PUBLICIDADE

Topo

Blog Nós

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

O que querem as mulheres na velhice? Comprovo que autonomia é prioridade

iStock
Imagem: iStock
Conteúdo exclusivo para assinantes
Brenda Fucuta

Brenda Fucuta é jornalista, escritora e consultora de conteúdo. Autora do livro "Hipnotizados: o que os nossos filhos fazem na internet e o que a internet faz com eles", escreve sobre novas famílias, envelhecimento, identidade de gênero e direitos humanos. Além de entrevistar pessoas incríveis.

Colunista de Universa

28/08/2021 04h00

Como você enxerga sua velhice? Aliás, você já pensou no assunto? Segundo um livro publicado pelo Centro Brasileiro de Análise e Planejamento, Cebrap, e patrocinado pelo Itaú, há uma enorme diferença na maneira como homens e mulheres enxergam o futuro.

Os homens, diz a pesquisadora Joselene Cristina Gerolamo, buscam o cuidado de uma figura feminina na velhice. Já as mulheres buscam a independência. "O importante não é o que se espera delas, mas o que faz sentido para elas", conclui Joselene a partir de uma pesquisa qualitativa com um grupo de pessoas com 40 e 50 anos de idade. Ou seja: mulheres querem envelhecer com autonomia. Os homens querem envelhecer dependentes. Bem, como as mulheres vivem, em média, 7 anos a mais do que seus maridos, talvez elas tenham o direito de sonhar um pouquinho.

Eu tinha acabado de almoçar com um grupo de mulheres de cabelos brancos quando li este documento, Desafio Longeviver, Estudos sobre Mercado de Trabalho e Envelhecimento Populacional. A publicação traz cinco artigos com dados muito interessantes sobre longevidade, entre eles o perfil majoritário da pessoa que cuida dos idosos na família: mulher, mais velha e com mais escolaridade do que a média (o pesquisador Vitor Matheus Oliveira de Menezes extraiu suas informações da população que trabalha no país).

Peraí, deixa eu explicar antes: não há justificativa para termos nos reunido, peço desculpas aos leitores pelo mau exemplo. Mas há atenuantes: éramos todas vacinadas, estávamos ao ar livre, em uma mesa enorme, com espaço pessoal razoável. Desde que foram imunizadas, essas mulheres se reúnem semanalmente, em um almoço sempre às segundas-feiras. O nome do grupo no WhatsApp é irresistível: Varanda das Loucas.

Minhas companheiras de mesa têm perfis variados. Idade entre 50 a mais de 70, casadas, solteiras, viúvas, divorciadas, algumas aposentadas, outras trabalhando. Em comum, uma visão determinada de envelhecer bem. Embora isso esteja longe de significar uma negação dos problemas e das limitações. Por exemplo, metade da conversa girou em torno da saúde. A vacina contra a herpes zóster, cara mas muito recomendada para quem tem mais de 60 anos de idade. (Você sabia que o vírus da herpes zóster, o mesmo da catapora, pode reaparecer no corpo, principalmente na velhice, causando dores terríveis?)

O creme vaginal indicado para todas, mesmo as que não estão em plena atividade sexual, para combater o ressecamento causado pelas mudanças hormonais. A preferência pelo cajado à bengala. Mais eficiente contra quedas e muito mais charmoso. A constatação, sem meio termo, de que a morte pode se apresentar logo.

"Não planejo mais nada que vá além de uma semana", diz uma delas. Podia ser uma declaração triste, mas não foi. Todas rimos porque é um jeito muito sensato de encarar a vida na velhice: para que se preocupar com o que não é mais necessário? Acho que já contei aqui que um antigo chefe me dizia para planejar a carreira em ciclos de 5 em 5 anos. Na época, fez muito sentido. Naquela mesa, como diria uma das "loucas", que tolice.

Também falamos muito de autonomia. Curiosamente, mesmo as casadas do grupo preferiram morar sozinhas. Maridos em uma casa, elas nas suas próprias. Filhos e netos estão longe, a maioria mora em outras cidades, alguns em outros países. Uma das colegas de almoço, com mais de 70 anos, mora a 14 km da cidade. Esteve doente por um tempo. Na recuperação, ela contou com o apoio dos amigos, entre eles as que estavam no almoço. Esse grupo fez um pacto informal de se ajudar sempre que for preciso.

"Somos boas nisso", me disse uma delas. Achei genial. Nesse almoço, percebi que o sonho da autonomia na velhice não é impossível. Pelo menos para algumas mulheres como aquelas, que se reúnem para se divertir na alegria - com um copo de caipirinha por semana - e para se apoiar mutuamente na tristeza.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Blog Nós