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Ana Canosa

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Aos 65 anos, ela descobriu os prazeres do sexo com um homem de 38

pixelfit/Getty Images
Imagem: pixelfit/Getty Images
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Ana Canosa

Ana Canosa é psicóloga clínica, sexóloga, professora, escritora e comunicadora. Apresenta o podcast Sexoterapia, em Universa/UOL. Sendo há 28 anos testemunha das mais diferentes histórias afetivas, é categórica em afirmar que muitas vezes, só o amor não é suficiente. Fala de sexualidade desde que se entende por gente, unindo seus estudos acadêmicos com a experiência clínica e seu olhar de observação do mundo.

Colunista de Universa

02/10/2021 04h00

Ana tem 65 anos. Foi casada por mais de 40 anos e ficou viúva há 3. Só conheceu dois pênis na vida: o do marido e o do primeiro namorado, nos idos da década de 70, quando estava movida pelo ideal de paz e amor. Não chegou a fazer sexo com ele, mas se permitiu tirar uns bons "sarros", expressão típica da sua geração que é sinônimo de pegação sem coito.

Outro dia, conheceu um rapaz de 38 anos, na clínica de fisioterapia, quando foi para a sua sessão de exercícios semanais, a fim de minimizar as dores no joelho. Romeo estava acompanhando a mãe, que era poucos anos mais velha que Ana, em recuperação de uma cirurgia no quadril.

Como boa extrovertida, sua conversa entusiasmada chegou aos ouvidos do rapaz que observava os movimentos da mãe. Não tardou para que ele entrasse na conversa e que descobrissem uma semelhança: os dois são professores, ele de Geografia, ela de História. As "piadinhas" da sala de professores passaram a ser compartilhadas como afirmação das coisas em comum, além das citações de obras, autores, conceitos.

" O amor surge também das pequenezas cotidianas, da troca trivial. Das coincidências simples, baseadas em cores, lugares, sabores, nomes, livros. Cada reconhecimento de cenários e ideias em comum, encontra um bocadinho no espaço do pertencimento do outro. Mas para que o ordinário adquira status de erotismo, acontece um tipo de encantamento, que não sabemos explicar direito, que difere um(a) bom(a) amigo(a) de um(a) bom(a) amante

Depois de alguns encontros semanais na sala de fisioterapia, trocaram telefone porque ambos tinham interesses (pedagógicos em comum). Quando a mãe dele terminou o tratamento, Romeo voltou para a cidade onde mora e trabalha e ficaram trocando textos. Muitos textos. Até que ele começou a ser mais íntimo. Mais carinhoso. Ana percebeu.

Mas havia uma voz interna, influenciada pelas crenças românticas sobre relacionamento baseadas na desigualdade de gênero, que dizia que quase 30 anos de diferença era muito, ainda mais se o jovem em questão é o homem, não a mulher.

Talvez ele estivesse projetando a mãe dele nela, um Édipo mal elaborado na infância. Quem sabe era um perverso que tinha fetiche por mulheres mais velhas. Vai ver que tinha um defeito grande, a autoestima baixa, uma verdade secreta, e por isso solteiro, e por isso interessado nela. Por outro lado, professores reconhecem, que a paixão por uma personagem pode acontecer sem que haja necessidade de complexidades ou entrelinhas.

Depois de muito conversarmos sobre o seu desejo, aceitou a ideia de um encontro, morrendo de medo e de ansiedade e de paixão. Ele veio para São Paulo só para vê-la, e foram "10 dias transando em motéis de quinta categoria", afinal nem com a soma dos salários conseguiriam pagar toda a conta dessa maratona sexual. Se amaram por todos os poros, buracos e pelos, recitaram sonetos e poemas para em seguida xingarem-se em bom e erótico tom. Não houve menopausa que contivesse a enxurrada de fluidos vertidos por suas entranhas, que ele com ternura sorveu e mergulhou.

A história já terminou. Ela deu um basta em nome da fantasia de uma impossibilidade concreta, em nome dos netos e netas, do filho e das filhas que na cabeça dela não dariam conta da diferença entre eles. Como explicaria o namoro com o jovem, na escola onde ela dá aula de geografia para um grupo de adultos em reabilitação social?

Em nossa última sessão online, ela me sinalizou que não estava sozinha em casa. A filha trabalhava no quarto ao lado e, portanto, ela não podia falar alto. Fiz que já tinha entendido e que podíamos falar em código:

- Mas então, como ficou com esse aluno das 10 aulas?
- Ah, ele aprendeu muito comigo e eu muito com ele.
- Mas não bate uma saudade de pegar um aluno assim e depois deixar de ver?
- Ah claro que sim, mas é assim a vida né? Ele precisa seguir na turma dele.

Embora o afastamento a frustre, alimenta o desejo proibido, os devaneios e a memória. Ana, na sua sabedoria particular, prefere a ilusão do que podia ter sido, mantendo a excitação em alto nível, do que a realidade da vida conjugal, e as decepções inerentes a um relacionamento estável. Guarda seu segredo com cara de menina sapeca, e está feliz e renovada, como nunca a vi antes.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL