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Ana Canosa

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Satisfação sexual de lésbicas é maior, mas faltam pesquisas sobre problemas

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Imagem: Reprodução / Internet
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Ana Canosa

Ana Canosa é psicóloga clínica, sexóloga, professora, escritora e comunicadora. Apresenta o podcast Sexoterapia, em Universa/UOL. Sendo há 28 anos testemunha das mais diferentes histórias afetivas, é categórica em afirmar que muitas vezes, só o amor não é suficiente. Fala de sexualidade desde que se entende por gente, unindo seus estudos acadêmicos com a experiência clínica e seu olhar de observação do mundo.

Colunista de Universa

25/09/2021 04h00

Não há vasta literatura sobre a incidência de disfunções sexuais na população de mulheres que fazem sexo com mulheres, menos ainda sobre mulheres trans. A maior parte das pesquisas disponíveis se apoiam na população heterossexual e cisgênera.

Quando eu falo disfunção sexual, me refiro a alterações importantes e persistentes na resposta sexual, acarretando um bloqueio total ou parcial. Podem ter causa orgânica ou psicogênica. São disfunções sexuais femininas o transtorno do interesse/excitação sexual feminino, que como o próprio nome diz tem relação com o desejo e com a excitação, o transtorno do orgasmo feminino e o transtorno da dor genito-pélvica/penetração, que compreende as mulheres com dificuldade em permitir o coito e/ou que tenham dor durante a relação sexual penetrativa.

Existem condições que estão relacionadas com a disfunção sexual que independem de orientação sexual como as alterações orgânicas (hormonais, doenças), abuso de álcool e/ou drogas, transtornos mentais, falta de informação, vivências e experiências traumáticas, expectativas não atingidas, crenças sobre papéis de gênero, dificuldades no relacionamento, e também os fatores de risco como idade, renda, religião e duração do relacionamento.

Em se tratando da população LGBTQIA+, a falta de apoio social, o reconhecimento cultural, além da homonegatividade interna, são aspectos relevantes e que podem contribuir para que uma pessoa não se permita ter prazer.

Um estudo brasileiro, com 105 mulheres cisgêneras não encontrou diferença significativa na prevalência de disfunção sexual entre mulheres que fazem sexo com mulheres e mulheres heterossexuais.

No entanto, vários trabalhos mostram que mulheres cis lésbicas e bissexuais que praticam o sexo oral tem mais orgasmos e se sentem mais felizes sexualmente do que mulheres cis que fazem sexo exclusivamente com homens.

Provavelmente, esse resultado se refere ao fato de a penetração não ser o foco da relação sexual entre mulheres, embora ela possa acontecer com dildos ou vibradores.

A relação entre mulheres é com frequência fetichizada e invibilizada pela cultura. Ora entra na categoria fetiche masculino, que reforça a ideia do supermacho, ora na categoria "preliminares", como se o sexo lésbico fosse sempre um encontro entre meninas adolescentes.

Aliás, é essa normalmente a primeira leitura que um homem faz quando a sua mulher diz que está com vontade de fazer sexo com outra mulher. Acho curioso como tem mais tolerância com essa ideia do que quando as companheiras desejam fazer sexo com outro homem, algo que lhes gera mais insegurança. No entanto, se formos pelos dados, o risco de satisfação na relação entre mulheres parece ser maior.

Posições sexuais, acessórios e sex toys, prática do sexo oral, práticas penetrativas, mecanismos para prevenção de ISTs, ciclos menstruais assíncronos: o sexo entre mulheres tem suas especificidades.

E, embora a satisfação sexual seja maior, isso não significa que não haja dilemas. Algumas mulheres lésbicas, por exemplo, são passivas e se recusam a fazer sexo oral ou penetrar as suas parceiras, sendo que o reverso também acontece: "ativas" que não permitem ter seus corpos explorados.

Essa manifestação de estilos sexuais, me parece, não só dizem respeito às experiências pessoais e identitárias, mas também nos mostra que a vivência homoerótica feminina pode ser atravessada pelos territórios heteronormativos, cristalizando cada pessoa em uma única "função", limitando a experiência erótica do par.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL