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Ana Canosa

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Beijo, férias sem filhos e apelido: livro revela hábitos de casais felizes

adamkaz/IStock
Imagem: adamkaz/IStock
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Ana Canosa

Ana Canosa é psicóloga clínica, sexóloga, professora, escritora e comunicadora. Apresenta o podcast Sexoterapia, em Universa/UOL. Sendo há 28 anos testemunha das mais diferentes histórias afetivas, é categórica em afirmar que muitas vezes, só o amor não é suficiente. Fala de sexualidade desde que se entende por gente, unindo seus estudos acadêmicos com a experiência clínica e seu olhar de observação do mundo.

Colunista de Universa

09/10/2021 04h00

Você anda de mãos dadas? Dá beijos espontâneos? Chama sua parceria por apelido carinhoso? Pois é, são esses os hábitos comuns aos casais que tem relação estável e se consideram felizes.

A pesquisa realizada por norte-americanos com quase 100 mil pessoas em vários países (inclusive o Brasil), e que rendeu o livro "The Normal Bar: The Surprising Secrets of Happy Couples and What They Reveal About Creating a New Normal in Your Relationship" ( "Os segredos surpreendentes dos casais felizes e o que eles revelam sobre como criar um novo normal" em tradução livre) cruzou dados sobre satisfação na relação amorosa e sexual com ações cotidianas das pessoas em relação aos seus pares.

Falar "Eu te amo" ao menos uma vez por semana, "ronronar" de quando em vez como um gatinho manhoso ou uma gata no cio são coisas que também estão no cardápio daqueles que se julgam muito felizes. Tirar férias a dois (sem filhos), fazer programas românticos (vale um cineminha) e dar presentes não datados, foram também citados pelo grupo dos "bem casados", assim como expressar carinho em público.

Uma das autoras da pesquisa, Pepper Scwartz, chegou a comentar, com bom humor que "os latino-americanos fazem tudo em público", já os americanos, para sua falta de sorte, não.

Embora na pesquisa os homens heterossexuais tenham se queixado da falta de romantismo das suas mulheres, é perceptível que eles também deixam a desejar: a reclamação geral da nação feminina, acompanhada da já tradicional falta de estimulação no corpo todo é que seus parceiros param de beijar em público depois que se casam.

E quando eu indago, no consultório, "sua mulher está insatisfeita porque você não a beija na boca sem que estejam transando", não obtenho resposta satisfatória.

Aliás, na pesquisa da Pepper horrorosos 24% só beijam nessa condição. Alguns dizem que essa relação, não é mais um namoro, para ficarem beijando suas mulheres por aí. Que não é mais paixão, blá, blá, blá. A resposta mais comum é: "Ah, você sabe..." Eu? Não sei não, não entendo, definitivamente. Parece uma regra social passada pelo comportamento não verbal: "olha, depois do casamento vocês viram homem e mulher de bem, então é melhor não ficarem se agarrando por aí".

Um mal-estar cultural, como se beijar fosse coisa de adolescente. Beijar sem necessariamente transar é um exercício delicioso, algo que os italianos, segundo os pesquisadores, fazem melhor que todo mundo.

Os resultados da pesquisa foram semelhantes para casais hetero ou homoafetivos, mas certamente que fazer carinho em público e andar de mãos dadas infelizmente não se aplicam a países transfóbicos e homofóbicos como o nosso.

A exceção dos espanhóis e italianos que se expressam muito, americanos, japoneses, chineses, são os que menos demonstram afeto, toque e carinho em público. Fico pensando que quando a pessoa amada te abraça, te beija assim na rua, na praça...há um quê de orgulho, de legitimidade, de sentir-se uma pessoa desejada, querida. É provocador do olhar alheio, de inveja, admiração ou espanto.

Caminha-se para um novo modelo de vivência do amor, que não tem a abnegação do amor cortês nem a ideia de completude do amor romântico. Não sei qual nome vamos dar. Mas é aquele amor que estimula a outra pessoa a desenvolver o seu melhor, mais generoso no entendimento das contradições humanas, que não nega a necessidade de carinho, toque e aconchego e que negocia o sexo dependendo das possibilidades de cada uma.

Um amor que menos impositivo e sem fórmula pronta.

Onde caiba o Eu te amo, porque é bom demais escutar isso e também o agora não dá. Um amor que não precisa do casamento para ter forma, mas que pode também ter esse perfil, por que não? Um amor leal, que seja comprometido com a saúde e bem-estar emocional do outro e que não necessariamente será fiel, embora para muitos ainda precise ser. Um amor que entenda as fantasias da sua parceria e por ser assim é menos fantasioso do que todos os modelos que já passaram. Um amor que se arruma para a outra pessoa, como os franceses, porque sabe que tem que cativar.

Basta olhar para um casal de velhinhos na rua, andando de mãos dadas que sempre há um suspiro de alívio, uma esperança, uma satisfação. 74% dos pesquisados satisfeitíssimos com suas relações longas sentem-se atraídos pelas suas parcerias e ¾ as escolheriam novamente!

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL