelo é o drama central da ótima série "Maid" (empregada, em português) que estreou esse fim de semana no Netflix. A série é baseada no livro autobiográfico "Maid: hard work, low pay and a mother will to survive" (Faxineira: trabalho duro, salário baixo e a vontade de uma mãe de sobreviver), de Stephanie Land.

A jornada de Alex no filme é claustrofóbica e ao mesmo tempo viciante. Vi praticamente tudo de uma vez só, o que me rendeu uma noite de insônia, já que é impossível "dormir com um barulho desses."

O cenário de "Maid" é uma América muito longe do glamour e do sonho americano. Pelo contrário, nos submundos dos Estados Unidos, essas pessoas vivem em trailers e, sem casa, dormem em carros no estacionamento do "Walmart". A mãe de Alex, Paula, interpretada por Andie Macdowell (curiosidade: Andie é mãe de Margaret na vida real) é uma narcisista, que vive entre delírios de ser uma grande artista, trocando de um namorado abusador por outro.

Esse abuso é vivido também pela filha - e em muitas famílias é isso mesmo que acontece, o abuso passa de geração para geração como uma herança maldita.

No caso de Alex, o abuso que ela sofre não é aquele que deixa marcas físicas, e nem por isso ele deixa de ser grave.

Sean nunca bateu nela e ela não carrega marcas visíveis de violência. Por isso mesmo, Alex demora para entender que é vítima de violência doméstica e também para conseguir ajuda.

Ao tentar buscar ajuda em órgãos de assistência social nos Estados Unidos, ela tem que implorar para ter algum suporte. E se não tem marcas, como provar que é vítima de violência? E como você mesmo vai entender que é vítima de violência? É difícil. E por isso mesmo a série presta um serviço ao mostrar esse tipo de abuso de maneira realista.

Na série, Alex, quando está com o namorado, tem medo dele quando ele bebe. Tem que pedir dinheiro para o básico e vai se fechando cada vez mais nesse mundo sem perspectiva.

Para conseguir ajuda, ela precisa de ajuda do Estado, de instituições e, claro, de outras mulheres. Não é por acaso que no seriado essa solidariedade venha, na maioria das vezes, de outras mulheres, como de vítimas de violência que passaram a ajudar outras, de colegas do abrigo de vítimas onde ela vai morar e até de uma patroa.

Na vida real, também são mulheres que ajudam outras mulheres nesse tipo de situação.

Empregada de uniforme

"Maid", em tradução literal, é "empregada doméstica", o trabalho que Alex passa a fazer depois que foge. De novo, nada de glamour. Ela trabalha em uma dessas empresas que fornecem empregados, como se fossem "uber". No caso, as funcionárias não são contratadas e não têm direito a nada. Ao mesmo tempo, elas são obrigadas a usar um uniforme e se submetem a jornadas de trabalho intermináveis. Parece até com o Brasil, não?

Algumas realidades são, mesmo, universais. E injustas.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL