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OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Entre lamentar a osteoporose e instalar uma tirolesa, quanto custa a corda?

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Brenda Fucuta

Brenda Fucuta é jornalista, escritora e consultora de conteúdo. Autora do livro "Hipnotizados: o que os nossos filhos fazem na internet e o que a internet faz com eles", escreve sobre novas famílias, envelhecimento, identidade de gênero e direitos humanos. Além de entrevistar pessoas incríveis.

Colunista de Universa

21/08/2021 04h00

Olho para o médico sem muita expectativa. Já vi todos os exames, pesquisei no Google e acho que, tirando uma dorzinha aqui e ali, não tenho com o que me preocupar.

— Você está com osteoporose — ele diz.

Aguardo um "estou brincando" que não vem.

Osteopenia, né? Eu sei, tenho faz tempo, respondo, tentando fazê-lo entender que conheço meu corpo e meus resultados. Osteopenia é um estado anterior à osteoporose, quando a perda óssea ainda parece algo distante, algo reversível. Tipo café com leite da osteoporose, essa, sim, um tapa na cara, um sinal de que seu esqueleto ligou o f*.

— Não, osteoporose, ele repete.

— Ah, mas é que estes exames... já me disseram que, dependendo da máquina, eles podem dar uma alterada.

— Não há nenhuma dúvida aqui, senhora.

Percebo que não há espaço para negociação. Decido sair da fase da negação e ir direto para "ok, vou tentar sobreviver a isso".

— Tem conserto? Quero dizer, dá para recuperar com remédios?

— A gente vai tentar estabilizar a perda óssea. Com remédio, dieta e outras providências que a senhora vai tomar depois que olhar este site aqui.

Ele vira a tela do computador em minha direção mas, antes que eu consiga ler a primeira linha, retoma a tela para ele e avisa que passa o endereço do site depois.

Ah, certo, o médico tem pressa. Estou cheia de perguntas que decido não fazer para dar a ele a chance de digitar compulsivamente, escrevendo relatórios, receitas e sei lá mais o quê. "Vou poder continuar subindo a escada para trocar a lâmpada? E o morro atrás da minha cabana no sítio? Posso subir também? O que acontece se eu não tomar o remédio? Meus ossos vão desmilinguir? E se eu não conseguir consumir tanto cálcio quanto você recomenda? Ei, tenho intolerância à lactose, você notou no meu exame?" No fim, falo apenas:

— Você sabia que minha avó morreu depois de uma cirurgia no quadril?

Não era isso que eu queria falar. Não sou minha vó, estou anos luz da idade que ela tinha quando quebrou o frágil osso da bacia. Mas isso saiu sem pensar, veio direto das zonas sombrias do inconsciente.

Ele me olhou meio surpreso, meio irritado. Por que será que os médicos odeiam demonstrar emoção? Por que ficam tão perturbados quando seus pacientes desmontam? Por que são tão frios quando precisam dar uma má notícia?

— Quantos anos ela tinha? — ele pergunta.

— 82, 83, acho.

— Bem, você é mais nova, mas precisa se cuidar. Cuidado com os pisos, principalmente do banheiro. Nada de subir escadas para trocar lâmpada. Cuidado com terrenos íngremes...

O quê? Ele é telepata?

— Doutor, eu estava pensando em instalar uma tirolesa lá em casa.

É verdade, juro. Depois dos 50, fiquei dada a esse tipo de aventura. Mas ele não sabe disso. Olhou para mim como quem olha para um piadista sem talento. Nem um sorrisinho de canto de boca.

Saio do consultório com uma receita para tomar cálcio, muito cálcio, que me dá dor de barriga. Para tomar um desacelerador de perda óssea, que custa mais de R$ 1 mil a aplicação anual. E uma indicação de dez sessões de fisioterapia que, o médico me diz, não são suficientes, mas é o que o convênio vai aceitar.

Chamo o Uber. Quero voltar para casa e passar o resto do dia compensando as más notícias deitada na minha cama gostosa, que não faz ideia de que meus ossos estão pesando menos a cada dia. Amanhã, penso, começo a dieta e compro os remédios.

Hoje, vou calcular quantos metros de corda vou precisar para a tirolesa.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

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