PUBLICIDADE

Topo

Blog Nós

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

'Minha tia perdeu a memória': como é ser esquecida pelos que te amam

Em "Para Sempre Alice", Alice Howland (Juliane Moore) é diagnosticada com Alzheimer e enfrenta lapsos de memória - Divulgação
Em "Para Sempre Alice", Alice Howland (Juliane Moore) é diagnosticada com Alzheimer e enfrenta lapsos de memória Imagem: Divulgação
Conteúdo exclusivo para assinantes
Brenda Fucuta

Brenda Fucuta é jornalista, escritora e consultora de conteúdo. Autora do livro "Hipnotizados: o que os nossos filhos fazem na internet e o que a internet faz com eles", escreve sobre novas famílias, envelhecimento, identidade de gênero e direitos humanos. Além de entrevistar pessoas incríveis.

Colunista de Universa

24/07/2021 04h00

No domingo à noite, soube que uma tia querida, embora distante, tinha acabado de morrer. Na segunda de manhã, as filhas, a neta, dois sobrinhos, uma amiga da família e eu acompanhamos o sepultamento -- bem no estilo pandemia, rápido, sem velório. Fui vê-la morta porque não a tinha visitado, viva, como ela merecia. Havia prometido presenteá-la com um áudio livro, o que não fiz. Erros que vivemos cometendo.
Minha presença no enterro não significava mais nada para ela, significava para mim e, talvez, para as filhas.

O céu estava azul, o ar, gélido, e não havia desespero, apenas as histórias sobre o fim e o meio contadas entre lágrimas e risadas. Tia Lola viveu 94 anos e foi engraçada, inteligente, matriarca de uma família com três filhas - que ela criou sozinha, viúva -, uma neta e duas bisnetas. Uma família que sempre me encantou, pois só fazia mulheres.

"Quando minha avó me esqueceu, foi horrível", contou a neta, Mariana. Eu não sabia. Mariana era a luz da tia Lola, a favorita entre todas, a bendita. Tia Lola esqueceu da única neta perto dos 90 anos, embora não tenha esquecida da bisneta mais velha. Não esqueceu do espanhol, a língua falada na sua infância e retomada no fim da vida. Algo parecido aconteceu com minha avó paterna, que chegou a se esquecer dos filhos. Por outro lado, meus avós maternos morreram lembrando-se dos nomes dos mais de 40 netos. A razão desses mistérios é assunto dos neurocientistas, nem vou me alongar aqui. Queria falar desse sentimento de ser esquecida pelas pessoas que te amaram.

Sempre me preocupei com a possibilidade de esquecer as pessoas. Como seria esquecer meus filhos, por exemplo? É um pensamento tão exasperante que prefiro ignorá-lo. Mas quando ouvi o lamento de Mariana, percebi que minha preocupação não fazia muito sentido.

Suponho que quem esquece não se incomoda tanto quanto quem é esquecido. São os que se apagam os que sofrem. Existe rejeição maior do que essa?

Embora a gente saiba que não é proposital, que o cérebro pode perder contato com o coração por mau uso, obsolescência ou qualquer outra razão, quem aguenta ser deletado? Mesmo na trivialidade de uma relação de trabalho, não é aflitivo perceber que você nada significou para alguém? Aquele ex-colega que não te reconhece em um encontro casual em um restaurante, por exemplo. O colega nem foi importante, não era amigo nem nada, mas se você se lembra dele, como assim ele não se lembra de você?

Um ex-namorado. Ele te manda uma mensagem, depois de anos sem vocês se verem, dizendo que amanheceu se lembrando daquela conversa que vocês tiveram em um dos primeiros encontros. Ele descreve a conversa, a comida, a bebida e a roupa que você estava vestindo. Vocês não estão apaixonados, não querem mais ficar juntos, mas ouvir aquela mensagem te dá um conforto delicioso. Sim, ele se lembra de coisas que até você mesma tinha esquecido.

É como se o fato de você continuar existindo na memória de alguém confirmasse a própria existência

Sempre pensei que a nossa história, a nossa identidade, se baseasse na nossa capacidade de lembrar. Lembrar do nosso passado, de quem somos. Agora, percebo que somos mais do que isso. Para sermos, precisamos ser amados. Precisamos existir nas memórias dos outros também.

Na mesma semana que tia Lola morreu, meu pai fez 88 anos. Ele não se lembrava mais da idade que estava celebrando em uma pequena comemoração com a mulher, os outros filhos e os netos. Mas, quando eu liguei, lembrava do meu nome, de quem eu era. E, para mim, isso nunca foi tão importante.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Blog Nós