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"Não sou racista, tenho até uma camisa branca!": o discurso das camisetas

Reprodução/Instagram
Imagem: Reprodução/Instagram
Ana Paula Xongani

Ana Paula Xongani é multiempresária: no Ateliê Xongani, de moda afro-brasileira, e também na empresa que leve o seu nome, de criação de conteúdo. Apresenta o programa Se Essa Roupa Fosse Minha, no GNT, sobre moda consciente. Fala com leveza e responsabilidade sobre temas sempre importantes para que todo mundo junto construa um mundo mais justo e acolhedor para todos, especialmente para as mulheres pretas. Ativismo afetivo, como costuma dizer.

Colunista do UOL

10/09/2020 04h00

Vocês talvez já saibam de cor e salteado um termo que sempre falo e que tangencia tudo o que eu proponho dizer sobre moda, que a gente "veste discursos". A ideia é, a partir da compreensão da moda como uma ferramenta para discutir sociedade, me apegar ao discurso não verbal das pessoas a partir do que elas vestem.

Hoje, várias marcas captaram o poder dessa ideia e a urgência que, principalmente alguns grupos específicos da sociedade, tem de romper barreiras de silenciamentos. Isso é tão, mas tão forte que se tornou literal com o "boom" (vou chamar de boom por pura avaliação empírica até onde meus olhos alcançam) das peças de roupas e outros objetos estampados com frases. Assim, rapidamente, me lembro da Negrei, NBlack_21, Resisto OPM e Mulher Negra é a Revolução.

Pra falar um pouco sobre isso, conversei com o Don Lima, criador e designer da Negrei, marca que conheci na edição do ano passado da Feira Preta, evento que eu considero, como já falei aqui, uma das mais importantes passarelas da moda realizada por negras e negros do Brasil e outros países da América Latina.

"Sabe, eu sou um cara mais fechadão, na minha. Nem sempre falo ou quero falar em voz alta o que penso, então as palavras e grafismos nos produtos que crio falam por mim", me conta ele que, depois de ter uma marca de camisas estampadas de alfaiataria sob encomenda, quis desenvolver uma marca que chegasse a mais pessoas e pudesse ser usada em mais ocasiões além de festas e outros eventos sociais.

Com a frase "não sou racista, tenho até camisa branca!", primeira que estampou uma camiseta da Negrei, ele usou de comparação irônica para levar identificação aos negros e uma cutucada naqueles que se dizem não racistas porque conhecem ou convivem com pessoas negras, nas clássicas: "Não sou racista, tenho até amigo negro"; "Não sou racista, sou casada com uma negra" e coisas assim.

Don me conta que, a partir das frases, que ele também estampa em outros produtos e superfícies, podem surgir oportunidade de diálogos, reflexões e até boas risadas. "Na sociedade que a gente vive, é impossível não estarmos em contato com pessoas que tem atitudes racistas ou que as reproduzem. Então, a gente sabe que em algum momento da vida vai ter que ou "passar pano" ou criticar quem "passa pano" para essa galera. Aí, criei o quê? Um pano de prato com esta frase estampada: "não passo pano pra racista".

As frases que a Negrei utiliza estão muito conectadas com uma galera jovem, que está construindo novos códigos de comunicação a partir do casamento dos discursos de movimentos sociais tradicionais com o que se fala nas ruas e com os múltiplos canais de mídia que temos.

don - Divulgação - Divulgação
Este é o queridíssimo Don Lima
Imagem: Divulgação

"Eu to sempre muito ligado. Assisto muitas lives, leio coisas, escuto podcasts. Minha criatividade bebe dessas fontes", comenta. Ele entende que a Negrei não é uma marca de moda, mas uma marca de comunicação que tem na moda uma de suas plataformas para expressar o que quer dizer. Eu acho bem genial. Vocês não acham?

Perguntei ao Don Lima, quem ele gostaria de presentear com uma camiseta Negrei. Pensou, pensou e disse: "MalcomX! Com a nossa blusa BLK PWR". Já pensou que potência?

Aproveito este espaço para dizer e registrar que sou fã demais do seu trabalho e também para agradecer pelo papo. Tamo junto!

E vocês, leitores? Que marcas conhecem e gostam que estampam frases que te representam? Que tal me contar lá no Instagram? Bora bater trocar essas referências? Quem sabe não faço um álbum por lá?

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.