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Fabi Gomes

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Do TikTok ao áudio rápido do 'zap', estamos presas em um ritmo alucinante

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Imagem: Getty Images
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Fabiana Gomes

Fabi Gomes é maquiadora e bonne vivante ? gosta de das coisas boas da vida, como artes, literatura, sexo, cinema, culinária, viagens. Está sempre atenta ao poder transformador e aos rumos da beleza.

Colunista de Universa

24/08/2021 04h00

-- E aí, já se acostumou com a vida em alta velocidade?
-- Do que cê tá falando?
-- Disso do Tiktok, Reels e vídeos rápidos serem a grande bola da vez na comunicação.
-- Olha, garota, eu nem uso mídias sociais, vivo outra realidade.
-- Então, isso aí não me cabe.
-- Hm...
-- Mas você já usou aquela funcionalidade do WhatsApp, desculpe, do Zap, de acelerar as conversas?
Pausa.

Pois é, amiguinhos, parece que não tem muito para onde correr. Ou melhor, parece que tudo que temos a fazer é correr. Fazer, fazer, rápido, rápido, se dar conta de que não fez, sofrer por isso, continuar tentando e continuar sofrendo, em uma espécie de ciclo sem fim da produção desembestada.

E não foi mero acaso começar esse tema falando das mídias atuais mais solicitadas e desejadas por marcas e influenciadores. É sintomático que a comunicação atual esteja indo nessa direção, onde tudo, ou melhor, o conteúdo todo é produzido, captado e editado de modo alucinante

Você curte trocar uma ideia, deixando uns respiros entrarem na prosa, para dar uma golada em qualquer coisa ou olhar longamente para o além? Curte deixar uma palavra agarrar outra pela mão e descerem pro "play" para brincar lenta e distraidamente? Sabe de nada, inocente. Se quiser bombar, estar "on", vai ter dar a letra em 15 segundos. Ah, é verdade, depois aumentaram para 30 segundos, e hoje em dia até um minuto já é permitido.

Olha só, que luxo, ter um minuto inteiro para comunicar! É, posso estar sendo rancorosa e ligeiramente invejosa, talvez por incapacidade de jogar essas ideias e editá-las assim. Falhei miseravelmente. Nem para comunicação dinâmica, dancinhas fofas ou sexy fofas eu presto... Nunca nem tentei, sabia? Fico com uma espécie de vergonha. Volta, Fabi, isso aqui não é teu divã.

Tá, pode ser que eu tenha feito umas associações nada a ver. Comunicar-se de modo conciso, ágil e engraçadinho é uma habilidade. Fazer conteúdo com alto poder de engajamento caber em um minuto, ou em trinta, quinze segundos. Ué, você não gosta de curta-metragem? Em termos comparativos, um curta é uma espécie de "Titanic" perto dos alucinantes e (quase sempre) nonsense vídeos de TikTok, Reels do Instagram e afins.

Pensando bem, você não prefere vídeos rápidos? Tá sempre "sem tempo, irmã", não é? Vive tentando responder mil mensagens, e-mails, demandas profissionais, pessoais e emocionais? Então, nada melhor que um lance rapidão para te distrair e, talvez, informar, né? E quando a gente deixa de querer ler ou ver "coisas longas", será que dá alguma treta? Quando passamos a substituir uma coisa por outra, digo.

Tipo assim, quando você está com humanos na tua frente, ali de verdade mesmo, você consegue prestar atenção a essas pessoas? Consegue estar disponível pra elas, com condições de escutar e responder?

A penetração dessas mídias em nossas vidas já vai muito além da diversão. Recentemente, por exemplo, o TikTok testou o TikTok Resumes. Trocando em miúdos, é uma ferramenta para empresas usarem no recrutamento de candidatos, na qual os interessados deveriam produzir um vídeo para se aplicarem às vagas. Como bem disse Bruno Natal, do podcast "Resumido", não dá para pensar numa ideia mais desigual, já que, para produzir videozinhos impressionantes, você precisa ter um telefone com uma boa câmera, acesso à internet e idealmente um cenário fofinho e tranquilo onde possa filmar.

Percebe quantas pontas soltas tão atreladas a essas inofensivas invenções?

Pessoas que passaram por experiência de quase morte dizem que passa um filme de toda a vida bem rápido na cabeça. Seria tipo um TikTok? Até no pós-morte a gente precisa acelerar?

Às vezes, não parece que a vida (e a morte) se tornou um simulacro da Times Square na palma da mão? Nem uma pontinha de bucolismo é permitida. Nada de brisa leve das paixões que vêm de dentro (pra mim, são brisas, não brumas).

A impressão é que, ultimamente, estamos o tempo todo numa daquelas cenas alucinantes de "Blade Runner". Se for para viver como em "Blade Runner", eu quero aquela trilha sonora o tempo todo. Os figurinos também. Pode embrulhar para viagem.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL