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Andrea Dip

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

7 de Setembro e o tom de ameaça na voz de líderes evangélicos

15.mai.2021 - Manifestantes participam de ato em apoio ao presidente Jair Bolsonaro em Niterói (RJ) - GABRIEL BASTOS/ESTADÃO CONTEÚDO
15.mai.2021 - Manifestantes participam de ato em apoio ao presidente Jair Bolsonaro em Niterói (RJ) Imagem: GABRIEL BASTOS/ESTADÃO CONTEÚDO
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Andrea Dip

Andrea Dip é diretora na Agência Pública de Jornalismo Investigativo, apresentadora do podcast Pauta Pública e autora do livro "Em Nome de Quem? A Bancada Evangélica e Seu Projeto de Poder". É membro-fundadora da rede Unidas entre mulheres da América Latina, Caribe e Alemanha. Tem 12 prêmios de jornalismo.

Colunista de Universa

27/08/2021 04h00

"O esquerdismo é a escória da humanidade", diz a cartolina levantada por duas mulheres vestidas de verde e amarelo, logo no início do vídeo publicado repetidas vezes pelo pastor e líder da Assembleia de Deus Vitória em Cristo, Silas Malafaia, para seus mais de 1,4 milhão de seguidores no Twitter nesta semana. O clipe é uma convocação por parte de diversos líderes evangélicos ao "povo abençoado", para que compareça às manifestações em apoio a Bolsonaro no dia 07 de setembro.

As manifestações pró-governo, que acontecem para tentar levantar a popularidade em queda do presidente, estão sendo vistas por governadores, instituições e juristas como um ato inconstitucional, por suas ameaças de invasão ao Supremo Tribunal Federal e ao Congresso. Ainda nesta semana, o governo de São Paulo afastou o coronel Aleksander Toaldo Lacerda do Comando de Policiamento do Interior-7, por estar convidando colegas em suas redes sociais a comparecerem ao ato. Aleksander tinha 5 mil soldados sob suas ordens.

Além do próprio Silas - feroz defensor do presidente, forte influenciador político (costuma dizer com orgulho que elege todos os candidatos que apoia) e declarado opositor aos direitos da população LGBTQIA+ e direitos reprodutivos das mulheres - convocam os evangélicos a "marchar por uma grande vitória" no vídeo o pastor Claudio Duarte - pastor do Projeto Recomeçar, palestrante, empresário e apresentador de stand up, segundo seu site; Renê Terranova - ex-Sara Nossa Terra, hoje líder do Ministério Internacional da Restauração, que já foi recebido por Bolsonaro em comitivas de pastores ao Palácio da Alvorada e participou da "motociata" este ano em São Paulo; o ex-senador, pastor e cantor gospel Magno Malta, fiel escudeiro e peça chave para a eleição de Bolsonaro em 2018; Samuel Câmara, pastor pentecostal televisivo, fundador da Convenção da Assembleia de Deus no Brasil e dono da rede de televisão Boas Novas; o apóstolo César Augusto, da Igreja Apostólica Fonte da Vida, forte interlocutor de Bolsonaro; o apóstolo Estevam Hernandes, fundador da Renascer em Cristo, amigo do presidente, preso em 2007 no Aeroporto de Miami, com US$ 56 mil em dinheiro não declarado escondidos em uma Bíblia; e o representante do movimento Nas Ruas Tomé Abduch.

"O que a gente vê no vídeo são pastores de grandes denominações, que estão falando sobre liberdade e democracia mas se a gente olhar bem, são empresários que foram favorecidos por pontuais encaminhamentos que Bolsonaro deu em termos de abonos tributários e no Congresso", diz a professora de sociologia e pesquisadora Christina Vital, do Instituto de Estudos da Religião (ISER). "Me parece uma manifestação de empresários que se favoreceram usando a religião como força dramática, emocional e mobilizadora de mentes e corações", complementa.

Em outro vídeo, também amplamente divulgado essa semana, um Magno Malta, vestido com uma camiseta com a cara de Sérgio Reis e a frase "herói da pátria", canta música criada para a ocasião, que repete o trecho do hino da Independência, adorado pelos nacionalistas: "Ou ficar a Pátria Livre, ou Morrer pelo Brasil". Em tom de samba, o cantor gospel dá o tom do ato de 07 de setembro. Nacionalismo fanático, fundamentalismo religioso, tentativa de aliciamento da polícia militar, golpe. Tom de ameaça.

Errata: o texto foi atualizado
Diferentemente do publicado, o trecho citado se refere ao Hino da Independência do Brasil

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL