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Ana Canosa

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Conveniência, amor, tesão: o que tem mais chances de sustentar uma relação?

PeopleImages/Getty Images
Imagem: PeopleImages/Getty Images
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Ana Canosa

Ana Canosa é psicóloga clínica, sexóloga, professora, escritora e comunicadora. Apresenta o podcast Sexoterapia, em Universa/UOL. Sendo há 28 anos testemunha das mais diferentes histórias afetivas, é categórica em afirmar que muitas vezes, só o amor não é suficiente. Fala de sexualidade desde que se entende por gente, unindo seus estudos acadêmicos com a experiência clínica e seu olhar de observação do mundo.

Colunista de Universa

21/09/2021 04h00

Daniela tem 28 anos, e depois de muito aproveitar o sexo casual, notou que havia chegado a hora de ter laços mais duradores. Conheceu o atual namorado, com quem tem uma relação que ela julga ótima e com projetos em comum, mas ela não sente assim tanto tesão por ele - "Diria que é uma relação de conveniência, pois gosto mais da vida com ele do que exatamente dele".

Seu questionamento é se essa escolha é muito ruim para alguém com sua idade.

Começo dizendo que, depois de mais de 30 anos ouvindo o dilema humano, já vi de quase tudo. Desde casais que se conheceram na adolescência, casaram e vivem uma vida feliz juntos há mais de 20 anos, sem nunca terem olhado para os lados (talvez só uma espiada rápida), até gente que não se adapta ao casamento, justamente porque ele traz uma série de conveniências que podem ser ótimas, mas difíceis de abrir mão depois.

Todas as relações se baseiam em conveniência, a diferença é que algumas começam por ela, outras a desenvolvem durante o tempo. Bens, filhos, famílias, conforto, cumplicidade, divisão de contas, tarefas, perrengues e afins.

A conveniência de estar junto pode até ser do tipo narcísica, aquela que tem na parceria alimento para a própria autoimagem, como no caso dos que estão usufruindo do status ou do corpo de alguém.

Quando alguém me diz angustiado que não se separa de um bom casamento por causa dos filhos, super entendo. Por causa do conforto, super entendo. Por que dá uma preguiça começar tudo de novo, rá, também entendo.

O psicodramatista Vitor Dias diz que há 3 grandes vigas que sustentam um vínculo conjugal: a conveniência, a função psicológica e o amor/sexo. Na viga do amor e sexo está o afeto e o erotismo; na função psicológica o que está em jogo é o papel que cada um exerce na vida do outro: o orientado e o orientador, o cuidado e o cuidador, o julgado e o julgador. Victor Dias aponta para a seguinte reflexão: qual dessas três vigas sustenta o seu vínculo conjugal? E isso basta para a sua satisfação pessoal?

Daniela demonstra que ter um companheiro, para compartilhar a vida, é hoje a sua grande motivação, o que sustenta a sua escolha. Sobre a função psicológica, não sei, deixo a ela a reflexão. Diante de seu relato, o amor e o sexo são pilares menos importantes. No momento. Mas nada garante que lá na frente ela sinta falta de desejar alguém, com todas as suas entranhas.

Aliás, já vi isso acontecer inúmeras vezes: a formação familiar acontecer na casa dos 25 e lá adiante, depois dos 30, a necessidade sexual vir com tudo. É uma questão de ciclo de vida: o início da vida adulta traz mais autonomia, é a fase na qual as pessoas reforçam escolhas profissionais, começam a usufruir de suas conquistas, estão com estrutura física surpreendente, aliada a energia e alguma experiência. Parece que se sentam no formigueiro e o sexo passa a ser uma questão fundamental.

Ah, mas ela fez muito sexo casual e já viveu a base do tesão, verdade, mas não há garantia nenhuma que o tesão não volte, direcionado a outras pessoas. Bom, mas mesmo que a gente tenha tesão nas parcerias, ele também aparece, não é mesmo?

Enfim, Daniela, penso que você precisa pensar se abrir mão do desejo é algo fácil para você, ou se desejar, sentir-se atraída por alguém é um elemento fundamental na sua vida. Também me faltou informações sobre a experiência sexual com seu namorado: mesmo sem tanta atração, é gostoso? Íntimo? Satisfatório? Divertido?

Porque se for um martírio, se você já se esquiva e evita interação sexual, eu diria que ninguém merece uma agrura dessa natureza, tenha a idade que for. Eu sei que a estabilidade e a calmaria não são fáceis de encontrar, mas Deus me livre algum parceiro amoroso olhar para mim e me ver só como "gente boa" e vice-versa.

Mas essa sou eu, que tenho Eros e o bicho-carpinteiro dentro de mim. Para mim, sem encantamento não rola. Até hoje, olho para o meu marido, depois de 20 anos de casada, e o acho sexy, gostoso. Já não arranco a roupa dele no meio do dia, como no começo do namoro, mas temos essa memória erótica, que nos garante a vontade do encontro.

Não sei qual a viga principal que sustenta a relação para o seu namorado, se ele morre de tesão por você ou se gosta também é da vida que vocês têm. Penso que isso faz diferença na medida em que as expectativas estejam mais claras para os dois. O melhor dos mundos seria, a meu ver, ter uma relação não monogâmica, onde você poderia se sentir livre, caso o apelo sexual e mesmo uma paixão lhe apareça de maneira forte e pungente.


** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL